PAPEIS AVULSOS DO DEPARTAMENTO DE ZOOLOGIA VOL. IV Secretaria da Agricultura, Indústria o Comércio SÃO PAULO (BRASIL) — 1944 — " Os números tios PAPÉIS AVULSOS são, em parte, distri- buídos pelos próprios autores, sob a forma de separata, logo após a sua impressão, ficando a cargo do Departamento de Zoologia a distribuição do volume completo. Artigos de colaboração externa só serão aceitos na medida do espaço disponível, sujeitando-se seus autores às alterações jul- gadas eventualmente necessárias para a homogeneidade do texto. Cada autor, conforme a praxe, terá direito a um certo nú- mero de separatas, nunca superior a 100. Toda a correspondência referente aos PAPÉIS AVULSOS deve ser endereçada ao Diretor Superintendente do Departamento de Zoologia, a quem devem ser também encaminhados quaisquer originais que à publicação se destinem. As publicações enviadas em permuta com os presentes PA- PÉIS AVUtSOS devem ser endereçadas .'explicitamente à Biiílioteca do Departamento de Zoologia da Secretaria da Agricultura. Caixa Postal, 172-A — S. PAULO — BRASIL PAPEIS AVULSOS DO DEPARTAMENTO DE ZOOLOGIA VOL. IV Secretaria da Agricultura, Indústria e Comércio SÃO PAULO (BRASIL) SUMARIO Prefácio V Vieira, C. C. Os símios do Estado de São Paulo .... 1 Soares, B. M. Um novo opilião da Bahia 34 D’Almeida, R. Ferreira Nota suplementar à “Revisão das espécies america- nas da superfamília Danaoidca” 37 Guimarães, Lindolpho R. Um novo malófago do surucuá. Trogonurus auran- tius (Spix) 71 Guimarães, Lindolpho R. Mais um caso de associação entre MaUophaga e Hip- poboscidae . 79 Carrera, Messias Chave sinóptica da subfamília Leptogastrinae (Dipte- ra, Asilidae), com a descrição de um novo gênero e uma nova espécie 85 Navajas, E. Sôbre a validez de Fulcidax violaceus (Klug, 1824) (Col. Fulcidacidae) ....... 95 Guimarães, Lindolpho R. Sôbre os Menoponidae {Mallophaga) encontrados em Tinamiformes ......... 105 Pinto, Olivério Sôbre as aves do Distrito de Monte Alegre, Município de Amparo (São Paulo, Brasil) 117 Soares, B. M. • Aracnídeos de Monte Alegre 151 cm SciELO 10 11 12 13 14 15 16 IV SUMARIO PÁGS. Campos, A. Amarai. Primeira contribuição ao conhecimento da fauna ictio- lógica de Monte Alegre (Estado de São Paulo) . 169 Soares, B. M. Mais alguns opiliões de Boracéa . . . . 177 Travassos Filho, Lauro Interessante anomalia em um Cosmosoma tcuthras (Walker, 1854) ( Lcpid Ctenuchidae Kirby, 1837) 187 Campos, A. Amaral Peixes da subfamília Mylinac existentes na coleção do Departamento de Zoologia da Secretaria da Agricul- tura de São Paulo 197 Navajas, E. Algumas notas sobre a nomenclatura dos fulcidací- deos ( Col . Chrysomeloidea ) 213 Soares, B. M. Opiliões do Alto da Serra 221 Soares, B. M. Notas sôbre opiliões 248 Soares, B. M. Opiliões do Alto da Serra II 277 Wygodzinsky, Petr Sôbre uma nova espécie de Plusiocanipa ( Entotrophi , Campodcidac) do Brasil 303 Soares, B. M. Alguns rgparos a “Notas sôbre opiliões - V a XIII” . 309 D’Almeida, F. Ferreira Sôbre a nomenclatura de alguns grupos superiores da ordem Lepidoptera - 3 . 11 nota: famílias Lenwniidoe, Megalopygidac e superfamília Euclcoideci . . . 313 Soares, B. M. Notas sôbre Aranhas I 319 Soares, Hélia Eller Monteiro Um novo opilião do Paraná 321 Índice alfabético 325 PREFÁCIO Sai a lume o tomo IV dos Papéis Avulsos, sem apresentar, em sua parte material, com referência ao volume anterior, qual- quer inovação digna de nota. No que toca porém ao seu conteúdo, encerra êle apenas dois artigos de colaboração estranha, o que é índice lisbngeiro da crescente atividade dos funcionários téc- nicos do Departamento de Zoologia. Bem maior seria certamente esta produção se não continuasse o instituto a lutar com absoluta falta de pessoal para atender às necessidades rotineiras da maio- ria de suas divisões, cujo patrimônio apesar disso não cessa de crescer, através de novas expedições de coleta, de modo a pre- parar campo sempre mais vasto e apôio cada vez mais sólido aos especialistas que oportunamente delas se venham ocupar. Tão precária situação em matéria de pessoal veio a se tor- nar ultimamente ainda mais sensível com a transferência para o Museu Nacional de um de seus mais competentes colaboradores, o sr. Romuai.do Ferreira d’Almeida, que ainda enriquece o pre- sente volume com dois trabalhos sobre Lepidópteros, grupo cm que adquiriu grande autoridade. A despeito das dificuldades próprias da época presente, está já bastante adiantado o preparo do tomo V, que talvez cm come- ços do ano próximo já possa ser distribuído. S. Paulo, 8 de novembro de 1944. Ouvério Pinto. cm SciELO 10 11 12 13 14 15 16 Yol. IX', N.” 1 — pp. 1-31 10-111-1944 PAPÉIS AVULSOS DO DEPARTAMENTO DE ZOOLOGIA SECRETARIA DA AGRICULTURA - S. PAULO - BRASIL OS SÍMIOS DO ESTADO DE SÃO PAULO POR C. C. VlF.lRA A sistemática cios símios neotrópicos, como é notório, conti- nua ainda bastante confusa, principalmente no que concerne ao gê- nero Ccbus que, não obstante ter sido tão. discutido, ainda per- manece em parte obscuro quanto às espécies e subespécies real- mente válidas que pode abranger. Natterer, quando percorreu em 1818 limitada zona de São Paulo, colecionou sete espécies de símios que foram descritas por Pelzeln em 1883 no seu “Brasilische Sacugetliiere”, trabalho que constitue a mais seria base em que se pode assentar as determi- naçõs das espécies de mamíferos existentes em nosso estado. Goeldi, em sua “Monografia dos Mamíferos do Brasil” e Herman von lhering em seu “Catálogo dos Mamíferos de São Paulo”, publicados respectivamente em 1893 e 1894, adotaram in totiim as conclusões de Pelzeln, citando ambos apenas sete es- pécies válidas em todo o território paulista. Também Elliot em sua volumosa revisão dos primatas de todo o mundo, mencionou para o estado de São Paulo o mesmo nú- mero de símios, o que não corresponde à realidade, pois se é mais ou menos acertado o número de espécies que atribue ao gênero Ccbus, o mesmo não se dá quanto aos gêneros CalUthrix e Calli- cebus, realmente possuidores de mais formas em nosso estado. Revendo a grande coleção de peles e crânios de primatas bra- sileiros obtidos durante mais de quarenta anos pelo antigo Museu Paulista e, mais recentemente, pelo Departamento de Zoologia, ti- o PAPÉIS AVULSOS Vol. IV — N.° 1 vemos a oportunidade de verificar com certa segurança as formas que efetivamente ocorrem dentro dos limites do estado de São Paulo. Constatamos assim a presença de três calitriquideos e nove cebídeos, quantidades essas bem mesquinhas comparadas com o total de primatas atualmente existentes no Brasil: cerca de cento e vinte formas, das quais, oitenta são de cebídeos e quarenta de calitriquideos. Sendo a fauna de mamíferos do estado de São Paulo, como aliás a de todo o Brasil, ainda imperfeitamente conhecida, é pro- vável que outros símios dos estados limítrofes ocorram nas zonas ainda pouco exploradas sob o ponto de vista científico. Tal é o caso de Cebus paraguayanus que, possivelmente, será encontrado no extremo sudoeste do estado, zona da qual nenhum material possuímos. Chave para as famílias e espécies de simios ocorrentes no estado de São Pauio 1 - Com 32 dentes Com 36 dentes ...... 2 - Pelos da nuca e do pescoço lon- gos, formando uma espécie de juba; caninos inferiores maio- res que os incisivos (uma úni- ca espécie) Pelos da nuca e do pescoço cur- tos; caninos inferiores quase i- guais aos incisivos .... 3 - Alto da cabeça amarelado; pin- céis das orelhas brancos . Alto da cabeça cinzento; pin- céis das orelhas pretos 4 - Cauda não preênsil Cauda preênsil 5 - Alto da cabeça amarelo muito claro; cauda pardo avermelhada Alto da cabeça cinzento; cauda pardo escura 6 - Osso hióide extremamente dila- tado; fornida barba no mento . família Calutrichidae família Cebidae gênero Lcontocebus gênero Callithrix C. aurita C. penicillata gênero Callicebus . C. personatus C. nigrifrons gênero Aloiuüta 2 4 3 5 6 7 10-III-1944 — C. C. Vieira Símios do Estado dc São Paulo 3 Osso hióicle normal; barba es- cassa ou ausente 8 7 - Colorido geral do macho adul- to, preto A. caraya Colorido geral do macho adul- to, castanho A. fusca 8 - Polegares rudimentares ou au- sentes (uma única espécie) . gênero Brachyteles Polegares completos . . . gênero Cebus ... 9 9 - Pelos do dorso de colorido u- niformemente pardo escuro 10 Pelos do dorso de colorido não uniformemente pardo escuro 11 10 -Pelos da cabeça dispostos late- ralmente em dois tufos distin- tos C. nigritas Pelos da cabeça esparramados, sem formarem dois tufos dis- tintos C. frontatus 1 1 - Pelagem do dorso entremeiada de longos pelos brancos; gar- ganta e peito cinza claro; cau- da toda preta C. vellerosus Pelagem do dorso sem pelos brancos; garganta e peito par- do muito claro; cauda preta só na extremidade C. versiitus Família CALL1TRICH1DAE Símios platirríncos de cauda não prêensil, caracterizados pela formula dentária i c ]. p y, m y= 32. Gênero Leontocebus Wagner Leontocebus Wagner. 1839, Schreber’s Saeugethiere, Suplem. I, p. 248; Elliot, 1913, A Review of the Primates, vol. I, p. 194. Leontopithccns Lesson, 1840, Spec. Mammal., p. 200 (sub- gênero de Midas). Midas ( Tamarinus ) Trouessart, 1904, Cat. Mammal., Sup- plcm., p. 29. 4 PAPÉIS AVULSOS Vol. IV N." 1 Genótipo, por designação de Thomas, Midcis chrysomclas Kuhl. Pelos da cabeça e do pescoço longos, assemelhando-se a uma juba; cauda muito comprida, excedendo em muito o comprimento do corpo e com a extremidade peluda, em forma de pincel. Leoutocebus chrysopygus (Wagner) “Sagüi”, “Sauim". Hapale chrysopyga Wagner, 1840, Schreb. Saeugeth., Sup- plem., 1, p. 249. Midas chrysopygus Pelzeln, 1883, Brasilische Saeugethiere, p. 26; Forbes, 1894, Handb. Primates, p. 144; H. lhering, 184. Os mamíferos de São Paulo, p. 30. Midas ( Tamarinus ) chrysopygus Trouessart, 1904, Cat. Mammal., Suplem. p. 28. Mystax chrysopygus Thomas, 1922, Ann. Mag. Nat. Hist., Sé- rie 9, vol. 9, p. 198. Leontocebus ( Tamarinus ) chrysopygus Elliot, 1913, A Re- view of the Primates, vol. I, p. 200. Locaudade tipo: Ipanema, estado de São Paulo. Cabeça preta com tons arruivados nos pelos das extremida- des da juba; dorso preto, assim como o peito; pelos da fronte a- marelo pardacentos; mãos e pés, pretos; ventre, côxas nas partes inferiores e uropígio, amarelo ferrugíneo; cauda preta em toda a extensão, exceto na base que é amarelo doirada. Dimensões externas: N. u 2.140 - cabeça e corpo 290; cauda 330; mão 65; pé 70. Dimensões do crânio: N.° 2.140 - comprimento total 56; comprimento occipito-nasal 54; comprimento palatilal 19; largura bizigomática 35; largura da caixa craniana 29; largura interorbital 6,5; série dos molares superiores 15; comprimento da man- díbula 37. Exemplares no Departamento de Zoologia: N.° 470 - Estado de São Paulo, Garbe col., montado. 10-III-1944 — C. C. Vieira Símios do Estado de São Paulo ã N.° 2.140 - 3 - Vitoria, município de Botucatú, Garbe col., 1 4- V 1 1-902, pele cheia. N.° 2.141-3 - Vitoria, município de Botucatú, Garbe col., 1 4-V 1 1-902, pele cheia. N.° 2.063 - S - Baurú, estado de São Paulo, oferta do Dr. ü. Humel, X-905, pele aberta. Descoberto por Natterer em 1822 perto de Ipanema, este belo sagui foi por vários autores incluído nos gôneros Hapale e Midas. Além do crânio, seus caracteres externos são os mesmos do típi- co Leontocebus. E’ pouco conhecido, parecendo não ter distribui- ção muito ampla. Constitue raridade nas coleções dos museus ou em cativeiro. No Rio de Janeiro, ocorre L. rosalia, espécie unicolor, vulgarmente chamada “Mico-leão” que, como já notara H. Ihering, é possível que também ocorra nas regiões montanhosas limítro- fes do estado de São Paulo. Gênero Callithrix (') Erxeleben Callithrix Erxeleben, 1777, Syst. Regn. Anim., p. 55; Troues- sart, 1904, Cat. Mammal., Supplem., p. 28; Elliot, 1913, A Review of the Primates, 1, p. 216. Hapale 1 i.LiGER, 1811, Prodr. Syst. Mammal et Avium, p. 71. Jacc/uis E. Geoffroy, 1812, Ann. Mus. Hist. Nat. Paris, XIX, p. 118. Genótipo: por designação de Thomas, Simia jacchus Lin- naeus. Orelhas relativamente grandes, mias e revestidas internamen- te de tufos de pelos em forma de pincéis; olhos grandes; cauda maior que o corpo e sempre de colorido amarelado. Mãos com pal- mas relativamente longas e curtas, dedos curtos e bem separados entre si. Crânio arredondado; incisivos inferiores longos e quase iguais aos caninos em altura; incisivos superiores também longos, mas bem menores que os caninos; mandíbula fraca e estreita. ( 1 ) Não tendo sido obtida suspensão das regras de nomenclatura para Hapale, nome consagrado pelo uso no último Congresso Internacional de Zoo- logia, tem prioridade Callithrix de Erxeleben como já foi demonstrado por Thomas (Ann. Mag. Nat. Hist., série 7, vol. XIÍ, 1903, p. 457). Vol. IV — N.° 1 6 PAPÉIS AVULSOS Das dez espécies brasileiras, somente duas foram até agora encontradas no estado de São Paulo: C. penicillata e C. aurita. Callithrix penicillata jordani (Thomas) “Sagiii”, “Sauim”. Callithrix penicillata jordani Thomas, 1904, Ann. Mag. Nat. Hist., série 7, vol. 14, p. 188; Elliot, 1913, A Review of the Primates, vol. I, p. 227. Hapale penicillata (não de Geoffroy) Pelzeln, 1883, Brasi- lische Saeugethiere, p. 22 (porto do rio Paraná, S. Paulo. Localidade tipo: rio Jordão, Minas Gerais. Cabeça pardo acinzentada; fronte com mancha branca semi- circular; orelhas mias, pretas, com longos tufos de pelos negros em forma de pincéis nas bases de suas aberturas; pelos do dorso de tom cinza esbranquiçado, mas com base ocrácea e faixas trans- versais escuras; garganta escura; peito e ventre, cinza muito cla- ro; braços e côxas, cinza muito claro, com tons amarelados; mãos e pés amarelados; cauda cinza escuro com anéis brancos. A forma típica da Baía C. penicillata penicillata é pouco me- nor e de colorido mu ito mais vivo, principalmente na cabeça e no dorso. Também difere nos dentes, pois teem os incisivos muito mais largos. Esta raça é bem conhecida em Goiaz e Minas Gerais, de onde o Departamento de Zoologia possue abundante material. Em São Paulo parece ocorrer sómente ao norte, nas divisas de Minas Ge- rais. Natterer colecionou-o em 1823 à margem esquerda do rio Grande, que é mencionado por Pelzeln como o “rio Paraná”. Dimensões externas e cranianas: e Cabeça e corpo j Cauda o §•_ c 3 2 '2 j o u Comp.° ii palatilal | • tC 3 .a ú c rt S; «o ■J b c u v- u 1 « — X 3 Larg.* interorbital Série molares | superiores Comp.° 1 mandibular 1 1.425 $ j. 220 265 46 14 26,5 24 5 8,5 26 1.426 $ 240 280 47 15 31 25 5,5 9 29 1.447 9 231 270 46 14,5 30 24 5 9 28 3.921 ? ' 230 270 • 45 15 30 23 5,5 9 27 10-111-1944 — C. C. Vieira — Simios do Estado de São Paulo 7 Exemplares no Departamento de Zoologia: Ns. 1.422, 1.423, 1.425 e 1.426 - J í - rio Grande, município de Barretos, estado de São Paulo; E. Garbe col., 1904; peles abertas. Ns. 1.270 e 1.271 - S $ - Catalão, estado de Goiaz; Dreher col.; V-904; peles abertas. Ns. 1.446, 1.447 e 2.753 - $ 9 - Ponte do Ipê Arcado, estado de Goiaz; Dreher col., V-904; peles abertas. Ns. 3.920 e 3.921 - 9 9 - rio das Almas, estado de Goiaz, José Lima col., X-934; peles cheias. Callithrix aurita (E. Geoffroy) “Sagiii”, “Sauim”. Jacchus auritus E. Geoffroy, 1812, Ann. Mus. Hist. Nat. Pa- ris, XIX, p. 119. Hapale aurita Gray, 1870, Cat. Monkeys, Lemurs and Fruit- eating Bats, p. 63; Pelzeln, 1883, Brasilische Saeugethie- re, p. 21 (Mato Dentro, São Paulo); H. Ihering, 1894, Os Mamíferos de São Paulo, p. 30. Callithrix aurita Elliot, 1913, A Review of the Primates, p._225. Localidade tipo: Rio de Janeiro. ( 2 ) Cabeça amarelada, orelhas núas, pretas e com tufos brancos; fronte branca; dorso muito escuro, quase negro, entremeiado de pelos ocráceos; ventre ocráceo, com a região central quase negra; braços e pernas, ocráceos; mãos e pés amarelo cromo; cauda ne- gra na base, tornando-se clara e com anéis negros até a extre- midade, que é ocrácea. E’ este o sagiii mais encontradiço por todo o interior de São Paulo, sendo comum na zona litoranea da serra do Mar, desde o estado do Rio de Janeiro ao Paraná. ( 2 ) Tendo E. Geoffroy mencionado apenas o Brasil como pátria deste sauim e, sendo o exemplar sóbre o qual baseiou a sua espécie, procedente do Museu de Lisboa, é quase certo ter sido caçado nos arredores do Rio de Janeiro. 8 PAPÉIS AVULSOS Vol. IV — N.° 1 Dimensões externas e cranianas o 'Á Cabeça e corpo *d 3 rs O Comp.° total do crânio £ rt a *• «rt tí u U o A « ’rt u II Larg.* | interorbital. Série molares superiores Larg. a bi- J zigomática u ce ôí 1.868 $ 250 350 — — — — — — — 3.710 $ 240, 340 — — — — — — — 1.865 $ — — 48 16 29 5 10 — 30 2.355 $ — — 47,5 16 27,5 5 10 — 30 1.867 9 — 47 15 27,5 5 9,5 — 27,5 Exemplares no Departamento de Zoologia: N.° 3.710 - 9 - Itatiba, estado de São Paulo, Lima col., 1926; pele cheia. N.° 3.723 - 3 - Itatiba, estado de São Paulo, Lima col., 1926; pelecheia. N.° 3.065 - o? - São João, estado de São Paulo, Bakkenist col., 1929; pele aberta. N. ü 3.750 - o? - São João, estado de São Paulo, Bakkenist col., 1929; pele aberta. N. u 1.868 - 3 - Ubatuba, estado de São Paulo, Garbe, col., VI- 905; pele aberta. N." 1.867 - 9 - Ubatuba, estado de São Paulo, Garbe, col., VI- 905; crânio. N." 2.355 $ - “Estado de São Paulo”, coleção antiga, montado. N." 1.865 3, 1.866 9 - Ubatuba, estado de S. Paulo, montado. N. u 2.702 - o? - “Estado de São Paulo”, montado. Família CEBIDAE Símios platirríneos com cauda quase sempre preênsil, caracte- rizados pela fórmula dentária: i \ c -p p j, m -j = 36. Subfamília ALOUATT1NAE Macacos de tamanho avantajado com cauda longa e preênsil, núa na parte inferior de sua extremidade; polegar bem desenvol- vido; ambos os sexos munidos de fornida barba. O que caracteria porém este grupo é o osso hióide enorme- mente dilatado formanzdo uma verdadeira caixa de resonância que 10-IIT-1944 • — C. C. Vieira — Símios do Estado de São Paulo 9 permita aos membros deste grupo emitirem sons que podem ser ouvidos a grandes distâncias. Gênero Alouatta Lacèpède ( 3 ) Alouatta Lacépéde, 1799, Tabl. Div. Sous.-divis. Ordres et Genres de Mammiféres, p. 4; Forbes, 1896, A Handbook to the Primates; Trousseart, 1904, Cat. Mammal Supletn., p. 21; Elliot, 1913, A Review of the Primates, vol. I, p. 258. Mycetes Illiger, 1811, Prodr. Syst. Mammal. et Avium, p. 70; Gray, 1870, Cat. of the Monkeys, Lemurs and Fruit- eating Bats, vol. I, p. 38. Stentor E. Geoffroy, 1812, Ann. Mus. d’Hist. Nat. Paris, XIX, p. 107. Crânio muito característico; forma piramidal; caixa encefá- lica mu ito deprimida; região occipital bruscamente terminada; mandíbula extremamente reforçada com ângulo muito aberto. Dentes incisivos verticais; caninos grandes e salientes, os su- periores ligeiramente recurvos; molares superiores muito largos. Das onze formas deste gênero que ocorrem no Brasil, só- mente duas são encontradas em território paulista: A. caraya e A. fusca iheringii. Genótipo: Simia beelzebul Linnaeus. Alouatta caraya (Humboldt) “Bugio preto”, “Guariba” Simia ( Stentor ) caraya Humboldt, 1811, Recueil d’Observa- tions de Zoologie, vol. I, p. 355. ( 3 ) Miranda Ribeiro, em 1914 (Comissão dc Linhas Telegráficas Ata- to Grosso ao Amazonas, Anexo 5, Zoologia, p. 5) propôs mudar a denomi- nação do gênero Alouatta para Ccbus, passando este a denominar-se Pseudo- ccbus. Baseiava-se no fato de serem as duas primeiras espécies do gênero Ccbus de Erxelcben (então com nove espécies), dois aluotíneos : bclzclml e scniculus. Como nota Cabrera (Physis, t. XVI, 1939, p. 14), além dc já ter sido designado cm 1907, por Elliot, o tipo do gênero Ccbus, separado do grupo de simios assim denominados por Erxelcben em 1777, o código das Regras de Nomenclatura aconselha erigir cm tipo uma das espécies que não foram separadas do gênero primitivo e, justamente, os dois alouatíneos mencionados que figuravam no heterogêneo grupo de Erxelcben, foram dos primeiros se- parados para formarem um gênero aparte. 1, ISciELO 10 PAPÉIS AVULSOS Vol. IV N.° 1 Mycetes barbatus Spix, 1811, Simiarum et Vespertilionum Brasiliensium, p. 46, pl. 32 (Baía). Stentor niger E. Geoffroy, 1812, Ann. Mus. Hist. Nat. Paris, XIX, p. 108. Mycetes caraya Pei zeln, 1883, Brasilische Saeugethiere, p. 4. (Vila Maria, Mato Grosso). Alouatta nigra Forbes, 1894, A Handbook to the Primates, p. 195, pl. I. Alouatta caraya Elliot, 1913, A Review of the Primates, vol. 1, p. 265; H. lhering, 1914, Rev. Mus. Paul., vol. IX. p. 248. Localidade tipo: Paraguay. Macho adulto: pelos longos atingindo 5 centímetros no dor- so; barba fornida e espessa; colorido geral preto, com ligeiros re- flexos pardacentos no dorso; muitas vezes as mãos e os pés con- servam pelos pardo-oliváceos, vestígios de imaturidade. Macho imaturo: dorso, cauda, pernas, peito e ventre, amarelo- oliváceos sobre fundo negro. Fêmea adulta e imatura, inteiramente amarelo-olivácea, com pelos escuros na cabeça e no dorso. O osso hióide desta espécie distingue-se imediatamente do de A. fusca em ter o “tentório” ( 4 ) muito reduzido ou às vezes completamente ausente. Também o crânio apresenta algumas di- ferenças, principalmente nos ossos nasais que são alongados e quase retos, em vez de curtos e côncavos como naquela espécie. Dimensões externas e cranianas N.° 1 Cabeça e corpo I 1 Cauda Comp.° total do crânio Comp.° palatilal .4. cj .0.0 bo Jf • á g-s ►J rt ’rt (j Larg.* | interorbital ! Série molares superiores O jjj d 3 8 f9 o -o V c c3 B 5.891 S 600 620 126 42 82,5 47 11 34 94 5.892 $ ')■ 650 620 117,5 41 78 50 10 34 92 1.930 $ 600 620 126 42,5 85,5 52,5 11 35 96 3.059 9 500 545 115 34 68 51 10 29 78 3.109 9 500 550 101 35 71 50 8 29 78 ( 4 ) H. lhering (Rev. Mus. Paulista, vol. IX, p. 239, 1914) denomi- nou “tentório" a lamela formada pela margem posterior do corpo do osso hióide. 11 30-III-1944 - — C. C. Vieira — Símios tio Estado de São Paulo Dimensões do osso hióide: N.° Maior altura Maior largura Altura do tentório Altura da abertura 1.930 3 54 34 0 37 3.365 3 61 48 0 41,5 3.769 9 ■■ 55 38 9 37,5 Dentre todas as espécies deste gênero é A. caraya a que tem mais larga distribuição, ocorrendo desde o Perú e Equador até o Paraguay e norte da Argentina. No Brasil, é conhecida em Mato Grosso, Goiaz, Bahia, Minas Gerais, São Paulo, Paraná e Santa Catarina. No estado de São Paulo ocorria outrora por todo o interior, sendo hoje encontrado sómente nas regiões em que ainda existem grandes matas. Não ocorre no litoral. Exemplares no Departamento de Zoologia: N.° 1.401, 1.405, 1.406, 1.407 e 1.408, 3 5 - rio Grande, muni- cípio de Barretos, estado de São Paulo, Garbe col., 1904, pe- les abertas. N.° 1.929 - 3 - Itapura, estado de São Paulo, Garbe col., 1904, pele aberta. N.° 3.055, 3.059 e 3.110, $ 9 ; 3.060, 3.061 e 1.108, 3 3 - Pira- pora, estado de Minas Gerais, Garbe col., 1912, peles abertas. N.° 1.934, 4.095 . 53 - Barra do rio São Domingos, Goiaz, José Blaser col., 1938, peles abertas. N.° 3.365 - 3 - Corumbá, estado de Mato Grosso, Garbe col., 1917, pele aberta. N.° 3.769 - 9 - Miranda, estado de Mato Grosso, Lima col., 1930, pele aberta. N.° 5.891 e 5.892 - 3 3 - Salobra, estado de Mato Grosso, Lane e Travassos col., 1941, peles cheias. Alouattii fusca ilieringii (Lónnberg) “Bugio ruivo”, “Guariba” Stcntor fuscas E. Gfoffroy, 1812, Annales du Museum, to- me XIX, p. 108. 12 PArÉIS AVULSOS Vol. IV — N.“ 1 Mycetes f usais Spix, 1813, Simiarum et Vespertilionum Bra- siliensium, p. 43, pl. XXX (Ipanema, S. Paulo); Schle- gel, 1876, Monographie des Singes, p. 154 (Nova Fribur- go, Rio de Janeiro); Pelzeln, 1883, Brasilische Saeuge- thiere, p. 3 (Mato Dentro, Ipanema e Itararé, São Pau- lo); H. Ihering, 1893, Os Mamíferos de S. Paulo, p. 29. Alouatta ursinct Elliot, 1913, A Review of the Primates, p. 274 (Roça Nova, estado do Paraná), em parte. Alouatta fusca guariba H. Ihering, 1914, Rev. Mus. Paulis- ta, vol. IX, p. 248. Alouatta fusca iheringii Loennberg, 1941, Arkiv foer Zoolo- gi, band 33.- 1 , n.° 10, p. 23 (novo nome para A. fusca guariba). ( 5 ) Macho adulto: pelo maior e barbas mais espessas que na es- pécie precedente; cabeça castanho escura; face preta; barba cas- tanho muito escura; pelos do peito e ventre, pretos; pelos do dor- so pardos, com pontas amarelas, o que produz reflexos doirados, mais vivos nas proximidades da base da cauda; cauda com pelos pardos e pretos misturados, predominando estes; mãos e pés pretos. Macho jovem: colorido geral pardo muito escuro com o dor- so mais claro; mãos e pés pretos. Fêmea adulta: colorido geral pardo muito escuro; dorso ar- ruivado; barbas, pernas, mãos, pés e cauda, pretos. Fêmea jovem: colorido geral amarelo oliváceo; cabeça e bar- bas arruivadas. Difere esta raça de A. fusca de Minas Gerais, Espírito Santo e Bahia em serem os machos de colorido mais pardo avermelhado e as fêmeas muito mais escuras, quase negras. O crânio e o osso hióide todavia não apresentam diferenças apreciáveis. ( 5 ) Estando o nome subespeciíico guariba proposto por H. Ihering em 1914, preocupado por Símia guariba (= Simia bcchebul Gmelin, I, p. 36), Humboldt, 1815, Recueil d'Obscrvations de Zoologie et d’Anatomie Compa- rée, p. 355, Loennberg, 1941, propôs o nome iheringii para substituí-lo justa homenagem ao grande naturalista que por tantos anos dirigiu o Museu Pau- lista, 10- 1 11-1944 — C. C. Vieira — Símios do Estado de São Paulo 13 Dimensões externas e do crânio: e ^ 'Z ^ Cabeça e corpo JS t3 cZ, Comp.° total cio crânio Comp.° palatilal .J. rt e '(V f 1 3% «e fcO u O S «. .t2 Ú.-P u . 3 £ Série molares superiores Comp.° superiores Õ.S6S O 560 570 116 40 72,5 46,5 11 33,5 94 5.S99 s 600 570 116,5 40 73 48,5 11 33 97 1.672 s 600 570 99 31,5 67 47,5 8 30 77,5 97 9 500 520 97,5 34 66.5 48 8 30 76 5.900 9 540 547 97,5 34 66,5 48 8 30 76 Dimensões do osso hióide: N.° Maior altura Maior largura Altura do tentório Altura da abertura 407 3 65 44,5 17,7 32,5 412 $ 61 40 20 27 5.868 $ j. 58 42,5 11 32 1.687 $ 60 33,5 11,5 32 Ocorre esta raça desde a zona montanhosa do litoral do es- tado do Rio de Janeiro, através de São Paulo, Paraná e Santa Ca- tarina até o norte do Rio Grande do Sul. (“) Hermann von Ihering em sua monografia do gênero Alouatta (Rev. Mus. Paulista, vol. IX, p. 247), afirmou ser esta forma pe- culiar ao litoral paulista e, em seu mapa da distribuição geográ- fica do gênero Alouatta, estampa VI, figurou A. fusca como ocor- rendo somente numa faixa que, abrangendo as serras do Mar c da Mantiqueira, alcança para o interior, pouco além da Capital. Entretanto, ocorre por todo o oeste do estado, onde ainda po- de ser encontrada nas zonas de grandes matas. O Departamento possue dois bons exemplares caçados no mu- nicípio de Lins, muito além dos limites marcados por Ihering em sua distribuição. ( c ) Cf. H. Ihering, Os Mamíferos do Rio Grande do Sul, 1S92. 14 PAPÉIS AVULSOS Vol. IV — N.* 1 No município da Capital é ainda encontrada com frequência na serra da Cantareira. Exemplares no Departamento de Zoologia: N.° 97 - $ - São Sebastião, São Paulo, Bicego col., 1895 (pele aberta). ’ N.° 317 - 9 - Pinheiros (cid. de São Paulo), São Paulo, oferta (pele aberta). Na 407 - $ - Alto da Serra, São Paulo, comprado, 1900 (pele aberta). 1 N.° 3.287 - juv. - “Estado de São Paulo”, 1914 _ montado. N.° 5.865 - 5.867 - 5.868 - í í - e 5.866 - 9 _ Cuca, serra da Cantareira, São Paulo, Dr. Lauro Travassos Filho col., XII- 940 (peles cheias e crânios). N.° 5.869 - S - serra da Cantareira, São Paulo, Dr. Flavio da Fonseca col., 1940 (pele aberta). N.° 5.899 - 5 e 5.900 - 9 - Município de Lins, São Paulo, Olalla col., 1-941 (peles cheias e crânios). N.° 2.464 - s - “Paraná”, E. Garbe col., 1907 (pele aberta). N.° 430 e 579 - S S - Colônia Hansa, Santa Catarina, Erhardt col., 1898 (peles abertas). N.° 1.671 e |1.672 - S S - Joinvilc, Santa Catarina, Grossmann col., 1900 (peles abertas). Subfamília ATELINAE Grandes símios caracterizados pelos membros compridos e fi- nos e grande cauda extremamente preênsil, com extremidade núa na parte inferior. Mãos com polegares completos, atrofiados ou in- teiramente ausentes. Compreende os gêneros Lagothrix, Ateies e Brachvtcles, ocor- rendo somente este no estado de São Paulo.. Gênero Bachyteles Spix Brachytelcs Spix, 1823, Simiarum et Vespertilionum Brasilien- sium, p. 36; Gray, 1870, Cat. Monkeys, Lemurs and Fruit-eating Bats, p. 45; Trouessart, 1904, Cat. Mam- mal., Supplementum, p. 22. Eriodes, 1829, I. Geoffroy, Mem. Mus. Hist. Nat. Paris, XVII, p. 160. Brachytcleiis Elliot, 1913, A Review of the Primates, p. 49. 10-III-1944 — C. C. Vieira — Símios do Estado de São Paulo 15 Genótipo, por designação original, Brachyteles macrotarsus Sjix = Ateies arachnoides E. Geoffroy. Estão compreendidos neste 'gênero os maiores e mais robus- tos macacos da América. Cabeça arredondada; face achatada, com ângulo facial re- lativamente grande; membros longos e delgados; mãos, com po- legar rudimentar ou ausente, unhas comprimidas e agudas; cauda maior que o corpo, mia na parte inferior e muito prêensil. Pelos lanosos e espessos recobrindo todo o corpo; faces mias. Crânio com caixa encefálica arredondada; ossos premaxilares articulados com ossos nasais por uma larga superfície; mandíbula muito alta na parte posterior. Dentes caninos não muito maiores que os incisivos que são todos do mesmo tamanho; molares superiores largos e colocados quase ao mesmo nívei dos caninos. Brachyteles nrnclinnides arachnoides (E. Geoffroy) “Muriquim”, “Mono carvoeiro”, “Mono” ( 7 ) Ateies arachnoides E. Geoffroy, 1800, Ann. Mus. Hist. Nat. Paris, VII, p. 271. Eriodcs arachnoides Pelzeln, 1883, Brasilische Sauegethie- re, p. 8 (Ipanema, São Paulo); Goeldi, 1893, Os Mamí- feros do Brasil, p. 41; H. Ihering, 1893, Os Mamíferos de São Paulo, p. 29. Brachyteles arachnoides Gray, 1870, Cat. Monkeys, Lemurs and Fruit-eating Bats, p. 45; Forres, 1894, A Handbook to the Primates, p. 226; Trouessart, 1904, Cat. Mamma- lium, Suplementum, p. 22. Brachytelcus arachnoides Ei.liot, 1913, A Review of the Pri- mates, vol. II, p. 50 (em parte). Localidade tipo: Rio de Janeiro. ( s ) ( 7 ) O nome popular “Mono carvoeiro” dado aos machos velhos que adquirem colorido mais escuro, foi-nos fornecido pelo snr. Frederico Lane, digno Assistente do Departamento de Zoologia e profundo conhecedor da zona litorânea do nosso estado. ( s ) K. Geoffroy, “Mémoire sur les Singcs à main imparfaite ou Ate- ies” Ann. Mus. Hist. Nat., Paris, 1806, tome VII, p. 270, referindo-se ao seu Ateies arachnoides, diz: “Je donnc ce nom à 1’atélc brun et je 1’emprunte 16 Vol. IV — N.° 1 PAPÉIS AVULSOS O macho adulto tem a cabeça com colorido pardo muito escu- ro; mento amarelado; face núa, côr de carne; dorso pardo, lavado de oliváceo, amarelo ferrugíneo na parte inferior e amarelo par- dacento na superior; pernas, mãos e pés, amarelo castanho; peito e ventre, oliváceos. O colorido da fêmea adulta é diferente: cabeça, pescoço e parte do dorso, pardos; resto do corpo, inclusive a cauda, ama- relo oliváceo claro. Os jovens de ambos os sexos são de colorido amarelo olivá- ceo muito claro e a pele da cara muito escura. Esta espécie ocorre na zona montanhosa do litoral sul do Brasil, do estado do Rio de Janeiro ao norte do Rio Grande do Sul. Para o Norte ocorre outra raça de colorido oliváceo muito claro. A presença ou ausência do rudimento do polegar na mão que foi por vários autores como Gray, considerado um carater pri- en quelque sorte d’Edwards (Glanures, p. 222), qui raconte qu’on le faisoit voir à Londres sous la dénomination de singe-araignée ; denomination qui se rapporte principalement à la longueur et à la maigreur des membres des atéles. “Brown (Histoire de la Jamaique) parle aussi d’un singe à mains té- tradactyles, qui a tout son pelage brun ct la queue prenante.” “Cest sur ces deux autorités que pinscris cette espéce dans la catalogue des mammiféres” et je m’y suis eu outre determine, parce que je ne vois pas quelle puisse être regardée comme un jeune âge ou une femellc de nos au- tres atéles. “Elle pourra être nonunée ainsi Alclcs arachnoides; ateies fuscus, pahiiis tctradactylis" . Quanto à sua pátria diz apenas: “Brown ajoute qu’elle existe dans le continent amérteain.” No tomo XIII dos mesmos anais, à p. 90, deu uma descrição minuciosa da mesma espécie, acompanhada duma boa gravura (pl. 9) pela qual vc-sc claramente tratar-se da raça meridional que é mais escura, sobretudo na ca- beça, espádua e dorso. Essa descrição, assim como a respectiva gravura, foram baseadas num exemplar obtido do museu de Lisboa e conservado no museu de Paris como procedente do Brasil. À p. 106 do tomo XIX, em seu “Tableau des Quadrumanes", Geoffroy cita como habitat de A. arachnoides, apenas “le Brésil?”. O exemplar obtido em Lisboa, evidentemente procedia do Rio de Janeiro em cujos arredores não seria raro nos tempos coloniais, quando ainda eram cobertos de espessas florestas. E’ lícito pois estabelecer-se o Rio de Janeiro como localidade tipo para esta raça. ( 9 ) Elliot, 1913, A Rcview of the Primates, p. 51. 17 10-111-1944 — C. C. Vieira — Símios do Estado de São Paulo mordial para a distinção das duas espécies não tem importância, pois como já notara Eliiot (”) teem sido encontrados indivíduos com o polegar rudimentar na mão e sem ele na outra, o que evi- dencia tratar-se de simples variação individual. Nos exemplares existentes no Departamento de Zoologia, o de n.° 2.939, proveniente do Alto da Serra, São Paulo, tem o po- legar rudimentar em ambas as mãos. Tres exemplares respectivamente da Bahia, Minas Uerais e Espírito Santo, são de colorido geral amarelo oliváceo pálido, di- ferindo bastante na pelagem que é muito mais macia e curta, prin- cipalmente no dorso. A cabeça é bastante acinzentado escura, principalmente na região auricular; mãos, pés e cauda, amarelo pardacentas. Os crânios, todavia, nenhuma diferença apreciável apresentam. Constitue pois esta forma outra raça: Brachyteles arachnoi- des hypoxanthus (Desm.) que habita o estado do Rio de Janeiro até a Bahia e talvez mesmo em épocas anteriores, a zona costeira, então coberta de espessas matas, que vai até o cabo de São Ro- que no estado do Rio Grande do Norte. Este grande símio foi outrora bem comum cm nosso estado, ocorrendo não só por toda a serra do Mar, na zona litoreana, co- mo também nas florestas espessas das zonas montanhosas do in- terior, onde Natterer encontrou-o em 1819 em Ipanema, no ca- minho de Porto Feliz. Com a impiedosa devastação das matas porém, tende a res- tringir-se cada vez mais a sua distribuição. E’ bem conhecido mesmo não muito longe do município da Capital, pois tivemos oportunidade de observá-lo em pequeno ban- do, nos contrafortes da serra de Paranapiacaba, a 12 kilometros da vila de Parelheiros, no local denominado “Ingaeiro”. Nessa zo- na, dão-lhe caça bastante ativa pela sua carne, que é sofrível, o que o torna cada vez mais arisco, refugiando-se em lugares quase inacessíveis. 1, jSciELO 18 Vol. IV N.” 1 PAPÉIS AVULSOS Dimensões externas e do crânio: O _ £ I Cabeça e corpo Cauda Comp.° total do I crânio A 15 ò *. -n tc £ M 5 Jj to .2 u - C3 O ' t- u Série molares superiores o 3 d 3 o-a g 282 3 630 650 — — — _ 1.864 S 630 650 — — — 1.863 s — — 115 36 76 61,5 12,5 32,5 82 1.197 S — — 116 37 81 64 12,5 32 83 2.940 S — — 119 41 76,5 61 12,5 33 83 1.158 — — 113 37 73 60,5 11 72 80 Exemplares no Departamento de Zoologia: N.° 282 - 3 - Poço Grande, Juquiá, São Paulo, Hempel col., 1898 (pele aberta). N.° 1.160 - 9 - Itararé, São Paulo, Garbe col., 1904, pele aberta. N.° 1.864 - S - Ubatuba, S. Paulo, Garbe col., 1903, pele aberta. N.° 1.863 - S - Ubatuba, S. Paulo, Garbe col., 1903, crânio. N.° 1.158 - 9 - Itararé, S. Paulo, Garbe col., 1903, crânio. N." 1.197 - s - “Estado de São Paulo” (coleção antiga) crânio. N.° 2.940 - S juv. _ Alto da Serra, São Paulo, Garbe col., 1911, montado. N.° 2.939 - 9 - Alto da Serra, São Paulo, Garbe col., 1911, montado. Subfamília CALLICEBINAE Com o único gênero Callicebus. Gênero Callicebus Thomas Callicebus Thomas, 1903, Ann. Mag. Nat. Hist., série 7, p. 456; Trouessart, 1904, Cat. Mammal., Supplementum, p. 25; Eluot, 1913, A Review of the Primates, vol. 2, p. 234 ( 10 ) Callithrix E. Geoffroy, 1812, Annales du Museum, XIX, p. 112 (nec Erxeleben, 1777). ( 10 ) Elliot à pag. 234 cie sua “Review of the Primates”, dá a fórmula dentária deste gênero somando 32 dentes e considera-o como pertencente à família Callitlirichidac o que é inteiramente errôneo. Como já notara Antlio- ny (Ilulletin de la Societé Zoologique de France, 1932, pag. 242), fazendo: essa afirmação, estampou entretanto, uma fotografia dum crânio de Calli- ccbus pcrsomtus em que pode-se contar nitidamente 36 dentes. 19 10-111-1944 — C. C. Vieira — Símios cio Estado dc São Paulo Saguinus Lesson, 1827, Man. Mammal., p. 36 (nec Sagouin Lacépède). Genótipo, por subsequente designação de Thomas, Calli- fhrix personatus E. Geoffroy. Símios pouco menores que os do gênero Cebus, com pelos compridos e espessos, cauda longa e peluda, maior que o corpo e não prêensil; cabeça arredondada; orelhas grandes e olhos pe- quenos. Crânio curto, com caixa encefálica arredondada; mandíbula notavelmente dilatada nos ângulos como no gênero Alouatta. Dentes pequenos, inclusive os caninos e molares. Das dezessete formas conhecidas no Brasil, sómente duas ocorrem em território paulista: C. nigrifrons e C. personatus. CalIicebuH nigrifrons (Spi.x) “Saá”, “Sauá”. Callithrix nigrifrons Spix, 1823, Simiarum et Vespertilionum Brasiliensium, pl. XV, p. 21 (rio das Onças, Minas Ge- rais) ("); Gray, 1870, Catai. Monkeys, Lemurs and Fruit- eating Bats, p. 56; Pelzeln, 1883, Brasilische Saeuge- thiere, p. 19 (Mato Dentro e Irisanga, São Paulo); For- bes, 1893, A Hand Book to the Primates, p. 164; H. Ihe- ring, 1893, Os Mamíferos de São Paulo, p. 29. Calticebus nigrifrons Trouessart, 1904; Cat. Mannnalium, Supplementum, p. 21; Elliot, 1913, A Review of the Pri- mates, p. 264. Localidade tipo: rio das Onças, Minas Gerais. Macho adulto: alto da cabeça cinza; fronte negra, assim como as orelhas e faces; pelos do mento negros; garganta esbranqui- çada; pele da face negra, com pelos esbranquiçados em volta dos lábios; dorso superior cinzento escuro c inferior cinzento claro; peito, ventre e partes inferiores dos braços e côxas cinza esbran- quiçado com raros pelos amarelados; partes superiores dos bra- ços e pernas cinzento escuro; mãos e pés negros; cauda, cinza muito claro na base, tornando-se ocrácea para a extremidade. ( n ) O colorido da gravura da prancha XV não está, entretanto, dc a- côrdo com a descrição no texto, à pag. 15. 20 PAPÉIS AVULSOS Vol. IV — N.° 1 Este “saá” ocorre ao sul de Minas Gerais e em toda a zona nordeste do estado de São Paulo, onde é conhecido vivendo em pequenos bandos, mesmo em capoeiras. E’ provável que ocorra também ao sul do estado, de onde o Departamento de Zoologia, até o presente não obteve material. Dimensões externas e do crânio: • Cabeça e corpo Cauda || II c _. 'O li ■ m 'rt ú 5 « ‘til 2« ’rt Larg.» interorbital Série molares superiores °. 3 C '-XI 5^ o c O « B Comp. 0 total do corpo 5.901 $ 430 450 19,5 42 35 6,5 19 45 68 3.721 .$ 420 440 — 42 35 8 19 45 68 1.077 o — — 19,5 42,5 36 8 18 41 67 1.420 o — — 20 45 36 8 19 46 65 1.421 o — — 20 43 35 7 19 45 67 1.419 o — — 20 45 35 6 18 45 68 Exemplares no Departamento de Zoologia: N.° 3.240 - o? - “Estado de São Paulo”, coleção antiga, montado N.° 3.721 - s - Itatiba, estado de São Paulo, João Lima, col., 1926, pele aberta. N.° 3.722 - $ - Itatiba, estado de São Paulo, João Lima col., 1926, pele aberta. N.° 5.901 - S - Município de Lins, estado de São Paulo, Olalla col., 11-941, pele aberta. N.° 1.419 - o? - Rio Grande, município de Barretos, Garbe col., 1904, crânio. . , . , D , . N. u 1.420 - o? - Rio Grande, município de Barretos, Garbe col., 1904, crânio. .... o . nu . N.° 1.421 - o? - Rio Grande, município de Barretos, Garbe col., 1904, crânio. N.° 1.071 - o? - Tranca, estado de São Paulo, Dreher, col., 1903, crânio. Callicebus personatus brunello (Thomas) “Saá” Callicebus personatus brunello O. Thomas, 1913, Ann. Mag. Nat. Hist., série V 1 1 1, vol. 12, p. 568. 10-III-1944 • — C. C. Vieira — Símios g, ■ rt u m -cC ú S O J •- ■ m ~ U u 3 <« .2 'rt o tfi a o J $ c Série molares superiores u cd 0 ~ 8 § £ 397 s 480 410 104 33 77 54 6 24 65 3.813 9 470 — 02 30 66 52 5 20 57 432 9 — — 101 31,5 75 49 7 21 65 Exemplares no Departamento de Zoologia: N. u 397 - S - Alto da Serra, São Paulo, Garbe coi., 111-900, pele aberta. N. u 3.813 - 9 - Serra de Paranapiacaba, Tres Barras, Lima col., VIII-929, pele aberta. N.° 3.909 - juv. - Município de Cananéia, São Paulo, Camargo col., 1934, pele aberta. N.° 431 - $ - Colônia Hansa, Santa Catarina, Ehrhardt col., 1901 pele aberta. ÍO-III-1944 — C. C. Vieira • — - Símios do Estado de São Paulo 29 N.° 432 - s - Colônia Hansa, Santa Catarina, Ehrhardt col., 1901 crânio. Cebu9 versutus (Elliot) Cebus versuta Elliot, 1910, Ann. Mag. Nat. Hist., 8. a série, n.° 5, p. 77; idem, 1913, A Review o fthe Primates, p. 105. Localidade tipo: Araguarí, rio Jordão, Minas Gerais. Seis peles abertas, com os respectivos crânios, provenientes de Franca, norte do estado de São Paulo, colecionadas por Ernes- to Garbe em 1903 e erroneamente determinadas como Cebus libi- dinosus Spix, conforme já notara Oliverio Pinto (- 7 ) concordam com a descrição de Cebus versuta de Elliot, da região oeste do estado de Minas Gerais. Os exemplares de machos adultos que possuímos de Cebus tibidinosus Spix ( 2S ) procedentes do Maranhão e Baía, são de co- lorido muito mais claro, quase amarelado e com o capacete cefá- lico constituído de pelos muito mais curtos. Também os crânios distinguem-se em ter a crista sagital bem mais fraca. O macho adulto de C. versutus tem o colorido geral preto- acastanhado; cabeça preta até a nuca (com os pelos formando dois tufos como em C. cirrifer ); região temporal, faces e mento branco amarelados; cauda castanho-escura na base e preta na extremida- de; garganta e peito pardo muito claro; ventre pardo mais escu- ro; braços, côxas e pernas, preto acastanhado, mesclado de ama- relo; mãos e pés quase pretos; dedos amarelados. A fêmea adulta difere em ter o colorido geral muito mais cla- ro principalmente no dorso, garganta e peito. O capacete de pe- los da cabeça é mais curto, não formando dois tufos distintos. Parece ser muito limitada a sua área de distribuição, ocor- rendo somente a sudoeste de Minas Gerais e ao nordeste do esta- . do de São Paulo. ( 27 ) Olivério Pinto, Da validez de Cebus robuslus Kuhl, Papéis Avul- sos do Departamento de Zoologia, vol. 1, p. 120. ( 2S ) Spix, 1823, Simiarum et Vespertilionum lirasilicnsium, p. 5, pl. II PAPÉIS AVULSOS Vol. IV — N.° 1 30 Dimensões externas e do crânio: o 'Á I Cabeça c corpo Cauda 1 Comp." palatilal Comp.° 1 total do crânio . rt o « ‘rt só s fc. o n tç íl rt O * C bÍ3‘2 rt w CTJ Série molares mandíbula/ Comp.° j mandibular 1 82S è 460 430 35 .100 73 5 50 22 65 830 9 450 430 28 04 60 5 50 22 58 794 9 450 430 28 90 57 5 50 21 50 Exemplares no Departamento de Zoologia: N.° 828 ê , 794, 830, 833, 834, 2.925 e 2.926 9 9 - Franca, São Paulo, Dreher e Garbe col., 1902 e 1910, peles abertas! BIBLIOGRAFIA Humboldt, 1815, Recueil d'Observations de Zoologie et -d’Anato- mie Comparée, Paris. Spix, 1823, Simiarum et Vespertilionum Brasiliensium, Species No- vae, Muenchen. Wied-Neuwied, 1826, Beitrage zur Naturgeschichte von Brasi- liens, II, Mammalia. I. Geoffroy de Saint-Hilaire, 1851, Catalogue méthodique des mammiferes dans la collection du Musée dTIistoire Naturelle, (Primates), Paris. Bura\eister, 1854, Systematische Uebersicht der Thiere Brasilien- sis, Mammalia, Berlim Gray, 1870, Catalogue of Monkeys, Lemurs and Fruit-eating Bats in tbe British Museum, London. Schlegel, 1876, Monograpliie des Singes (Collection du Musée d'Histoire Naturelle des Pays-Bas), Leyde. Pelzeln, 1883, Brasilisclie Saeugethiere, K. K. Zoologiscli-bota- nisch Gessellschaft in Wien, Band XXXIII. H. Ihering, 1892, Os Mamíferos do Rio Grande do Sul, Anuário do Estado do Rio Grande do Sul, Porto Alegre. E. Goeldi, 1893, Os Mamíferos do Brasil, Rio de Janeiro. Forbes, 1893, A Handbook to the Primates, Allen’s Naturalist Li- brary, London. H. Ihering, 1894, Os Mamíferos de São Paulo, São Paulo. H. Meerwarth, 1898, Símios do Novo Afundo, Boi. Museu Pa- raense, tomo II, p. 121. iO-III-1944 ■ — C. C. Vieira • — Símios do Estado de São Paulo Trouessart, 1904, Catalogus Mammalium, Supplementum. Elliot, 1912-13, A Review of the Primates, American Museum of Nat. Hist., New York. H. Ihering, 1914, Os bugios do gênero Alouatta, Revista do Mu- seu Paulista, vol. 9, p. 231. Pocock, 1917, The Genera of Hapalidae, Anuais and Magazine of Natural History, vol. 8, série 20, p. 247. Cabrera, 1917, Notas sobre el genero Cebus, Revista de Ia Real Academia de Ciências de Madrid, n.° 16, p. 221. Pocock, 1920, On the externai characters of the south-american monkeys, Proceedings Zoological Society of London, p. 91. Thomas, 1922, On Systematic arrengement of Marmosets, Annals and Magazine Natural History of London, p. 196. Cabrera, 1939, Los Monos de la Argentina, Physis, tomo XVI. Cabrera o DEPARTAMENTO DE ZOOLOGIA SECRETARIA DA AGRICULTURA — S. PAULO - BRASIL MAIS UM CASO DE ASSOCIAÇÃO ENTRE MALLOPHAGA E HIPPOBOSCIDAE POR Lindolpho R. Guimarães Entre os tubos de ectoparasitas colecionadas pelo Dr. Bcne- dicto M. Soares, durante sua recente viagem ao estado do Espi- rito Santo, tivemos oportunidade de encontrar um contendo um e- xemplar de Hippoboscidae ao qual se achavam presos três es- pécimes de malófagos. Esse Hippoboscidae, que identificamos como Stilbometopa raniphastonis Ferris, 1930, foi colecionado em Trogonurus auran- tius (Spix), proveniente do rio S. José, em 22-IX-1942. Os nia- lófagos, que se achavam firmemente presos pelas mandíbulas à re- gião pleural ao abdômen da mosca (figs. 1 c 2) provaram ser uma nova espécie que descrevemos como Dcgeeriella odontopleu- ron (1). São diversos os casos já assinalados, de associação entre Mal- tophaga e Hippoboscidae. (*) É esta, entretanto, a primeira vez que se verifica essa asso- ciação com uma mosca do gênero Stilbometopa. Esta pupípara já íôra anteriormente assinalada como hóspede de Rhamphasios swainsonii Gould e Pipile jacutinga (Spix). A verificação de mais esse caso de associação entre Mallo- phaga. e Hippoboscidae levou-nos a fazer uma análise dos casos já assinalados com o fito de verificar se realmente os hipobósci- das desempenham papel importante nos fenômenos de “straggling”. (*) Clay c Mcincrtzliagen assinalaram rcccutemciite ( Parasito! ogy, Vol. 35, p. li, 1943) mais casos de associação entre malóíaRos e liipobóscidas. 80 PAPÉIS AVULSOS Vol. IV N.° 5 As possibilidades de “straggling” em Mállophaga foi recen- íemente analisada por Hopkins (2). Segundo este autor, além dos casos de poliecismo que significaria, quasi sempre uma rela- ção filogenética real entre seus hospedeiros e que não podem ser olhados como verdadeiros casos de “straggling”, devemos consi- derar os casos de “purely accidental straggling” (a), os casos de “casual natural straggling” (b) e os casos de “normal natural straggling” (c). Os casos de “straggling” puramente acidental tem origem, no mais das vezes, na imperfeição da técnica empregada na coleta do material; os casos de “straggling” natural casual, se verificam em virtude do hábito de certas espécies de aves de vi- verem juntas, o que acontece por interferencia do homem nos jar- dins zoológicos, nos hábitos predadores de outras e ainda no há- bito de certas aves de se criarem em ninhos de outras; os casos de “straggling” normal natural, são os que se verificam em aves de um mesmo gênero ou de uma mesma família, e que só podem ser co- nhecidos pela menor incidência do malófago em uma espécie de hospedeiro que em outra. Até o presente são conhecidos trinta e seis casos de associa- ção entre Mallophaga e Hippoboscidae. Desses trinta e seis casos, porem, apenas quinze apresentam indicação completa da ave hos- pedadora, do hipobóscida e da espécie do malófago verificado. São apenas esses, portanto, os casos passíveis de estudo. A — Dcgeeriella marginalis (Burmeister, 1838). — Esta es- pécie de malófago já foi encontrada seis vezes presa a um hipo- bóscida; em quatro ocasiões o hipobóscida era Ornithomyia avi- cularia, sendo entretanto desconhecida a espécie de ave em que a mosca foi apanhada. Nas outras duas ocasiões (3 e 4) esse ma- lófago se achava preso a Ornithomyia fringillina e Ornithomyia chloropus, colecionadas respectivamente em Tardas m. merula e T ardas pilaris. Esta última ave é o hospedeiro tipo de Dcgeeriella margina- lis, que também já foi assinalada em Tardas m. merala. Assim, Dcgeeriella marginalis é um parasita normal de Tardas pilaris e Tardas m. merula, ambos Passeriformes da fam. Turdidac, sub- íamília Tardinae. cm : SciELO 10 11 12 13 14 30-1Y-1944 - L. R. Guimarães - Matlophaga e Ilippnboscidae 81 B — Degeeriella deficiens (Piaget, 1885). — Este malófago foi encontrado (5) preso a uma Ornithomyia avicularia apanhada em Cyanocitta s. stelleri, ave pertencente à família Corvidae. O hospedeiro tipo de Degeeriella deficiens é Cyanopolius cooki, tam- bém pertencente à família Corvidae. Apesar da diferença de dis- tribuição geográfica das duas aves ( Cyanopolius cooki vive na pe- nínsula ibérica e Cyanocitta s. stelleri nos Estados Unidos) é mui- to provável que Cyanocita s. stelleri seja um hospedeiro normal de Degeeriella deficiens, ou pelo menos, de uma espécie muito pró- xima a Degeeriella deficiens. C — Degeeriella nncinosa (Nitzch in Burmeister, 1838). — Encontrada (6) presa a uma Ornithomyia avicularia apanhada em Corvus cornix (Corvidae). Seu hospedeiro tipo é essa espécie de ave, de modo que não ha dúvida quanto à normalidade do pa- rasitismo. D — Degeeriella rotundata (Osborn, 1896). — Esta espécie foi encontrada (7) presa a uma Ornithomyia avicularia apanhada em Corvus brachyrhynchus hesperis (= Corvus corone hesperis). Seu hospedeiro tipo é Corvus americanus ( = Corvus corone brachy- rhynchus). Dada a grande proximidade dessas aves, ha muita pro- babilidade que Degeeriella rotundata seja hóspede normal de Cor- vus corone hesperis. E — Degeeriella simplex (Kellogg, 1896). — Encontrada (4) presa a uma Ornithomyia fringillina apanhada em Turdus migra- tórias. Seu hospedeiro tipo é Meruta migratória (= Turdus mi- gratorius), não havendo dúvida, portanto, quanto à normalidade do parasitismo. F — Degeeriella interposita (Kellogg, 1899). — Esta espécie foi por duas vezes encontrada (8) presa em Ornithomyia avicularia, apanhadas em Dumetella carolinensis, pertencente à família Mirni- dac, e em Melospiza melodia melodia, pertencente à família Frin- gillidae. Ambas essas famílias são Passeriformes. O hospedeiro tipo desta espécie de malófago è Dendroica bryanti ( = Dendroica petechia bryanti), da família Compsothlypidac. Esta espécie de ma- lófago nunca havia sido assinalada, anteriormente, em qualquer daquelas duas aves. 82 PAPÉIS AVULSOS Vol. IV — N.° G — Philopterus sturni (Schrank, 1776) — Encontrada (9) presa a uma Ornithomyio avicularia apanhada em Sturrms v. vul- garis. O hospedeiro tipo deste malófago é essa mesma ave, não havendo, portanto, dúvida quanto à normalidade do parasitismo. H — Ardeicola botauri (Osborn, 1896). — Esta espécie foi encontrada (13) em associação com uma Lynchia americana apa- nhada em Casmerodiiis albus egretta, Ciconiiformes da família Ardeidae. subfamília Ardcinae. Lynchia americana é um dos hipo- bóscida de grande ecletismo, já tendo sido assinalada em diversas ordens de aves. O hospedeiro tipo de Ardeicola botauri é Botaarus letiginosus, Ciconiiformes da família Ardeidae, porem da subfa- mília Botaurinae. I — Degeeriella quadratula (Nitzsch in Giebel, 1866) (= La- gopoecus pallidovittatus Grube, 1851). — Encontrada (6) presa a uma Ornithomyia avicularia apanhada em Tetrao tetrix, Galli- formes da família Tetraonidae. O hospedeiro tipo de Lagopoecus pallidovitattus é Tetrao urogalhis, já tendo sido assinalada em Te- trao urogallus aqiiitanicus. É possível, entretanto, que tenha ha- vido engano na identificação do malófago, pois Tetrao tetrix (= Lyrurus tetrix) tem como parasita Lagopoecus lyrurus Clay, 1938 e não Lagopoecus pallidovittatus (Grube, 1851). J — Columbicola columbae (L., 1758). — Por três vezes (10 e 11) foi esta espécie encontrada presa a Pseudolynchia canarien- sis, colecionadas em pombos domésticos. Seu hospedeiro tipo, no qual é muito comumente encontrada, é o pombo doméstico. K — Degeeriella odontopleuron Guimarães, 1944. — Encon- trada presa a uma Stilpometopa ramphastonis apanhada em Tro- gonurus aurantius, seu hospedeiro tipo. No mesmo hospedeiro fo- ram colecionados outros indivíduos dessa espécie de malófago. L — Degeeriella hectica (Nitzsch in Giebel, 1866). — Esta espécie foi apanhada (12 c 4) em um hipobóscida indeterminado colecionado em Sericulus chrysocephalus (= Sericulus regens). Embora não seja conhecida a espécie de hipobóscida sobre a qual estava preso o malófago, não resta dúvida sobre a normalidade do parasitismo deste, pois é Sericulus regens seu hospedeiro tipo. Assim, dos casos de associação de malófagos e hipobósci- cm =SciELO 10 11 12 13 14 30-IV-1944 — L. R. Guimarães — Mallophaga e Hippoboscidae 83 das, até hoje conhecidos e perfeitamente analisáveis, não se pode concluir que os dípteros gosem papel de relevância no fenôme- no de “straggling”, pois dos casos acima analisados verifica-se que: em 11 deles (A (2), C, D, E, G, J (3), K e L), o hipobóscida carregava espécies de malófagos que sem dúvida nenhuma são parasitas normais das aves em que foram apanhadas as moscas; em um deles (I) ha necessidade de reidentificação do maló- fago em questão, pois é certo que Tetrao tetrix ( = ■ Lyritrus le- trix) é parasitado por Lagopoecas lyrurus e não por Lagopoecas pallidovittatus; nos quatro casos restantes (B, F (2) e H), ha necessidade de se verificar se as aves nas quais as moscas foram encontradas, são realmente hóspedes normais das espécies de malófagos presas . às moscas. Não queremos deixar passar esta oportunidade sem agrade- cer ao nosso prezado companheiro de trabalho, Dr. Benedicto M. Soares, a magnífica coleção de ectoparasitas, fruto de perseverante e paciente trabalho, que trouxe para este Departamento, quando de sua recente viagem ao estado do Espírito Santo. ABSTRACT The A. gives a new record of an association between Mal- lophaga and Hippoboscidae, and discusses the possibilities of the phenomenon of straggling in the Mallophaga by means of the Pu- piparous diptera. BIBLIOGRAFIA 1 - Guimarães, L. R. — Um novo malófago do surucuá, Papéis Avulsos do Dept. de Zoologia, Vol. IV n.° 4 pp. 71-78, 1944. 2 - Hopkins, G. H. E. — Straggling in the Mallophaga. The Entomologist, Vol. LXXII, pp.‘ 75-77, 1939. 3 - Thompson, G. B. — Two further records of the associa- tion of Hippoboscidae and Mallophaga. Ent. Mon. Mag. Vol. 71, p. 162, 1935. 4 - Thompson, G. B. — Some Additional Records of an As- sociation between Hippoboscidae and Mallophaga, together with a Bibliography of the previous Records. Ann. Mag. Nat. Hist. Vol. XVIII, Ser. 10, pp. 309-312, 1936. 84 PAPÉIS AVULSOS Vol. IV N." 5 - Spencer, G. J. — Externai Parasites of certain Birds of British Columbia. Canad. Ent. Vol. LX, pp. 257-260, 1928. 6- Forsius, R. — Ueber den Transport von Mallophagen durcii Hippobosciden. Medd. Soc. Fauna et Flora Fennica, 38, pp. 58-60, 1912. 7 - McAtee, W. L. — Bird Lice (Mallophaga) attaching them- selves to Bird Flies (Dip. Hippoboscidae). Ent. News, Vol. XXXIII, p. 90, 1922. 8 - Ewing, H. E. — The Hyppoboscid Fly Ornitlwmyia avi- cularia Linnaeus, as a carrier of Mallophaga. Ann. Ent. Soc. Amer., Vol. XX, pp. 245-250, 1 fig., 1928. 9 - Thompson, G. B. — Association of Hippoboscidae and Mallophaga. Ent. Mon. Mag., Vol. 70, p. 134, 1934. 10 - Martin, M. — Life History and Habits of the Pigeon Louse ( Columbicola columbae Linnaeus). - Canad. Ent. Vol. LXVI, p. 8, 1934. 1 1 - Hathaway, C. — Associação entre Mallophaga e Hippo- boscidae. Mem. Inst. Oswaldo Cruz, Tomo 38, Fase. 3, po. 413-417, 2 figs., 1943. 12 - Harrison, L. — Notes and Exhibits. Proc. Linn. Soc. N. S. Wales, Vol. XXXVIII, pp. 108-109, 1913. 13-Peters, H. — Mallophaga carried by Hippoboscids. Anu. of Carnegie Mus., Vol. XXIV, pp. 57-58, 1935. cm : SciELO 10 11 12 13 14 Yol. IV, N.° 6 — pp. 85-94 30-1 Y-1944 PAPÉIS AVULSOS DO DEPARTAMENTO DE ZOOLOGIA SECRETARIA DA AGRICULTURA -- S. PAULO - BRASIL CHAVE SINÓPTICA DA SUBFAMÍLIA LEPTOGASTRINAE (DÍPTERA, ASILIDAE), COM A DESCRIÇÃO DE UM NOVO GÊNERO E UMA NOVA ESPÉCIE. POR Messias Carrera Estudando os asilídeos da subfamília Leptogastrinae, tive- mos ocasião de encontrar, entre o material que bondosamente nos ioi cedido pelo Dr. Raymond C. Shannon da “International Health Division” da Fundação Rockefeller, oito exemplares colecionados em Maracaju, sul do estado de Mato Grosso, apresentando ca- racteres diferentes dos de todos os gêneros desta subfamília. Tais gêneros podem ser fàcilmente separados pela chave de Aldrich, modificada e ampliada, que damos a seguir. Chave para os gêneros da subfamilia LEPTOGASTRINAE (*) 1 - Asas muito estreitadas na base; nervura anal (IA) ausente 2 Asas normais; nervura anal ( 1 A ) presente 3 2 - Asas com a metade basal reduzida a um pedúnculo; a nervura auxi- liar (Sc) e a primeira longitudinal (R,) fundidas com a costal (C; Eurhabdus Aldr. (*) O gênero CacnaroHa Thomson, segundo Hcrmann (4) e Aldrich (1) não pertence a esta subfamília. 86 PAPÉIS AVULSOS Vol. IV N.° G Asas não tão estreitadas na metade basal; nervura auxiliar (Sc) e a primeira longitudinal (RJ pre- sentes '. 3 - Nervuras das asas com pequenos pêlos Nervuras das asas sem pêlos . 4 - Mesonoto com um par de cer- das dorsocentrais situadas ante- riormente Mesonoto com mais de um par de cerdas dorsocentrais anteriores e com um par pouco além do meio 5 - Fêmures posteriores sem densa pi- losidade mediana, alongados; ab- dômen fino e longo .... Fêmures posteriores com densa pi- losidade mediana; abdômen rela- tivamente curto 6 - Empódio ausente Empódio presente .... Leptopteromyia Will. Schildia Aldr. Shannomyioleptus n. gen. Systellogasíer Herin. (**) Psilonyx Aldr. Leptogaster Meigen Os Leptogastrinae, de um modo geral, se caracterizam facil- mente pelo formato do abdômen que é delgado e longo; asas geralmente curtas com célula marginal aberta; ausência de pul- vilos e, às vêzes, também de empódio; pernas posteriores mais longas que as anteriores. Eurhabdus Aldrich, 1923 Eurliabdus Aldrich, P . 2 . 1923, Proc. U. S. Nat. Mus. 62, art. 20, Como se pode verificar pela chave, êste gênero mostra uma redução na metade basal da asa que é apenas aproximada por Leptopteromyia. No entanto, Eurhabdus apresenta essa redução em grau muito maior que no gênero acima referido, pois se trans- forma num fino pedicelo. É um gênero monotípico e conhecido sómente de Costa Rica. (**) Aldrich não incluiu este gênero em sua chave. cm : SciELO 10 11 12 13 14 30-IV-1944 — AL Cakrera — N. gen. e n. sp. de LeptMastrínac 87 Leptopteromyia Williston, 1907 Leptopteromyia Williston, 1907, Journ. N. Y. Ent. Soc. 15, p. 1. Williston, 1908, Manual N. A. Diptera ed. 3, p. 195, f. 35. Williston (8) caracterizou este gênero, dizendo sómente o se- guinte: “For a Southern species oí Asilidae of small size, allied to Leptogastcr, but differing in thc possession of but four posterior cells, in the entire absence of the sixth vein, and in the extraordina- rily attenuated basal part of the wing, the genus Leptopteromyia is proposed.” Depois, em seu Manual sôbre os dípteros norte ame- ricanos, publicado em 1908, apresenta uma figura com esta sim- ples indicação: “Leptopteromyia gracilis (type, Brazil)”. Natural- mente, esta espécie deve ser considerada, por monotipia, como a espécie tipo deste gênero. Erradamente, entretanto, Hermann (4) em 1924, designou como tipo Leptopteromyia Willistoni, do Mé- xico, que deve ser considerada como um pseudótipo. Schildia Aldrich, 1923 Schildia Aldrich, 1923, Proc. U. S. Nat. Mus. 62, art. 20, p. 4. O material de que Aldrich se serviu para descrever êste gênero constou de um macho e uma fêmea, proveniente de Costa Rica. Distingue-se dos outros gêneros incluídos na subfamília Lepto- gastrinae, pela presença de pequenos pêlos nas nervuras das asas; por um par de cerdas dorsocentrais anteriores e pelo percurso da primeira nervura longitudinal (Rj) paralelamente à costal (C) até quase o ápice da asa. Não foi, até agora, reencontrado. Shannomyioleptus n. gen. Afim de Schildia Aldrich, do qual se distingue principalmente pelo número de cerdas dorsocentrais e pelo percurso da primeira nervura longitudinal (R,). Èste gênero, como o anterior, mostra também nítida pilosi- dade nas nervuras, mas quanto aos demais caracteres é perfeita- mente distinto de Schildia. Assim, o número de cerdas dorsocen- 88 PAPÉIS AVULSOS Vol. IV — N.° G trais não se restringe a um único par e sim a quatro pares de ta- manhos diferentes e dispostos, três anteriormente e o último e quarto inserto pouco além do meio do mesonoto; percurso da pri- meira nervura longitudinal (R,), terminando muito antes do ápice da asa; a forma do terceiro artículo da antena parece-nos também bastante característica, pois é quase claviforme em contraposição à forma mais ou menos fusiforme encontrada nos outros gêneros de Leptogastrinae. Pode-se admitir que em Schildia carater seme- lhante a êste não seja encontrado, pois certamente não teria pas- sado despercebido a Aldrich carater tão importante. Aldrich ( 1 ) ao descrever a espécie tipo de Schildia diz, a êste respeito, o se- guinte: “Antennae yellovv, the third joint brown, not much elonga- ted with subapical slender style which might be called an arista”. Embora não nos tenha sido possível examinar a espécie tipo do gênero de Aldrich, achamos que as diferenças acima apontadas justificam plenamente a creação de um novo gênero, cujo nome é dado em homenagem e em sinal de agradecimento ao Dr. Ray- nioíid C. Shannon. Os outros característicos secundários podem ser assim des- criminados: cabeça - occipício com coroa de cerdas; face de la- dos paralelos, plana, sem gibosidade sobre a borda bucal; mistax composto de cerdas longas mas em número reduzido; terceiro ar- tículo antena! pouco maior que os dois basais reunidos, quase cla- viforme, com pequena mas conspícua pilosidade e com minúsculo estilo subapical. Tórax com três pares de cerdas dorsocentrais anteriores e um par posterior; o primeiro par muito pouco desenvolvido (em alguns exemplares só encontramos dois pares anteriores). Abdômen longo e delgadíssimo. Pernas com a porção apical dos fêmures posteriores repen- tinamente bojuda; pulvilos e empódio ausentes. Asa pequena, com a parte basal pouco estreita; nervuras com pequenos pêlos; R , terminando muito antes do ápice da asa. üenótipo — Sliannoinyioleptus fragilis n. sp. cm 5 SciEL0 9 10 11 12 13 14 89 30-l\-1944 — AI. Carrera — N. gen. e n. sp. de Lcptoyostrinac Slianiiomyioleptus fragilis n. sp. Comprimento do corpo 10 mm.; da asa 4 mm.; do abdômen 8,5 mm. Macho: — Cabeça mais larga que o tórax. Olhos arredon- dados. Fronte com polinosidade branca, levemente amarelada, pro- longando-se pelo vértice e occipício em larga faixa que quase a- tinge o pescoço. Calo ocelar arredondado com três ocelos gran- des e reunidos. Occipício com pruinosidade castanha escura, mais clara nas margens onde existe uma coroa de cerdas pretas exceto as que ladeiam o vértice que são amarelas. Face com esparsa prui- nosidade amarela clara, sendo preto brilhante no meio, logo abai- xo das antenas; borda bucal sem gibosidade e guarnecida com duas longas cerdas amareladas; proboscida e palpos castanhos, Fig. -Antena de Sliannomyioleptns fragilis n. sp. Fig. 3 - Parte apical da asa de Shannomyoleptiis fragilis n. sp. 90 PAPÉIS AVULSOS Yol. IV N* 6 êstes pequenos, aquela mais ou menos cilíndrica e dirigida para cima. Antenas amarelas bem claras, o último artículo com a pon- ta pardacenta; o primeiro artículo é menor que o segundo, que é oval, ambos com pequenas cerdas claras; o terceiro artículo é qua- se claviforme, com muitos pequeninos pêlos e com um fino e curto estilo subapical. Tórax com uma projeção anterior de forma cônica e posfe- riormente terminando em declive quase perpendicular ao abdômen, ficando o escutelo abaixo da raiz da asa; é de coloração castanha escura, quase preta em alguns exemplares, claro em outros; toda sua superfície é polida e brilhante; além das cerdas comuns, su- pralares e notopleurais, existem anteriormente, pouco afastadas, três pares de dorsocentrais e posteriormente outro par de cerdas tão longas quanto as supralares; as cerdas dorsocentrais anterio- res são de diferentes tamanhos, sendo as do primeiro par muito pequenas e as do terceiro maiores que as do segundo e do ta- manho das notopleurais. Em alguns exemplares só se observam dois pares de dorsocentrais anteriores. Calos umerais amarelo claro, luzidios; calos postalares íôscos, pardacentos. Escutelo pe- queno, de forma triangular com o vértice para baixo, escuro e sem brilho. Pleuras com pruinosidade castanha, exceto na pro- pleura e porção superior da mesopleura que são prateadas segun- do a incidência dos raios luminosos. Abdômen muito fino nos dois primeiros segmentos, os res- tantes gradualmente se alargando na porção apical e achatados dorso-ventralmente, exceto o último que é mais ou menos globoso. A coloração é castanha avermelhada com finos aneis amarelos e- xistentes no meio do primeiro segmento e na margem anterior dos restantes; o último segmento é preto; existe curta cerdosiclade preta recobrindo o abdômen mas na borda posterior do quarto e quinto segmentos há também algumas cerdas amarelas. Genitália distinta. As peças visíveis mostram coloração pardacenta com pi- losidade clara. Pernas: • — Os dois pares de pernas anteriores são amarelo claro com aneis castanhos. Êstes aneis, dois nos fêmures e dois nas tíbias, intercalam-se com a coloração amarela; os aneis do primeiro par são menos distintos; cerdas apicais das tíbias de- SciELO 2 3 z 5 30-IV-1944 — M. Carrera • — X. gen. e n. sp. bis 4 Linien). Lebhaft blau mit bald gruen- baid violet-blauen Schiller. Die Stirn flach, die Lefze braunroth, die Fresszangen schwarz. Die Augen erscheinen blassbraun. Die Fuehler sind kuerzer ais das Rueckenschild, gesaegt, braunroth, das Wurzelglied auf der oberen Seite blau. Das Rueckenschild an den Seiten sehr glaenzend erhebt sich in einen metallglaenzenden, in der Mitte gestrichelten, an den Seiten in drei stumpfe Spitzen auslaufenden, dazwischen mit eingedruekten Gruebchen bezeichne- ten Hoecker. Hinten ist das Rueckenschild zwischen die Deckschil- de herein vorgezogen, mit einer schmalen Bucht zur Aufnahme der linienfoermigen Erhabenheit des Rueckenschildchen. Brust und Hinterleib haben eingedrueckte Punkte und in der Mitte einen leichten schillernden Ueberzug kurzer silberglaenzender Haerchen. Die Deckschilde sind einzeln punktirt und mit kegelfoermigen Erhabenheiten von unglcicher Groesse besetzt. Groesser ist die mittlere an dem Grundtheil der Deckschilde. Die andern sind klei- ner, an der vordern Seite leicht ausgehoelt, oft zusammenhaengend und vornemlich von der Mitte an durch linienfoermige Erhabenhei- ten verbunden. Die Nath ist deutlich gekerbt. Die Beine haben die 9S paplis avulsos Vol. IV — N.‘ 7 Farbe des Koerpers. Die Sohlen tragen einen Haardilz von hell graubraeunlicher Farbe." REDESCRIÇÃO Fulcidax violaeeii8 (Klugi 1824) Chlamys violacea Klug, 1824, Ent. Mon., p. 91. Poropleura cuprea Lacord., (S), 1848, Mon. Phytoph. II, p. 870. Subquadrada, robusta, acidentada, brilhante, de colorido mais ou menos uniforme mas muito variável de exemplar para exem- plar: cúpreo, verde-azulado, azul (ciâneo) e violeta, às vêzes, com reflexos de côr pouco diferente da de fundo. Toda a parte ventral do corpo é mui finamente alutácea e marcada de pontos pilíferos; cada um destes contêm, em regra, um pêlo gladiforme, recumbente, brilhante, levemente amarelado, fina e longitudinal- mente sulcado e de comprimento variável: desde os diminutos que mal excedem os limites dos pontos em que se implantam, aos que atingem cêrca de / 2 mm, os mais longos geralmente distribuídos no centro de toda a região ventral. Os pontos pilíferos são escas- sos na região cefálica e mui raros na parte dorsal do corpo. Cabeça orbicular (vista de frente), levemente inclinada para dentro e imersa no protórax até a fronte. Olhos grandes, subovais, recortados por fortes cantos oculares arredondados no vértice. Fronte fortemente excavada, desde a abóboda protorácica até o nível dos cantos oculares, entre os quais se inscrevem duas ele- vações subtriangulares, pouco salientes, separadas por alguns pon- tos pilíferos. A excavação frontal, geralmente sem pontuação, é coberta de estrias muito finas e sinuosas; as suas margens, da metade para cima, são marcadas de pontos densos, profundos e, às vêzes, confluentes. Epístoma subrugosamente pontuado, estrei- tado, em cima, pela inserção das antenas e largamente emarginado na frente. Labro transversal, ferrugíneo, ciliado, levemente abo- badado. Mandíbulas negras, curtas, espessas, acuminadas, setosas na base e impressas transversalmente. Palpos maxilares negros ou de ápice ferrugíneo. cm 5 SciEL0 9 10 11 12 13 14 21-YI-1944 • — E. Navajas ■ — Sobre a validez de Fulcida . r fiolaceus 99 Antenas inseridas no bordo anterior e interno dos olhos e re- cebidas (em repouso) em sulcos céfalo-protorácicos, bem pro- iundos no protórax; subserriformes, curtas (cêrca de 2,5 mm), robustas e ferrugíneas. Escapo de colorido semelhante ao da ca- beça (na sua face externa), arqueado, subtriquetro, pouco mais estreito na base que na extremidade, marcado de pontos pilífe- ros e tão longo quanto os seis artículos seguintes. Destes, os três primeiros são escuros, no todo ou em parte. O artículo 2 é sub- globoso; 3 obcônico, ligeiramente mais longo que o anterior; 4 trí- gono e mais largo que o precedente; 5-10 transversos, subiguais e írouxamente unidos entre si; 11 um pouco mais longo que os an- teriores e brevemente apendiculado. Pronoto transverso, giboso, fortemente convexo, cêrca de duas vêzes mais estreito na frente que na base; esta pouco menos larga que os élitros, vestigialmente denticulada e bisinuosa de cada la- do do lobo mediano que é estriado na margem e chanfrado no vértice; bordos laterais oblíquos e sinuosos; bordo anterior em abóboda, marginado-estriado e marcado por uma série transver- sal de pontos fortes, paralelamente ao arco; ângulos anteriores muito declives, arredondados, munidos de calosidade encimada de pequeno tubérculo; ângulos posteriores quasi retos, munidos de pequeno apêndice subcarinado e escondido sob os élitros; nota-se nas imediações dos ângulos posteriores uma calosidade pouco acen- tuada. Uiba pronotal forte, subquadrangular, quase vertical na trente, bem delimitada (atrás e nos lados) por um sulco raso e brilhante; fortemente excavada em cima, apresentando os bordos da excavação dois fortes tubérculos, mais ou menos comprimidos e com o aspecto de corroídos. O posterior é o maior e ligeiramente bif ido ; o anterior, um pouco mais externo, dá origem a uma cris- ta arqueada, de concavidade voltada para dentro e que pode atin- gir o limite anterior da elevação. Nota-se, ainda, um terceiro tu- bérculo, menor e subcònico, externamente sob o anterior. Quase tõcia a superfície do pronoto é finamente estriada e de aparência sedosa; as estrias irradiam, ondulantes, em vários sentidos e se atenuam nas margens; às vêzes a superfície é, ao mesmo tempo, onduladamente sublineolada, sobretudo na face anterior da gibo- sidade. A pontuação do pronoto é variável e, em geral, mais es- cassa nas margens. 100 PAPÉIS AVULSOS Vol. IV — N." 7 Escutelo transversal, trapeziforme (de base posterior) e mu- mão de carena central obtusa, abreviada e parcialmente alojada no chanfro pronotal mediano. Élitros acidentados mas de revestimento mais liso e mais bri- lhante que o do pronoto (principalmente na região discoidal); for- temente pontuados nas depressões; deiscentes, deixando a des- coberto o propigídio e o pigídio; base bem adaptada à do pro- noto e com vestígios de denticulação; lobos epipleurais bem pro- nunciados. Cada élitro é provido de cerca de 15 tubérculos, mais ou menos cônicos ou subtriquetros, assim dispostos: três basilares de que o mediano é o maior e o mais externo o menor (ausente, às vêzes); outro sob o mais interno; mais três sob a calosidade ume- ral (esta, bastante saliente, pouco regular e alongada), o externo pouco distinto; ainda outros três, na região discoidal, sob o gran- de tubérculo basilar e mais ou menos em forma de tridente; na mesma região, pouco atrás e próximo à sutura, um outro, o mais característicamente triquetro; ainda outros três, na região ante- apical, dispostos em triângulo; finalmente mais dois, transversal- mente dispostos e mais ou menos ligados, em continuação à ca- rena lateral. Esta, bem acentuada, começa sob o tridente e emite, logo depois, pequeno ramo transversal e tuberculiforme. Sutura fortemente crenulada, desde o tubérculo suturai triquetro até um pouco antes da deiscência. Pigídio subogival, apenas pouco mais longo que largo, procli- ve, levemente convexo e finamente pontuado; sua parte distai a- presenta duas depressões marginais, mais ou menos fortes, mar- cadas de pontos profundos e separadas por uma carena centro- longitudinal obtusa, geralmente bastante abreviada; a base apre- senta outras duas depressões, uma de cada lado, pouco profundas e subcirculares; o bordo distai é espessado e marcado de pontos alongados, profundos e pilíferos. Processo prosternal distinto, pontuado-cerdoso e rapidamente dilatado, no têrço anterior que apresenta uma excavação, ladeada por dois tubérculos antero-marginais; os dois terços posteriores são subparalelos, terminados em curva, levemente arqueados e canali- culados no sentido longitudinal. Episternos subtriangulares, con- vexos, sinuosos no lado interno e dispostos em prolongamento dos 21-VI-1944 • — - E. Navajas — • Sõbrc a validez, de Fulcidax violaceus 101 ângulos protorácicos anteriores. Coxas oblíquo-transversais, alon- gadamente subglobosas. Mesosterno recoberto pelo prosterno. Metasterno saliente, transverso, bastante declive nos lados de um disco triangular, de base posterior e bi-emarginada e de ân- gulos laterais truncados. Chanfro ( sinus ) metasternal profundo. Disco longitudinal e levemente sulcado, densamente marcado de pontos rasos, por vezes confluentes, formando rugas oblíquas pou- co distintas e irregulares. A pontuação torna-se um pouco mais regular nos declives làtero-anteriores e toma o aspecto intrincado- rugoso nos laterais. Parapleuras metatorácicas subretangulares, longitudinais, emarginadas no lado externo e variolosamente pon- tuadas. Abdômen recalcado sobre si mesmo. Primeiro segmento forte- mente carinado na linha mediana e tomentoso atrás desta; muito estreito no meio e bastante alargado, em curva, para os lados; ângulos anteriores providos de uma crista arqueada que toca o ápi- ce das parapleuras metatorácicas; cada um dos seus lados apre- senta um forte tubérculo e um pequeno dente marginal pouco aci- ma do primeiro; a superfície, nas imediações dos élitros, é sub- rugosa e a pilosidade torna-se bem mais longa na região frontei- ra ao tubérculo lateral. Os três segmentos intermediários são mui- to curtos e imbricados. Ao contrário do primeiro, o quinto é largo no centro, apesar de emarginado pelo pigídio, e agudo nas extre- midades; a excavação dêste segmento na $ é profunda, incial- mente subtriangular mas perfeitamente hemisférica a partir de certo plano; a parte hemisférica é glabra e finamente pontuada mas a restante é tomentosa e fortemente pontuada. No S a excavação se reduz, em geral, à parte subtriangular e é inteiramente tomen- tosa. Pernas subiguais, retráteis, levemente arqueadas (para ada- ptação à convexidade do corpo), acolhidas nas grandes cavidades dos segmentos torácicos respectivos, na posição de repouso, caso em que o 2.“ par fica parcialmente recoberto pelo primeiro. Fê- mures tão longos quanto as tíbias, um pouco deprimidos, espar- samente pontuados e providos de ranhuras tibiais. Tíbias subtri- quetras, um pouco mais estreitas na base que na extremidade distai que é oblíquamente truncada e armada de pequeno espinho. Tar- 102 PAPÉIS AVULSOS Vol. IV — N.° 7 sos curtos, robustos, peniculados; artículos subtrapezoidais e gra- dualmente alargados do l.° ao 3.°. 1 quase duas vêzes mais lon- go que 2; 3 ainda mais longo que 1 e fortemente bilobado, para acolher o seguinte em quase toda a sua extensão; 4 estreito mas robusto, quase tão longo quanto o anterior e munido de unhas fortes e simples. Dimensões: Comprimento: $ 8, 5-9, 5 9 8, 9-9, 8 mm Larg. umeral: 6, 8-7, 5 7, 0-7, 5 mm Cohipótipos: 8 exemplares depositados nas seguintes co- leções: Departamento de Zoologia: S n. 17.745, Estado de S. Paulo, Jundiai, M. Beron col. S n. 105.731, Estado de Mato Grosso, Guaicurús, J. R. Dufaux col. 9 9 n. 105.732-34, Estado de Mato Grosso, Guaicurús, J. R. Dufaux col. 9 n. 17.746, Estado do Ceará, Gameleira, O. Diog. col. Instituto Biológico: 9 - Capital do Estado de S. Paulo, V-1930, Oliveira Fi- lho col. J. Guérin: $ n. 5.322, Estado de S. Paulo, Rio Preto, 1-1932, J. Gué- rin col. Notas taxinômicas: A espécie é muito próxima e muito seme- lhante a F. cupreus (Klug, 1824) de que se distingue, apenas, pe- lo processo prosternal mais largo e canaliculado longitudinalmente e pela pilosidade bem mais longa da região fronteira ao tubérculo do primeiro segmento abdominal; em cupreus a pilosidade de tô- da a região lateral, daquêle segmento, é de comprimento unifor- me e apenas visível sob um aumento de cêrca de 30 X. É interessante lembrar que Klug (Ent. Mon., p. 236) admi- tiu a possibilidade de cupreus não passar de uma variedade de F. bacca (Kirby, 1818), quando a espécie indubitavelmente mais pró- xima e quase idêntica é violaceus. Lacordaire considera bacca “une 21-VI-1944 • — E. Navajas • — Sóbre a validez cie Fiilcida. x violaceus 103 espèce parfaitement distincte” (com o que estamos inteiramente de acordo) e incluiu violaceus na sinonímia de cuprcus, provavel- mente, por dispor de poucos exemplares de ambas as espécies, pois, tomando-as como uma só, escreve: “Elle n’est pas comniu- ne dans les collections”. A distribuição geográfica de violaceus é a seguinte: Pará (Klug) e, segundo o nosso material, S. Paulo, Ceará e Mato Gros- so. Os nossos exemplares de cupreus foram capturados em S. Pau- lo, Goiaz e Mato Grosso; quanto ao material utilizado por Klug (Brasilia), pelo que se sabe a respeito do colecionador (Olfers), proveio, provavelmente, das regiões mais próximas ao Distrito Federal, de S. Paulo à Bahia. ABSTRACT Based on 20 specimens of Fulcidax cupreus (in the Lacor daire’s sense), easily separated into two series, both with males and females, the author proposes the revalidation of Fulcidax vio - laceus (Klug) and redescribes it. Vol. IV, N.° 8 — pp. 105-116 21-VI-1944 PAPÉIS AVULSOS DO DEPARTAMENTO DE ZOOLOGIA SECRETARIA DA AGRICULTURA — S. PAULO - BRASIL SÔBRE OS MENOPONIDAE (MALLOPHAGA) ENCONTRADOS EM TINAMIFORMES POR Lindolpho R. Guimarães Até o momento apenas cinco espécies de Amblycera, tôdas pertencentes à família Menoponidae, foram encontradas em aves da ordem dos Tinamiformes. O primeiro menoponida verificado em tinamida foi Trinoton biguttatum, descrito por Rudow em 1866, de material colecionado em “Tinnamus bonnaquira” (= Nothu- ra boraquirn?) . Os autores modernos são acordes em considerar esta espécie irreconhecível, mesmo genericamente, pois as descri- ções de Rudow são completamente ineficientes, e até hoje nenhu- ma espécie de malófago pertencente ao gênero Trinoton ou a ou- tro gênero que lhe seja semelhante, foi encontrada em Nothura boruquira, espécie com a qual tem sido identificado o “Tinnamus bonnaquira”. Recentemeníe (1941), referindo-se a ela diz Hop- kins í 1 ): “No conclusion is possible with regard to Trinoton bi- guttatum, but there is a strong probability that the specimens were stragglers. lt is conceivable that there is on the Tinamidae an Amblycerous genus superficially resembling Trinoton, but no subsequent author has rediscovered it”. Em 1874, Giebel, descreveu Menopon brachygaster, encon- trado em Cryptiirus tao ( — Tinamus tao). Carriker (1936) ( 2 ) acha que essa espécie não é um hospede normal de tinamida. Ké- O) Ann. Mag. Nat. Hist., Ser. 11, Vol. VII, p. 45, 1941. (, : ) Proc. Acad. Nat. Sc. of Philadelphia, Vol. LXXXVIII, p. 45, 1936. cm SciELO 10 11 12 13 14 15 fOfi PAPÉIS AVULSOS Vol. IV — N* S ler, que a transferiu para o gênero Menacanthus, assinala sua presença no Tinamus solitarius. Neste mesmo hospedeiro tivemos oportunidade de encontrar um macho. Menopon arcüfasciatum foi descrito por Piaget em 1885, de material colecionado em Rhynchotus ntfescens, e incluido por Neu- mann, em 1912, no seu então novo subgênero Menacanthus. Recentemente Kéler descreveu a quarta espécie, Microctenia tibiatis, de material encontrado em Tinamus solitarius. No presente trabalho descrevemos a quinta espécie, perten- cente ao gênero Microctenia, de material encontrado no Cryptu- rellus n. notívagas. O gênero Menacanthus encontrado em diversos grupos de aves encerra um número regular de espécies cujos caracteres morfoló- gicos se apresentam bastante hecterogenio, estando longe de si- gnificar, portanto, de acordo com nosso conceito genérico, um agrupamento ideal. As duas espécies de Menacanthus encontradas em tinarnida, entretanto, apresentam caracteres que as aproximam bastante de Menacanthus robustas (Kellogg), espécie tipo do gênero, tornan- do muito duvidosa a possibilidade de serem colocadas em gênero diferente, embora o genótipo de Menacanthus seja encontrado em aves da família Paridae. O gênero Microctenia, porém, é muito característico e pa- rece ser encontradiço sómente em Tinamidae, o que nos leva a pensar serem suas espécies hóspedes normais de aves unicamen- te desta família. Menacanthus bracliyga9ter (Giebel) (Figs. 1 a D) Menopon brachygaster Giebel, 1874, Insecta Epizoa, p. 293; Harrison, 1916, Parasitology, Vol. 9, n.° 1, p. 34; Car- riker, 1936, Proc. Acad. Nat. Sc. of Philadelphia, Vol. LXXXVIII, p. 45 e 54. Menacanthus brachygaster (Giebel), Kéler, 1939, Arb. morph. taxon. Ent. Berlin-Dahlen, Band 6, nr. 3, p. 250. Giebel descreveu esta espécie baseado em um único exem- plar macho encontrado em Crypturus tao (= Tinamus tao). Car- 21-VI-1944 • — L. R. Guimarães — Sôbre os Mcnopomdac 107 riker acredita ser ela “stragler” de aigum hospedeiro desconhecido e a coloca na lista das espécies hipoteticamente encontradas em tinamida. Em 1939, Kéler teve oportunidade de examinar 3 fêmeas en- contradas em Tinainus solitarius e compará-las com um macho des- ta espécie da coleção do Museu de Zoologia da Universidade de Hale. Fig. Fig. 1 - Menacanthus brachygastcr (Giebel). Cabeça do macho. 2 - Menacanthus brachygastcr (Giebel). Extremidade dis- tai da tíbia posterior do macho. Fig. 3 - Menacanthus brachygastcr (Giebel). Aparelho copula- dor do macho. Baseado nessa comparação concluiu aquele autor sôbre a co- especificidade do material e transferiu a espécie de Giebel do gê- nero Menopon para Menacanthus. Embora tenhamos examinado a- penas material encontrado em Tinainus solitarius, julgamos acer- tada a conclusão de Kéler, devido à semelhança das faunas malo- fagológicas do Tinainus tao e Tinainus solitarius, não excluindo, en- tretanto, de modo absoluto a possibilidade de se tratar de espé- cies diferentes dada a diferença específica entre os hospedeiros. Conforme verificaremos adiante, é bastante grande a semelhança entre esta espécie e Menacanthus artifasciatum, encontrada nc Rhynchotus r. rufescens, o que vem em favor de nossa convicção 2 3 4 SciELO cm 10 11 12 13 14 15 108 PAPÉIS AVULSOS Vol. IV — N.° S de ser Menaoantlms brachygaster um hóspede normal de tinami- das. Damos a seguir algumas medidas de um exemplar macho: IMenacantlius arctifasciatum (Piaget) (Figs. 4 a D) Menopon arctifasciatum Piaget, 1885, Pédiculines, Suppl., p. 112, pl. 12, fig. 4, 4a, 4b; Harrison, 1916, Parasitology, Vol. 9, n.° 1, p. 33. Menopon ( Menaccinthus ) arctifasciatum (Piaget), Neumann, 1912, Archives de Parasitologie, Vol. XV, n.° 3, p. 360, fig. 6. Menacant/uis arctifasciatum (Piaget), Carriker, 1936, Proc. Acad. Nat. Sc. of Philadelphia, Vol. LXXXVIIi, p. 63. Não sabemos se o material que serviu de base à descrição original foi colecionado na espécie nominal de Rhynchotus ru- fescens. Os exemplares que temos em mãos, colecionados em Rhyn- chotus r. rufescens, embora apresentando ligeiras divergências com a descrição e desenhos dados por Piaget, estão dentro de um li- mite razoável de variação, que pode ser levado à conta de defi- ciência e falta de detalhes nos desenhos daquele autor. Entretanto, a verificação de exemplares desta espécie, feita por Carriker, em Rhynchotus r. rufescens e Rhynchotus r. maculicollis e o desenho da cabeça de uma fêmea, possivelmente pertencente ao material estudado por Piaget, dado por Neumann, nos induz a pensar que nossa identificação seja certa. Carriker diz que a única diferença tangível verificada entre sua fêmea e a descrição e figura de Pia- get é que as têmporas de seu material são um pouco mais arre- dondadas. Essa mesma diferença encontramos no nosso material. A figura dada por Neumann, entretanto, representa essa parte da cabeça bem mais arredondada que a figura de Piaget, aproximan- do-a mais da forma que o nosso material apresenta. A forma do Cabeça Protórax Metatórax Abdômen Total comprimento 0,350 mm 0,210 mm 0,210 mm 1,170 mm 1,810 mm 0,560 mm 0,450 mm 0,490 mm 0,620 mm largura 21-VI-1944 — L. R. Guimarães — Sôbre os Menoponidae 109 protórax também se apresenta um tanto diferente. No nosso ma- terial êle não é tão alongado em pescoço como é representado na figura de Piaget. Referindo-se aos fêmures diz aquele autor que são mais longos que as tíbias e “poilus tout autour”. Esta quetotaxia é representada, em sua figura, nos três pares de patas Conforme se verifica pela fig. 5, sómente os fêmures do par pos- terior é que apresentam maior aglomeração de cerdas, e assim mes- mo apenas na superfície interna; os fêmures dos dois pares ante- riores mostram muito poucas cerdas. As diferenças de tamanho também são grandes: Piaget dá 25-26 para as fêmeas e 20-21 para os machos; os nossos exemplares apresentam comprimento de SciELO 10 11 12 13 110 PAPÉIS AVULSOS Vol. IV — N.° 8 2,080 mm para a fêmea e 1,720 para o macho. A quetotaxia do ab- dômen, representada por Piaget apenas a da superfície dorsal, concorda perfeitamente com a dos nossos exemplares. É bem Fig. 6 - Menacanfhus arctifasciatam (Piaget). Aparelho copu- lador do macho. Fig. 7 - Menacanfhus arctifasciatum (Piaget). Extremidade dis- tai da tibia posterior do macho. Fig. 8 - Menacanfhus arctifasciatum (Piaget). Extremidade pos- terior do abdômen da fêmea (vista ventral). Fig. 9 - Menacanthus arctifasciatum (Piaget). Abdômen do macho. grande a semelhança entre os machos desta espécie e os de Me- nacanthus brachygaster. Mesmo os aparelhos copuladores, confor- me se verifica pelas figs. 3 e 6, diferenciam-se apenas em deta- 21-VI-1944 • — L. R. Guimarães — Sôbre os Mcnoponidac 111 lhes. A forma da cabeça e a quetotaxia do abdômen e das patas, porém, são características para as duas espécies. As diferenças existentes ria forma das cabeças é bem evidenciada pelas íigs. 1 e 4. Os fêmures do par posterior de Menacanthus brachygaster não apresentam o aglomerado de cerdas existentes em Menacan- llius arctijasciatum, e a porção ventral do abdômen desta espécie apresenta um número muito maior de cerdas que a espécie de Giebel. Damos abaixo algumas medidas de M. arctijasciatum : Fêmea comprimento largura Cabeça 0,380 mm 0,560 mm Protórax 0,200 mm 0,450 mm Metatórax 0,220 mm 0,540 mm Abdômen 1,274 mm 0,920 mm Total 2,080 mm — Macho comprimento largura Cabeça 0,350 mm 0,520 mm Protórax 0,160 mm 0,350 mm Metatórax 0,184 mm 0,380 mm Abdômen 1,160 mm 0,540 mm Total 1,720 mm — Microctenia foaresi, n. sp. (Figs. 10 a 16) Hospedador tipo: Crypturellus n. notivagus (Wied), prove- niente do rio S. José, Estado do Espírito Santo, Brasil. Espécimes examinados: Um macho colecionado no hospeda- dor tipo por B. M. Soares, em 15-IX-1942; uma fêmea colecionada pelo mesmo Sr. em hospedeiro idêntico, com a mesma procedên- cia, em 22-1X-942. Descrição • — ■ Fêmea: Cabeça mais larga que longa, apresentando o contorno um tanto irregular; têmporas salientes; occiput reintrante. Lojas an- 2 3 4 SciELO cm 10 11 12 13 14 15 I 12 PAPÉIS AVULSOS Vol. IV — N* S tenais profundas; palpos maxilares com o comprimento ultrapas- sando as bordas da cabeça; saliência ocular distinta e dupla. Man- chas de côr castanho escura e bastante conspícuas. De cada lado da linha mediana da borda frontal, na superfície dorsal, encon- Fig. 10 - Microctenia soaresi, sp. n. Fêmea. Fig. 1 1 - Microctenia soaresi, sp. n. Abdômen do macho. tram-se 7 cerdas pequenas; na borda lateral, ao nível da implan- tação da antena, encontram-se 4 cerdas de comprimento regular e uma longa; nas bordas das têmporas encontram-se 3/4 cer- 21-VI-1944 — L. R. Guimarães — Sòbre os Menopouidac 113 cias pequenas e 4 bastante longas; ao nível do occiput duas de comprimento médio; na superfície dorsal encontram-se ainda 4/5 JÈK ■ 15 V tf* X. ff{ X 13 \i J Fig. 12 - Microctenia soaresi, sp. n. Aparelho copulador do macho. Fio- 13 - Microctenia soaresi, sp. n. Cabeça da fêmea. b‘ Fig. 14 - Microctenia soaresi, sp. n. Região temporal da cabeça da fêmea. Fig. 15 - Microctenia soaresi, sp. n. Região frontal da cabeça da fêmea. Fig. 16 - Microctenia Soaresi, sp. n. Extremidade posterior do abdômen da fêmea (vista dorsal). cerdas de comprimentos diversos. Na superfície ventral, além de diversos pares localizados ao nivel da região guiar, encontram-se, 2 3 4 SciELO cm 10 11 12 13 14 15 114 PAPÉIS AVULSOS Vol. IV — N* S nas têmporas, tufos de cerdas de tipos e tamanhos diferentes. Protórax mais estreito que a cabeça, apresentando as bordas látero posteriores um tanto angulosas, acompanhadas de 10 cerdas de comprimentos iguais; uma cerda mais curta em cada ângulo látero anterior. Como o protórax, o metatórax é mais largo que longo, de lados divergentes, com 5 cerdas de cada lado da linha mediana da borda posterior. As patas são relativamente curtas, porém, robustas; suas faixas são largas e conspícuas; a porção distai das tíbias do par anterior apresenta um tufo de numerosas e finas cerdas; como em M. tibialis Kéler, o prosterno é saliente e os fêmures do par posterior apresentam-se revestidos por pe- quenos pentes constituídos por agrupamentos de minúsculas for- mações denticuladas. Abdômen longo, de forma oval e apresentando nítida sepa- ração entre os diversos segmentos; as bordas laterais dos segmen- tos são levemente arredondadas e guarnecidas de cerdas longas, localisadas nas proximidades dos ângulos látero posteriores. O 9. c segmento apresenta, na superfície dorsal, além das cerdas da bor- da posterior, uma fileira de 12/13 cerdas finas e delicadas, dis- postas em meia lua. Segmento terminal arredondado e bordejado por 8 cerdas de comprimento médio. Os esternitos apresentam um número variável de cerdas e são revestidos pelas minúsculas formações deticuladas que, entretanto, tornam-se mais nítidas nos segmentos 3.°, 4.° e 5.°. A borda da região genital, que no nosso exemplar se acha levemente deslocada, é arredondada e apresen- ta 3/4 cerdas de cada lado. Macho : Em sua forma geral o macho é muito semelhante à fêmea. É, entretanto, menor e o seu abdômen se apresenta de forma me- nos oval. Com exceção dos segmentos distais do abdômen e dos esternitos, a quetotaxia é idêntica à da fêmea. Èstes últimos se apresentam menos pilosos que os da fêmea, e como os desta, são revestidos pelas formações denticuladas que se tornam mais cons- pícuas nos 3.°, 4.° e 5.° esternitos. O aparelho copulador é bas- tante característico como se pode vêr pela fig. 12. 21-VI-1944 — L. R. Guimakães ■ — Sôbre os Menoponidae 115 Mensiiraçõcs : Holótipo fêmea Alótipo macho comprimento largura comprimento largura Cabeça 0,453 mm 0,650 mm 0,425 mm 0,550 mm Protórax 0,270 mm 0,467 mm 0,212 mm 0,425 mm Metatórax 0,326 mm 0,650 mm 0,255 mm 0,623 mm Abdômen 1,700 mm 0,950 mm 1,330 mm 0,807 mm Total 2,690 mm 2,250 mm — Tipos: Holótipo fêmea sob n.° 45.460 e alótipo macho sob n.° 45.461, nas coleções do Departamento de Zoologia. Discussão taxinômica: Esta espécie é bastante semelhante a Microctcnia tibialis Kéler, tanto em relação aos caracteres mor- fológicos como quanto ao comprimento. A quetotaxia e a estru- tura do aparelho copulador do macho, entretanto, a caracteriza per- íeitamente, diferenciando-a da espécie de Kéler. Microctcnia soa- resi n. sp. apresenta 3 cerdas de comprimento médio em cada la- do da porção mediana e próximo a esta dos segmentos abdomi- nais l.° a 5.° c do metatórax; Microctcnia tibialis Kéler, apresenta apenas duas. A superfície dorsal do 9.° segmento abdominal da fêmea de M. tibialis apresenta diversas cerdas pequenas esparsas em sua superfície, enquanto que em AI. soaresi n. sp., êste tergito apresenta apenas uma fileira de cerdas finas, porém, bem mais longas que as de M. tibialis. Os esternitos da fêmea de M. soaresi n. sp., apresentam-se muito mais pilosos que os de M. tibialis. O aparelho copulador do macho, embora obedecendo ao mesmo aspecto geral do de M. tibialis, é bem diferente; os parâmeros da nova espécie não são tão afilados nem tão longos como em M. ti- bialis; a placa basal (?) apresenta a porção anterior muito mais afilada; o corpo mediano apresenta-se mais curto e mais largo. A estrutura estriada, localizada anteriormente à placa basal, é muito pouco visível em nosso material. O nome desta espécie é dado em homenagem ao sêu coletor, L>r. B. M. Soares, nosso prezado companheiro de trabalho. 2 3 4 SciELO cm 10 11 12 13 14 15 116 PAPÉIS AVULSOS Vol. IV — N." 8 Microctenia tibialis Kéler. Microctenia tibialis Kéler, 1939, Arb. morph. taxon. Ent. Ber- lin-Dahlen, Band 6, n.° 3, p. 251, figs. 22 e 23. 0 material que serviu para a descrição de Kéler foi colecio- nado em Tinanms solitarins. Examinando peles de Tinamus tao tao, tivemos oportunidade de encontrar, por diversas vêzes, exempla- res machos e fêmeas que identificamos como Microctenia tibialis, embora as estruturas do aparelho copulador dos $ S se apresen- tem levemente diferentes da figura dada por Kéler. ABSTRACT In this paper de A. deals with lhe Mallophaga of the family Mcnoponidae from Tinamiformes and describes a new speci°s, Microctenia soaresi n. sp., found on Crypturellus n. notívagas fWied), from Espírito Santo, Brazil. Vo!. IV, N.* 9 — pp. 117-150 21-VI-1944 PAPÉIS AVULSOS DO DEPARTAMENTO DE ZOOLOGIA SECRETARIA DA AGRICULTURA — S. PAULO - BRASIL SÔBRE AS AVES DO DISTRITO DE MONTE ALEGRE, MUNICÍPIO DE AMPARO (SÃO PAULO, BRASIL) POR Oliverio Pinto I INTRODUÇÃO .* Chamado a colaborar nos estudos a que atualmente se proce- dem sôbre o aspecto físico e riquezas naturais da região de Monte Alegre, tem o Departamento de Zoologia enviado vários técnicos àquela pequena localidade, com o intuito de investigar-lhe as con- dições ecológicas e colecionar os exemplares necessários a um le- vantamento faunístico. Monte Alegre, cuja localização correspon- de a 22 l> 40’ de longitude a oeste de Greenwich, é ainda uma pe- quena cidade, pertencente ao município de Amparo e situada a nordeste do estado de São Paulo, em região muito montanhosa, subordinada à grande serra da Mantiqueira. O colecionamento de Mamíferos e Aves foi confiado ao snr. José Leonardo de Lima, taxidermista da repartição, com experiência longa em missões desta natureza. As aves, de que particularmente se ocupa o presente tra- balho, constituem, como era de prever, a parte mais importante do material coligido, no que respeita peio menos ao número e va- riedade de formas. É óbvio que para o conhecimento rigoroso da composição avi- faunística da zona seriam necessários alguns anos de atividade no lugar. Só uma longa permanência poderia permitir uma coleta sa- em SciELO 10 11 12 13 14 15 118 PAPÉIS AVULSOS Vol. IV — N.° 9 tifatória, não só dos elementos constantes ou banais, como também dos visitantes esporádicos. Não sendo, porém, materialmente pos- sível realizar este ideal, tracei o plano de visitas sucessivas à lo- calidade, intervaladas aproximadamente de quatro meses, e distri- buídas de modo a surpreender, na medida do possível, as varia- ções decorrentes das estações e consecutivas mudanças nas con- dições climatéricas. Fez o snr. Lima em Monte Alegre uma primeira excursão em meados do ano transacto (1942), demorando-se de 17 de julho a 7 de agosto. Foi conseguida boa representação das espécies mais comuns (ao todo 133 exemplares), além de algumas peças pre- ciosas, pela sua maior raridade ou beleza de plumagem. Orientando-se pelas informações dos moradores e fazendeiros e guiando-se pelo mapa topográfico de que se munira, procurou o colecionador visitar os pontos mais recomendados, a despeito das dificuldades criadas, tanto peia sua situação, quase sempre no alto de elevadas montanhas,, como pela sua distância do povoado, onde houve necessidade de fixar a sede dos trabalhos. A segunda visita de Lima teve muito curta duração e foi em- preendida na entrada da estação mais quente, entre 23 de novem- bro e 3 de dezembro. Seus resultados, no que se refere às Aves, foram, forçosamente muito menores do que os da primeira, devido também em grande parte às chuvas, que se tornam continuadas e impetuosas no curso da estação referida. Objetivos especiais abreviaram o intervalo que conviria guar- dar antes da terceira excursão, pelo que já em 13 de janeiro re- gressava o snr. Lima a Monte Alegre, onde desta feita permaneceu durante mais de um mês (até 17 de fevereiro), conseguindo algu- mas novidades com referência às viagens anteriores. Ao fazer o estudo do material trazido e das observações fei- tas nestas excursões, convenci-me da utilidade de conhecer pes- soalmente a localidade, a que só fizera rápida visita, por ocasião da primeira viagem do colecionador. Assim, a 8 de maio (1943), acompanhado dêste último, seguí para Monte Alegre, aproveitan- do uma temporada propícia de dias muito claros e temperatura agradável. Das observações e episódios desta viagem dou por- menorizado relatório no diário que se segue. 21-VI-1944 * — O. Pinto • — Aves do Distrito de Monte Alegre 11SI I I CONSIDERAÇÕES GERAIS SÔBRE O RESULTADO DAS EXCURSÕES Do exâme global das coleções ornitológicas realizadas, e le- vadas ainda ern conta as espécies que afirma o colecionador ter ob- servado, sem delas conseguir exemplares representativos, fica a impressão de que a região em estudo é, do ponto de vista ornito- lógico, uma das mais devastadas e empobrecidas do Estado de São Paulo. Isso está, de certo, em relação com a destruição quase completa das matas que deviam outrora cobrir grande parte do seu solo, destruição esta tanto mais nociva quanto se processou espe- cialmente na orla dos rios, de cuja mata ciliar já hoje não existe o menor vestígio. Não se possuem informações sobre a extensão e importância que teriam primitivamente as matas do distrito; mas, atenta a composição e relevo do solo, é de crêr não fossem elas muito diversas das existentes nas zonas montanhosas do interior de São Paulo e quiçá comparáveis, no que respeita à vida animal, às de Ipanema, cuja assombrosa riqueza faunística foi atestada em começos do século findo, pelas explorações de Natterer. Seja como fôr, devem ter-se como de formação secundária, ou mera- mente residuais, as matas atualmente existentes, não obstante mui- tas vezes pareçam reproduzir a primitiva sinécia, segundo se de- preende do estudo fitofisionômico da região, realizado por Kulil- mann. (*) Uma das fazendas que conservam maior extensão de matas é a de Santa Izabel, situada pouco ao norte da cidade, em terrenos cuja altitude oscila ordinariamente entre 800 e 900 metros. Infe- lizmente, por ser muito penosa a subida às montanhas cm cujo cimo principalmente se localizam os seus 100 alqueires de matas, só poucas buscas permitiram realizar nestas reservas. Matas de re- lativa importância ainda existem nas fazendas Bom Jesus e Santa Maria, a primeira muito perto da cidade e a segunda ao norte do distrito, ambas em terreno montanhoso e de muito dificil acesso, especialmente a última. Na fazenda Ponte Alta, há também uma (') M. Kuhlmann, Observ. gcr. e Contrib. ao estudo da Flora c Fito- fisionomia do Jirasil (instituto de Botânica de São Paulo), V, 1943, 2 3 4 SciELO cm 10 11 12 13 14 15 120 PAPÉIS AVULSOS Vol. IV — N.‘ 9 reserva, onde as aves gosam da proteção do proprietário, que man- tém a caça permanentemente interdicta. Os meses que se supõem mais remuneradores à atividade do colecionador são os de verão, até abril, quando as primeiras ondas de frio começam a acossar a população alada, tangendo os pás- saros migratórios para as zonas mais baixas e de clima mais be- nigno. É também a época em que a maturação dos frutos atrai aos pomares e chácaras o bando de pássaros frugívoros, em nú- mero todavia assaz limitado de espécies, conquanto bastante a- bundantes em indivíduos. Certos pássaros sabidamente migrantes parece visitarem a zo- na apenas muito passageiramente, à entrada do verão. Neste nú- mero merece referência particular a “tesoura” ( Muscivora tyran- nu tyranmis (Linnaeus)), cujos numerosos exemplares foram to- dos coligidos na segunda quinzena de janeiro (entre os dias 16 e 23), e que já em fevereiro não era mais vista. Interessante achado ornitológico, fruto ao que parece de me- ro encontro acidental, foi a de um lindo macho adulto do “gatu- ramo rei” ( Tanagra musica aureata Vieil.) , obtido em 27 de julho (1942). É passarinho de larga distribuição na América meridional quente e temperada, mas, pelo menos no Brasil, só muito rara- mente colecionado. I 1 1 DA AV1FAUNA SILVESTRE Muito mais sensível do que a dos campos, está quase inteira- mente extinta no distrito de Monte Alegre a avifauna da mata pró- priamente dita. Não lhe bastaram para preservar a existência a conservação de umas poucas reservas de floresta, todas de dimen- sões bastante limitadas, além de isoladas e circunscritas no seu âmbito, circunstâncias a que acresce a situação desfavorável nos lugares elevados, onde a agua às vezes falta de todo. Mais porém do que os fatores climáticos e geográficos, a per- seguição insensata pelos caçadores deve ter sido a causa princi- pal do aniquilamento quase completo da primitiva fauna silvestre da zona estudada. Assim é que o macuco ( Tinamus solitarius ( Vieillot) ) , desapareceu de todo, desde tempo imemorial, e que o 21-VI-1944 — O. Pinto • — Aves do Distrito de Monte Alegre 121 mesmo está prestes a acontecer com os jacús ( Penelope supercilia- ris jacupemba Spix), dos quais um ou outro indivíduo desgarra- do se observa, atraido pela abundância eventual de alguma fruta. Conforme pude eu próprio verificar, identificando-o pelo canto, nas matas da Fazenda Santa Izabel existe ainda com relativa abun- dância o inambú-guassú ( Crypturellus obsoletas obsoletas (Temm.)). Consta existirem também as duas espécies menores do gênero, o inambú-chororó (Crypturellus parvirostris (Wagler)) e o chintã ( Crypturellus tataupa tataupa (Temm.)), o que não pude todavia confirmar. Quase desertas que atualmente são, pelas razões anteriormen- te expostas, as poucas reservas de mata da zona de Monte Ale- gre conservam ainda assim alguns testemunhos da fauna que nelas vivia em outros tempos. Pyriglena leucoptera (Vieillot), por exem- plo, representada na coleção por um exemplar da Fazenda Boa Vista (13 de fevereiro), é passarinho tipicamente da mata, onde frequentemente aparece dando ativa caça às baratas, grilos e ga- fanhotos, que as correições de formigas carnívoras expulsam de seus esconderijos. Observa-se ainda, com relativa frequência, o dansador ou tangará ( Chiroxiphia caudata (Shaw)), um dos pás- saros mais encontradiços nas matas de nosso estado, como tam- bém Conopophaga lineata lineata (Wied), ou chupa-dente, elegan- te avezita, que o príncipe de Wied foi o primeiro a descrever. São também pássaros silvestres, entre outros, Hypoedaleus guttatus ( Vieil.) , Dysithamnus mentalis mentalis (Temm.), Drymophila ochropyga (Hellm.), Platyrinchus mystaceus mystaceus (Vieil.) e Trichothraupis melanops (Vieillot). Menção particular merece ainda o sonolento e toleirão joão barbudo ( Malacoptila striata striata (Spix)), nunca encontrado fo- ra da sombra da mata, onde representa o conhecido joão bobo (Nystalus chacuru (Vieil.)), que vive nos lugares abertos e ocorre também em Monte Alegre. A alma de gato ( Piaya cayana macroura Gambel), que na mata representa os anuns, é rara na zona, es- tando representada na coleção por um exemplar. Não foi porém observado nenhum representante das famílias dos momótidas (ju- ruvas) e dos trogônidas (surucuás), características da avifauna de nossas matas virgens. Com serem dos pássaros mais comuns e muito peculiares à PAPÉIS AVULSOS Vol. IV — N.° 9 p>0 avifauna silvestre indígena, é muito digna de nota a ausência quase absoluta de dendrocoláptidas. Desta vasta e importante família apenas foi colecionado um mesquinho representante ( Sittasomus griseicapillus sylviellus (Temm.)), cm princípios de maio. Esse fato deve prender-se à ausência hoje das velhas árvores ou troncos apo- drecidos, nas frinchas de cuja casca costumam esses pássaros pro- curar as larvas e insetos de que se nutrem, grimpando à maneira de pica-paus ( Picidae ). Estes também pràticamente não existem-, provavelmente pelas mesmas razões. 1 V DAS AVES MAIS COMUNS NO DISTRITO E SUAS RELAÇÕES COM A AGRICULTURA Na ornis da região predominam, como é natural, as espécies a- feiçoadas ao convívio do homem, na primeira linha das quais se des- taca o tico-tico ( Zonotrichia capensis subtorqnata Swainson), pássaro de sobra conhecido, e o pardal europeu ( Passer domes- ticas (Linn.)), ave importada e de hábitos 'estritamente citadinos que, à fôrça de se multiplicar excessivamente, vem comprometendo cada vez mais a vida de seu companheiro indígena, incapaz de sempre vantajosamente com ele competir na luta pela existência. Vêm em segundo lugar os pássaros frugívoros comuns nos poma- res do interior, cios quais o mais vulgar e abundante é incontesta- velmente o sanhaçú; ou sanhaço ( Thraupis sayaca sayaca (Linn.)), ávido comedor de goiabas c mamões, a que vêm ter também fre- quentemente as saíras, especialmente a T angora cayana chloropte- ra (VieiL), quase tão comum quanto ele. A posição desses e outros pássaros frequentadores das zonas habitadas, no tocante à vida humana e aos interesses da agricultu- ra. varia de espécie a espécie, abrindo às vezes margem à con- trovérsia. Neste particular, não há questão mais debatida do que a dos malefícios ocasionados pelo pardal, em confronto com os serviços que também nos presta. Este pássaro é tido, não sem fun- damento, como o maior flagelo das plantações hortícolas, onde não se limita a devorar as plantazinhas tenras, mas chega ao ponto de destruir as sementeiras, exgravatando o solo com o bico e as pa- tas; mas, por outro lado, para criar os filhotes, faz prodigioso 21-VI-1944 — O. Pinto — Aves do Distrito de Monte Alegre 1 2o consumo de larvas e de pequenos insetos, expurgando assim as lavouras de muitas pragas. Nos Estados Unidos, que é onde mais a fundo se investigou o assunto, chegou-se à conclusão de que, pesados todos os elementos, é o pardal muito mais prejudicial do que benéfico à agricultura. Baldados foram porém todos os meios tentados para extirpá-lo, conseguindo-se, quando muito, restrin- gir-lhe multiplicação demasiada. Com o nosso tico-tico o caso di- fere, sendo as opiniões unânimemente a seu favor, não obstante ser possível responsabilizá-lo ocasionalmente por alguns danos in- fligidos às plantações. No que se refere às aves frugívoras, é íóra de dúvida que às vezes ocasionam reais malefícios aos nossos pomares, perseguin- do com predileção determinados frutos, alguns dos quais, como os figos, goiabas e mamões, não lograriam em certos sítios ama- durecer, intactos, se não fossem devidamente protegidos pelo la- vrador. Com os sanhaços e saíras, acima referidos, concorrem outros pássaros, mais ou menos comuns na zona de Monte Alegre. A cam- bacica ( Coereba flaveola chloropyga (Caban.)), protegida pelas suas exíguas dimensões, aventura-se a frequentar os jardins da própria capital. Como os beija-flores, gosta muito de haurir a se- creção açucarada das flores; mas não poupa também os frutos sa- borosos das jaboticabeiras, videiras e outras árvores frutíferas. Dos sabiás, muito vegetarianos em seu regime alimentar, mas ain- da assim mais úteis que nocivos, ocorrem cm Monte Alegre o sa- biá branco ( Ttirdiis anuuirochalimis Caban.) e o sabiá larangeira {T urdas rufiventris rufiventris Vieil.) . Este último, é, aliás, bas- tante comum em quase todo o estado e, no verão, encontradiço até nos parques da nossa capital. Entre os pássaros de vida livre que mais perto convivem conosco, apontam-se as andorinhas e a curruira ou garriça. A an- dorinha grande (Prugne chalybea domestica (Vieil.)) está repre- sentada na coleção de Monte Alegre por dois exemplares de feve- reiro, ao passo que da pequena existem seis exemplares de mêses vários, donde parece concluir-se ser esta muito mais constante ou numerosa do que a primeira. Stelgidopteryx ruficollis rujicollis (Vieil.) é andorinha campestre, também representada na coleção ■SciELO 10 11 12 13 14 15 cm 124 PAPÉIS AVULSOS Vol. IV — N.° 9 por dois exemplares, colecionados no verão (novembro e janeiro). Tanto as andorinhas, como a curruíra ( Troglodytes nuiscalus mus- ciilns Naum.) contam-se entre os passarinhos mais eminentemente úteis ao homem, graças à quantidade prodigiosa de insetos que de- voram. Das andorinhas, com que efetivamente se assemelham quan- do voam nas alturas, não sabe distinguir devidamente o vulgo os cipsélidas, aves das mais prestadias, por isso que se alimentam ex- clusivamente de insetos, capturados em pleno vôo. Nenhum repre- sentante da família foi colecionado; mas afirma o snr. Lima ver reconhecido duas espécies, das que é frequente ver-se em certas estações do ano nos arrabaldes de São Paulo. A maior deve ter sido provavelmente o taperussú (Streptoprocne zonaris (Shaw)), que vive, como as suas similares, agarrrada à parede áspera e ro- chosa dos saltos e cachoeiras. Bastante comuns, conquanto mais esquivos, por isso que só raramente se acercam das habitações, são os anuns, auxiliares não menos prestantes do homem na luta contra os insetos nocivos. O anurn preto ( Crotophaga ani Linn.) é ordinariamente muito mais frequente do que o branco ( Guirci guira (Gmelin)) ; mas este, certamente de passagem, se aventura a visitar até os grandes cen- tros populosos, onde nunca aparece o seu companheiro de escura plumagem. Cigarras e principalmente gafanhotos formam a base do regime alimentar habitual do anum branco, pelo que é ave me- recedora da maior proteção de nossa parte. Larvas de lepidópte- ros e lagartas de outra espécie entram ainda em larga conta na alimentação dos anuns, como também na de um outro cucúlida, o papa-lagartas ( Coccyzus melacoryphus Vieillot), muito menos comum, mas também representado na coleção de Monte Alegre. Em oposição a estes auxiliares, as lavouras são frequentadas por algumas aves mais ou menos danosas à produção. Desse pon- to de vista, depois do pardal, a ave mais nociva na zona que estu- damos talvez seja o chopim ( Molothrus bonariensis bonariensis (Gmelin)), mais conhecido em certas regiões pela alcunha de papa- arroz, já de si bastante expressiva. Os psdácidas pequenos, tão prejudiciais a certas culturas nas zonas menos desbravadas, pro- vam ser alí de ocorrência rara e desprezível. Na coleção está re- cm SciELO 10 11 12 13 14 15 21-YI-1944 — O. Pinto — Aves do Distrito de Monte Alegre 125 presentado apenas um único membro da família, o menor de to- dos o tuim ( Forpus passerinns Linn.), espécie inocente, que ocor- re em todo Brasil, diferenciada em cinco raças levemente distintas. Nem mesmo os periquitos, de que uma espécie ( Tirica tirica (Gme- I i n ) ) visita anualmente as palmeiras dos jardins e parques da ci- dade de São Paulo, figura na serie em estudo; mas devemos ter como certa a sua ocorrência no distrito em estudo. Muito abundantes nos capinzais e gramados naturais de Mon- te Alegre são os papa-capins {Sporophila ccierulescens caeralescens Vieil.), frequentemente acompanhados pelo bigodinho ( Sporophila lineola (Linn.)) e não menor número de vezes pelo tsiu ( Volaünia jacarina jacarina (Linn.)), todos grandes comedores dos frutos mi- núsculos das plantas onde vivem. Passarinho também bastante comum na zona é ainda o canário ( Sicalis flaveola brasiliensis (Gmelin)) e, depois dele, o pintassilgo ( Spimis magellanicus icté- ricas ( Licht. ) ) , ambos muito procurados como pássaros de viveiro e apartamento. Todavia, de acordo com testemunhos fidedignos, observou-se anos atraz uma visível diminuição na frequência deste último, coincidindo o seu retorno com o crescimento das planta- ções de pinheiros ( Araucaria angustifolia) praticadas em vários pontos, inclusive nos arredores da própria cidade. A este propó- sito, é fato digno, de atenção o grande paralelismo que se observa no Brasil meridional, entre a área de dispersão do pintassilgo e a daquela conífera, cujo domínio geográfico abrangia primitiva- mente uma extensão assaz considerável, contribuindo até para ca- racterizar uma zona florística perfeitamente definida. O joão de barro ( Furnarius rufus bctdius Licht.), de alegre presença em todas as fazendas do inferior, é também na zona pás- saro sedentário, de que vários exemplares foram coligidos, tanto no inverno como no verão. Não foi verificada a ocorrência de nenhuma das nossas gran- des pombas silvestres; mas, segundo informações, não deve ser rara a chamada pomba do ar ( Coluinba rufina sylvestris (Vieil.)), que de suas congêneres é a única verdadeiramente espalhada em São Paulo, üuve-se com frequência, na mata, o canto das juritis, pro- vavelmente da espécie Leptoptila verreauxi ochroptera Pelzeln. São comuns, tanto a rolinha côr de telha ( Columbigallina talpacoti tal- em SciELO 10 11 12 13 14 15 120 PAPÉIS AVULSOS Vol. IV N.° 9 pacoti (Temm.)), como a fogo-apagou ( Scardafella squammcita (Lesson)). Ambas se podem tornar acidentalmente prejudiciais, devorando sementes; mas, as mais das vezes, é relativamente fácil coibir-lhes os abusos. Da multidão de aves pequenas, que pelo regime predominan- temente insetívoro devem considerar-se bons auxiliares do homem dos campos, encontram-se representados na coleção vários exem- plares que convem salientar. Tais são o benteví comum ( Pitangus sulphuratus maximiliani Caban.), o suiriri ( Tyrannus melancho- licus melancholicus (Linn.)), a marid’-é-dia ( Elaenia flavogaster flavogaster (Thunb.)), o sanacocá ou choquinha ( Thamnophilus caerulescens caerulescens (Vieil.)), etc. Os bacuraus, aves estritamente insetívoras e de grande vo- racidade, acham-se representadas na série pela mais ubícua das espécies indígenas ( Nyctidromus albicollis derbyanus Gould), a mesma que à noite é costume vêr-se pousada no leito limpo das estradas e caminhos próximos das matas e capoeiras, onde se oculta durante o dia, silente e imóvel entre as folhas caidas, ou junto a algum tronco, admiravelmente camuflado pela sua pluma- gem mimética. Observou também o snr. Lima outro caprimúlgida de vôo largo, que penso deva ser alguma das espécies do gênero Chordeiles ; é, porém, muito provável a ocorrência ainda de ou- tras espécies, não identificadas. Falta à coleção qualquer representante das aves de rapina, demasiadamente ariscas para que se deixassem surpreender pelo caçador. Foram entretanto observados pelo snr. Lima numerosos representantes do grupo, entre os quais muitas espécies puderam ser devidamente identificadas. Estão neste caso; o caracara (A lil- vago chimachima (Vieil.)) e o carancho ( Polyborus planais (Mil- ier) ), gaviões banais em todas as zonas cultivadas, o quin— quiri (Cerchneis sparverius eidos (Peters)), muito mais ousado que os primeiros, pelo que não teme frequentar também as aglomerações urbanas, onde fazem do pombo doméstico alimento predileto; o gavião carijó ( Rupornis magnirostris niagniplumis ( Bert. ) ) , espé- cie silvestre, comum na orla da mata, sempre à espreita dos roe- dores e passarinhos de que faz larga destruição, equilibrando difi- cilmente os benefícios com os prejuízos que causa. Observou tam- cm SciELO 10 11 12 13 14 15 21-VI-1944 — O. Pinto — Aves cio Distrito de Monte Alegre 127 bém o sr. Lima o soví, ou gavião saúveiro ( Ictinia plúmbea (Gme- lin)), grande devorador das saúvas, por ocasião de cujo vôo nupcial costumava afluir em bandos às fazendas e sítios do interior. Está no mesmo caso Elanus leucurus leucurus ( Vieil.) , que me lembro de ter visto nas imediações do Butantã, na curiosa atitude que lhe valeu no nordeste do Brasil o nome expressivo de gavião pe- neira, ou simplesmente peneira. Por fim, embora o fato me pare- ça duvidoso, afirma o snr. Lima, ter ouvido também o grito ca- racterístico do acauã ( Herpetotheris cachinnans queribundüs Bangs & Penard), gavião serpentívoro, utilíssimo no combate às serpen- tes venenosas e notável pelas sonoras gargalhadas que dá, quan- do surpreendido de inopino pelo caçador, ou simples viandante. Como em toda parte, é comum em Monte Alegre o urubú co- mum ( Coragyps atratus foetens (Licht.) ; o urubú de cabeça ver- melha ( Cathartes aura ruficollis Spix), muito mais campestre e me- nos necrófago em seu regime, concorre com ele no expurgo dos pastos. De entre as corujas foram colecionadas duas espécies, uma estritamente campestre ( Speoiyto cunicularia grallaria (Temm.)) e outra exclusivamente afeiçoada à sombra da mata ( Otus cholibq choliba (Vieil.)). Aquela, vulgarmente conhecida por coruja bura- queira ou caburé do campo, é ave diurna, que se vê frequentemente nos pastos, posada em algum montículo, ordinàriamente ninho de cupim (Térmita), vizinho à toca onde vive e cria os filhotes. Como a generalidade dos membros da família, são iminentemente úteis, a primeira pelos insetos que devora e a última pela caça movida aos roedores daninhos. Ficaria incompleta esta resenha das aves mais comuns si não se mencionassem os beija-flores, de que nada menos de nove es- pécies foram colecionadas. São dos mais comuns o beija-flor gran- de de rabo bifurcado ( Eupetomena macroura macroura (Gmelin)), o de suissas purpurinas ( Colibri serrirostris (Vieil.)), e a pequena Agyrtrina lactea (Lesson). Também não são raros o beija-flor pre- to ( Melanotrochilus fuscus (Vieil.)), o de rabo branco ( Anisoterus pretrei (Del. & Lesson), cuja eventual visita aos nossos jardins e alpendres floridos é por vezes tão mal recebida pelas pessoas su- persiticiosas. cm SciELO 10 11 12 13 14 15 Í2S PAPÉIS AVULSOS Vol. IV — N." 9 V DA RECONSTITUIÇÃO DA FAUNA E DO REPOVOAMENTO DAS MATAS Depois da coberta de vegetação, a primeira condição para a existência de aves e mamíferos silvestres é a água abundante e constantemente renovada das nascentes e dos rios. Pelo que qual- quer tentativa de repovoamento será infrutífera em reservas a que falte esse elemento capital, impossível de conseguir fora dos va- les naturais, a não ser que a abundância das precipitações ga- ranta dele um afluxo permanente, como acontece em toda a ca- deia marítima este-brasileira. O esforço de reconstituição da fauna indígena, complemento natural do reflorestamento que se projeta, devem incidir preferen- temente nestas espécies silvestres de grande valor alimentar. O êxi- to porém de qualquer tentativa neste sentido depende, em pri- meira linha, do modo pelo qual se proceda a reconstituição do re- vestimento vegetal, em que se deve ter em mira, tanto quanto pos- sível, introduzir e multiplicar as espécies peculiares à flora pri- mitiva, respeitando-lhes a existência promíscua em que natural- mente existiriam, sem exceção mesmo das que a primeira vista nos pareçam indiferentes ou nocivas. Tão misteriosas e intrincadas são as relações garantidoraâ da harmonia entre os seres vivos, que as mais insignificantes altera- ções no meio podem refletir em prejuízo da existência destes úl- timos. fsso se refere ao caso em que se tenha em mira verdadei- ramente a restauração da fauna e flora nativas; porque, no tocan- te à primeira, é sempre possível, em condições mais ou menos ar- tificiais, experimentar a multiplicação preferencial de certas espé- cies, submetendo-as a um processo gradual de domesticação. To- davia, muito pouco ou quase nada tem o homem civilizado con- seguido neste terreno. As espécies domésticas, no sentido rigoroso do termo, ingressaram no convívio do homem em épocas muito re- motas, quando o nomadismo das primitivas tribus evoluira gra- dualmente para a vida sedentária das tabas e das aldeias, conser- vando porém ainda intimidade estreita com a natureza, de que em tudo diretamente dependia. No que toca à generalidade das espécies mais notáveis da cm SciELO 10 11 12 13 14 15 21-VI-1944 — O. Pinto • — Aves do Distrito dc Monte Alegre 129 fauna alada indígena, só há uni meio de presservá-la da extinção completa e definitiva. É a manutenção de grandes reservas de mata natural, em que possam se multiplicar a vontade, livres dos ca- çadores e de outros inimigos seus, satélites do homem. Dou a seguir a lista sistemática das aves colecionadas pelo snr. Lima, nas três excursões que fez a Monte Alegre. V I DIÁRIO E NOTAS DA EXCURSÃO REALIZADA PELO AUTOR A MONTE ALEGRE EM MAIO DE 1943 Saí de São Paulo no dia 9, domingo, às 13 horas, pela trem de ferro. Na véspera, já o snr. José de Lima havia seguido para Monte Alegre, em caminhão automóvel pertencente ao Departamen- to de Zoologia. Ao deixar a capital toldava o firmamento densa cortina de nuvens, como é frequente acontecer durante o inverno em toda re- gião sujeita ao clima da serra marítima; depois de Judiai, o céu começou a clarear, permitindo dentro de pouco que o sol apare- cesse francamente, para júbilo do viajante, ávido de admirar a paisagem. Mais adiante, porém, não muito longe de Campinas, co- meçaram novamente as nuvens a adensar-se cada vez mais, assim continuando até Monte Alegre, onde cheguei às 18 e meia horas, hospedando-me no único hotel. A noite operou-se de novo brusca mudança no estado atmos- férico; fortes rajadas do sui entraram a soprar ininterruptamente, limpando-se de todo o céu c começando a fazer intenso frio. O dia 10 amanheceu muito claro. Graças à pouca umidade ambiente, a temperatura nada tinha de desagradável, isso a des- peito da sombra projetada pelas montanhas, que não permitem aos raios do sol nascente banhar diretamente a localidade, situada no vale, à margem do rio Camanducaia. Breve nos puzemos a cam- po com as nossas espingardas, rumando para a Fazenda Ponte Alta, de propriedade do snr. Sebastião Siqueira, onde, na tomba- da da montanha, existe boa reserva de mata. A caminho, já perto da sede, um grupo de machadeiros se ocupava em derrubar pu- jante cedro, dos poucos que ainda se vêm, isolados, no espaço limpo dos pastos. Aqui a mata parece resto da floresta primiti- cm SciELO 10 11 12 13 14 15 130 PAPÉIS AVULSOS Vol. IV — N. u 9 va, mas grandemente despojada das arvores maiores. Subindo a íngreme escarpa por entre o cafezal que sôbre ela se extende, en- tramos na mata pela sua extremidade mais alta. Aí, o silêncio seria completo si o vento não continuasse a soprar forte, agitando a folhagem, ou fazendo ranger, pelo atrito, algum tronco de en- contro ao vizinho. Depois de paciente expectativa, alguns impru- dentes pipilos nos advertiram da presença de um pássaro, que o snr. Lima não tardou a descobrir por entre a sombra da galharia, abatendo-o para a coleção. Tratava-se de um Sittasomus, da espé- cie que Temminck batizara com o nome de sylviellus. É pássaro que nada tem de raro nas nossas matas; mas, ainda assim, exultei com o achado, pois além de não ter sido colecionado nas excur- sões anteriores, era o primeiro representante da família dos den- drocoláptidas conseguido no distrito. Mais tarde, descendo sempre pelo interior da mata, novo canto de pássaro perto de nós dava a Lima a oportunidade de atirar num bonito exemplar de Schiffornis virescens (Lafresn.), pássaro também novo para as coleções de Monte Alegre. A plumagem inteiramente verde em ambos os sexos, fá-lo difícil de descobrir por entre a folhagem. No laboratório exa- minei-lhe o conteúdo do estomago, encontrando, além de volumo- sa lagarta de lepidóptero, abundantes resíduos vegetais e, quase intacta, uma frutinha maior do que uma hervilha grande. Chegou depois a minha vez de atirar noutro passarinho desgarrado; era uma fêmea de Thamnophilus caerulescens Vieillot, espécie das mais comuns nos cerrados e nas matas de nosso estado, onde o conhe- cem por nomes vários, como “choquinha”, “sanacocá”, etc. Dei- xa-se atrair muito fácilmente, imitando-se com os lábios de en- contro à mão o chiado de um pássaro ferido, ou aflito. É este, estratagema de que se servem todos os colecionadores, para cha- mar perto de sí, ou arrancar ao mutismo em que se escondem, as espécies mais variadas. Vezes não raras, em lugar dos passari- nhos, acode a semelhante apêlo algum gavião, que se precipita pressuroso e alvoroçado, na ânsia de descobrir aquilo que supõe uma presa ao alcance fácil de suas garras. Nada mais conseguimos depois daí. Uma ou outra nota ou- via-se à distância e entre largos intervalos; mas nenhum outro exemplar adicional, ou simples observação digna de nota. Foi também infrutífera a excursão que à tarde eu e o meu cm SciELO 10 11 12 13 14 15 21-VI-1944 — O. Tinto — Aves do Distrito de Monte Alegre 131 companheiro fizemos na baixada adjacente à pequena corredeira do Camanducaia, na esperança de avistarmos algum habitante ri- beirinho, saracura ou frango d’água. Ouvimos entretanto, ao cair do crepúsculo, cantarem no brejo alguns, por entre o labirinto das tabôas ( Typha sp.) e os tufos de sapé ( Imperata brasiliensis Trin.). No final, a familia dos rálidas, a que pertencem, não forneceu ne-, nhum representante às coleções de Monte Alegre. O vento, que soprava intenso todo o dia, amainou agora à tarde, permitindo re- sultados talvez melhores para o dia seguinte. Na manhã de 11, com o céu inteiramente limpo e reinando temperatura ainda mais baixa do que no dia anterior, seguimos para a Fazenda Nossa Senhora da Encarnação, de que é proprie- tário o snr. Sebastião José de Carvalho e Castro, um dos mais antigos membros da laboriosa colônia lusa domiciliada no distrito. Fica ela do outro lado do Camanducaia, muito perto porém do po- voado. Sua pequena reserva de mata começa pouco acima do ce- mitério e é muito fácil de atingir, graças ao caminho carroçável, que a princípio lhe acompanha a borda, contornando o morro, e depois penetra-ITie o interior, abrindo uma longa clareira. Ainda na estrada, pouco antes do cemitério, deram alerta alguns casais de chanchãs ( Colaptes campestris campestris ( Vieillot) ) , oferecen- do a Lima oportunidade de obter para a coleção o primeiro exem- plar da espécie. Infelizmente, tinha a plumagem no estado mais las- timável; além do grande desgaste, inteiramente untada com a se- creção pegajosa do capim gordura, a que aderira espessa camada de carvão. E muito difícil conseguirem-se exemplares perfeitos deste pica-pau campestre onde as queimadas tenham carbonizado a espessa cortiça dos troncos que costumam visitar. Os raios do sol atingem em cheio este lado do morro, pe- netrando francamente nas abertas do caminho e fazendo cintilar as grandes teias da Nephila clavipes (Linnaeus), que, às dezenas, íamos encontrando durante todo o trajeto, e não raro nos detinham o passo. Como hoje não temos o vento da véspera, ouvem-se mui- to mais vozes de pássaros. Numa arvore pejada de frutinhos que náo pude identificar, reunem-se pássaros miúdos, das espécies fru- gívoras mais vulgares. Não é grande o número de indivíduos e menor ainda a sua variedade; predominam o sanhaço comum ( Thraupis sayaca sayaca (Linn.)) e as saíras ( Tangara cayana 5 6 SciELO 12 132 PAPÉIS AVULSOS Vol. IV — N.° 9 chloroptera (Vieillot)), estas talvez mais numerosas do que os pri- meiros. Também apareceram diversos passarinhos da espécie Hy- lophilus poicilotis poicilotis (Temminck), já representada nas co- leções anteriores, em numerosos exemplares. Não conseguí matar um lindo macho adulto de tangará dansador ( Chiroxiphia caudata (Shavv & Nodder) ) ; pude todavia, com facilidade, abater um exem- plar com a aparência de macho jovem, mas que o exame anatô- mico provou ser uma fêmea, de certo muito velha. A meia subida, fomos surpreendidos com o muito conhecido concerto dos saás ( Callicebus nigrifrons (Spix)), que nos pareciam nada distantes. O snr. Lima saiu logo à sua perseguição, com todas as cautelas possíveis; mas foi imediatamente pressentido pelos espertos ma- cacos, que silenciaram, sem ao menos permitir que lhes avistás- semos o pequeno bando, ou lhe ouvíssemos sequer o ruído da fuga. A espécie era outrora comum em todas as matas e serrados do interior. Passarinho dos que aqui se avistam com grande fre- quência é Basileuterus hypoleucus Bonaparte. As numerosas espé- cies do gênero a que se filia divergem às vezes bastante, não só quanto à voz, como no habitat. Basileuterus flaveolus (Baird), di- to “canarinho do mato”, cujo canto pouco difere do da espécie ci- tada, é amarelo como o canário e não existe em São Paulo senão nas matas quentes do interior, onde aliás é comum. Basileuterus leucoblepharus (Vieillot), pelo contrário, é peculiar ao clima ú- mido da serra marítima e adjacências; ele se notabiliza pela voz forte e melodiosíssima, semelhante a um longo harpejo executado por mão de mestre. Pela mata, atingimos o alto do morro. Daí, olhando para o nascente, descortinavamos esplêndido cenário de montanhas, cujo ponto culminante, alto de mais de 1.300 metros, é constituído pelo pico da Serra Negra. Também à nossa frente, em- plano mais próximo, viam-se os elevados morros da Fazenda Santa Izabel, abrigados ainda àquela hora dos raios diretos do sol e em grande parte cobertos de bela mata, que logo decidí co- nhecer na primeira oportunidade. Ficava de permeio o vale estreito do rio Camanducaia; seu trajeto é seguido pela estrada de fer- ro, evitados alguns meandros, em que seria desnecessário e one- roso acompanhá-lo. Tínhamos a cidade à nossa esquerda, no pon- to em que o rio, fazendo uma grande curva, recebe as águas do Paiol de Telha. Contrastando com a côr mais desmaiada das ma- SciELO 21-YI-1944 — O. Pinto • — Aves do Distrito de Monte Alegre 133 tas nativas, aparece, num canto do quadro, o vasto pinheiral plan- tado pelo snr. Sebastião de Carvalho, na grande fazenda de que é proprietário. Menos elevado do que aquele em que nos achava- mos, e separado apenas por nesga estreita de vale, resplendia ao sol a arredondada e núa superfície do morro onde a fé católica dos moradores de Monte Alegre fizeram erguer o monumento ao Cristo, à semelhança do que existe no pico do Corcovado. Da eminência em que estavamos, podíamos contemplar o vôo magnífico do urubu caçador ( Cathartes aura (Linnaeus)), que sem curvar sequer as grandes asas, dirige-se para onde lhe apraz, uti- lizando as correntes mais leves do vento. Escapam à percepção os movimentos de asa e cauda com que certamente se põem no melhor sentido de aproveitar a aragem, que se incumbe de irn- pelí-los horizontal ou verticalmente, quando erram por montes e vales, esquadrinhando os campos, em busca de alimento escasso. E’ então fácil distinguí-lo do urubú comum, de cabeça preta ( Co - ragyps atratus foetens (Licht.) ) , que é muito mais exclusivo no seu regime necrófago e, por isso mesmo, o único a ser visto nas cidades, à espreita, enfileirados nos muros dos quintais, ou descansando em grupo nas cumieiras dos telhados. No urubú de cabeça vermelha a asa tem perfil mais regular, talhado da base à ponta em curva harmoniosa, ao passo que no seu ignóbil com- panheiro as penas extremas daquele órgão divergem sensivelmen- te, destacando-se umas das outras, quase como os dedos da mão entreaberta. Mais apreciável é ainda a diferença quando se atenta na distribuição do claro e escuro no lado inferior da asa, que é, aliás, o único normalmente visível durante o vôo. No urubú ca- çador o branco é muito mais puro e ocupa larga faixa na me- tade posterior da asa, ao passo que no urubú comum só as ex- tremidades são mais claras, e, ainda assim, bem pouco destaca- das do preto geral. Este fato, cuja observação aliás salta aos olhos do observador menos atento da natureza, feriu a atenção de H. Krieg, por ocasião de sua última viagem ao Chaco paraguaio. Os desenhos que publicou a respeito, dele não dão todavia idéia mui- to nítida. E’ sempre mais interessante e agradável regressar por caminho ( 2 ) Cf. Zeitscli. fur die gesam. Naturw., Heft S, p. 309 (1937). cm SciELO 10 11 12 13 14 15 131 PAPÉIS AVULSOS Vol. IV — N.° 9 diferente; a probabilidade aumenta de novos achados e o espírito se mantem vivace para novas observações. Por isso, para alcan- çar o vale, preferimos a encosta desnuda da colina. A empresa não seria nada fácil, visto a grande declividade e a ausência de pontos de apoio naturais, se não fosse perlongá-la, do tope até a base, uma cêrca de arame, a cujos sólidos moirões nos agarramos, pou- pando-nos a tropeços e quedas inevitáveis. Pois que, além de tu- do, espesso tapete de capim gordura ( Mcllinis minutiflora Beaiiv.), reveste toda a lombada exposta do morro, fazendo logo lustrosas e escorregadias as solas dos calçados. Chegando à falda do oi- teiro despertou-nos a atenção a algazarra dos viras ( Gnoriniopsar chopi chopi (Vieillot)), reforçada a cada momento pelo canto enér- gico de vários casais de joão de barro ( Furnarius rufus badias (Licht.)). Uns e outros procuravam abrigo na bela e densa copa das batalhas ( Cryptocarya mandiocanna Meiss.), plantas de que os criadores alí especialmente se utilizam para dar sombra ao gado, nas horas calmosas de sol intenso. ( 3 ) Ao apropriado apêlo nosso, acudiu um bando dos primeiros; tal lhes era porém o pânico, que ficou infrutífero o esforço do snr. Lima para conseguir sequer um exemplar da espécie, não representada ainda nas coleções de Mon- te Alegre. A 12, quarta-feira, tivemos um amanhecer, si possível, ainda mais belo do que nos dias anteriores; fazia intenso frio e nenhum floco de nuvem, por mais tênue, toldava a pureza do céu. Diri- gimo-nos para a Fazenda Santa Izabel, aquela cuja mataria, ex- tendida em larga superfície de elevada montanha, haviamos avis- tado na véspera, do alto da Fazenda da Encarnação, que demora em ponto fronteiriço, no lado oposto do rio. Alternando com a mata, ficam os cafezais, hoje na zona lavoura decadente, não obs- tante os viçosos talhões que ainda existem em franca produção. A meia encosta, passamos pela sede da Fazenda Boa Vista, que também guarda uns restos de mata ou capoeira, onde apenas con- seguimos caçar dous exemplares da já referida espécie de Basi- leuterus, a única que parece existir na região explorada. Bastante penosa é a subida aos altos cabeços da Fazenda ( 3 ) Cf. M. Ktihlniann, Observ. ger. e Contrib. ao estudo da Flora e Fitofisionomia do Brasil (Instituto de Botânica de São Paulo), V, 1943, pág. 8. cm SciELO 10 11 12 13 14 15 21-VT-1944 • — O. Pinto — Aves do Distrito de Monte Alegre 135 Santa Izabel, os quais, a cavaleiro de todos os morros mais pró- ximos, dominam soberbo panorama. Para atingirmos a mata em seu ponto mais elevado, tivemos de romper extenso trecho de ca- pim gordura. Esta gramínea, que nas pastagens frequentadas pelo gado não se eleva geralmente acima do solo mais do que alguns palmos, forma aqui capinzal extremamente viçoso e denso. Só a muito custo conseguimos rompê-lo, quase escondidos pela pega- josa e odorante folhagem, alta de um metro ou mais. A mata é frondosa e encerra ainda árvores de avantajado porte; dos tron- cos maiores pende quase sempre denso cordame de cipós. Não obstante, o subosque é ralo, os espinhos poucos, o que permite passagem geralmente fácil. Lembrou-se logo Lima de provocar os guassús ( Crypturellus obsoletos obsoletos (Temm.)), com o pio que tinha em mãos. Não tardou que replicassem um ou dous da- queles tinâmidas, a distância bem pequena de nós. Deixaram-se porém ficar prudentemente onde estavam, silenciando ao cabo de alguns instantes, certamente por se terem apercebido a tempo do logro fatal em que iriam cair. A despeito de tudo, a mata não me parece menos pobre de vida animal do que as visitadas nos dias precedentes. Impressionava principalmente a pobreza extrema de íormicariidas e a ausência absoluta de dendrocoláptidas, famílias que tão largo contingente fornecem à avifauna silvestre indígena. Contudo, sem falar na choquinha comum ( Thamnophilus caer. cae- rulescens Vieillot), mostra-se bastante encontradiço o bonito Hy- poedaleus guttatus (Vieillot), de que matamos, quase ao mesmo tempo, dous exemplares, ambos do sexo feminino. E’ pássaro es- trffamente insetívoro; no estômago dos espécimes colecionados en- contrei sobretudo restos de coleópteros. Antes de deixar a mata erma, conseguimos ainda dois machos belamente plumauos de Sal- tator similis similis Lafresn. & d’Orbigny, o “tico-tico guloso” dos caboclos da Serra. Na quinta-feira, 13, nossa excursão foi às matas da Fa- zenda Bom Jesus (de propriedade do snr. Ovidio Truzzi), que fica muito próxima à cidade, à direita do ribeirão Monte Alegre, con- fluente do Paiol de Telha. Suas matas começam' quase ao nível do vale e ocupam extensa lombada de montanha, alta de mais de 1000 metros acima do nível do mar. Dão a impressão de serem umas das mais bem conservadas e pujantes do distrito, concor- cm SciELO 10 11 12 13 14 15 i:jg PAPÉIS AVULSOS Vol. IV — N.* 9 rendo certaniente para isso a sua situação favorável junto a ca- beceiras e córregos, fatores precípuos do elevado grau de umi- dade ambiente. Às oito horas da manhã, havia visível animação entre a passarada miúda que encontravamos nas árvores à margem do caminho. Eram todos formas comuns, com predominância do tantas vezes citado Basiletiterus hypoleiicus. Despertou-me a aten- ção uma voz de pássaro, “tm-quim”, “tin-quim”. . ., aqui nova, mas familiar talvez aos fazendeiros do interior, onde Synallaxis ruficapilla Vieillot existe quase por toda parte. A espécie não exis- te, que eu saiba, na região da capital paulista, em cujos subúrbios se ouve , todavia, com grande frequência, o canto da sua próxima parenta, Synallaxis spixi Sclater. Esta existe também em Monte Alegre e é ordinariamente conhecida pela alcunha onomatopaica de joão-tenenem. Ambas devem- ter-se por eminentemente úteis, insetívoras que são, como todas as congêneres. Só pelo canto, so- noro brado de duas notas, que é aliás inconfundível, pude noti- ficar a presença de uma alma de gato ( Piaya cayana macroura Gambel), em regra o mais comum dos nossos cucúlidas silvestres. Vê-se que em Monte Alegre já se tornam tão escassos que não foi possível colecioná-lo em nenhuma das excursões. O saci ( Ta- pera naevia chachi (Vieillot)), que é do campo, também não foi colecionado, nem visto. Procurando imitar-lhe o canto, a que nun- ca deixam de responder, certifiquei-me também de que do distrito em estudo devem ter desaparecido inteiramente os surucuás ( Tro - gonidae), ornamento inexcedível das nossas florestas nativas. Nas vizinhanças do cafezal, ví abundância de tico-ticos ( Zonotrichia capensis subtorquata Swainson), entre os quais me apressei em obter um exemplar, como lembrança e documento. É suposição que êste passarinho, tão característico da ornis de nosso estado, está em Monte Alegre rapidamente escasseando, sob a influência do pardal, que já existe no distrito, desde algum tempo. O fato poderá ser verdadeiro no centro povoado e nas suas imediatas proximidades; não obstante porém, como pude verificar, a espécie é ainda muito espalhada nos sítios e chácaras da redondesa. ( 4 ) ( 4 ) As causas Elaenia flavogaster flavogaster (Thunberg) — Guracava, Ma- rid’-é-dia. Monte Alegre: 3 i J, Julho 31 (1942) e Janeiro 16 (1943); 3 $ 9, Agosto 1 (1942) e Janeiro 15 (1943). Fazenda Sta. Maria: 2 9 9, Novembro 25 e 26 (1942). Estação Experimental: 4 3 3, Janeiro 18, Fevereiro 6, 8 e 18 (1943). Fazenda N. S. da Encarnação: 3, Janeiro 20 (1943). Chácara Recreio: 3, Janeiro 27 (1943). Comptostoma obsoletum obsoletum (Temminck). Estação Experimental: 2 3 3, Janeiro 28 e 30 (1943). Fazenda N. S. da Encarnação: 3, Maio 11 (1943). Fazenda Bom Jesus: 3, Maio 13 (1943). Phyllomyias fasciatus brevirostris (Spix). Monte Alegre: 3, Julho 24 (1942); 9, Julho 21 (1942). Família PIPRIDAE Chiroxiphia caudata (Shaw) — Tangará, Dansador. Fazenda Sta. Maria: 2 9 9, Novembro 28 (1942). Fazenda N. S. da Encarnação: 9, Maio 11 (1943). Fazenda Bom Jesus: 9, Maio 13 (1943). Schiffornis vircscens (Lafresnaye) . Fazenda Ponte Alta: 3, Maio 10 (1943). Fazenda N. S. da Encarnação: 3, Janeiro 21 (1943). Sítio Boa Vista: 3, Fevereiro 13 (1943). Família TROGLODYTIDAE Troglodytes musciilus musculus Naumann — Curruira. Monte Alegre: 2 3 3, Julho 22 e 26 (1942); 9, Julho 22 (1942).' Chácara Bom Jesus: 3, Janeiro 21 (1943). Estação Experimental: 2 3 3, Janeiro 30 e Fevereiro 7 (1943). Família MIMIDAE Mimas saturninas frater Hellmayr — Sabiá-poca. Monte Alegre: 3, Janeiro 15 (1943). Chácara Bom Jesus: 9, Janeiro 23 (1943). Sítio Boa Vista: 9, Fevereiro 13 (1943). Donacobius atricapillus atricapillus (Linn.). Chácara Recreio: $ e 9 , 26 Janeiro (1943). 21-VI-1944 • — • O. Pinto — Aves do Distrito de Monte Alegre 145 Família TURDIDAE Turdiis amanroclialiniis Cabanis — Sabiá branco. Monte Alegre: 3 í í, Julho 23, 25 e 28 (1942); 9, Julho 28 (1942). Turdus rnfiventris rufiventris Vieillot — Sabiá laranjeira. Monte Alegre: 9, Janeiro 16 (1943). Estação Experimental: s, Fevereiro 11 (1943). Platycichla flavipes (Vieillot). Fazenda Bom Jesus: 2 } í e 2 9 9, Julho 28 (1942). Família HIRUNDINIDAE Prognc chalybea domestica (Vieillot) — Andorinha comum. Estação Experimental: 2 $ s, Fevereiro 12 (1943). Sítio Boa Vista: 9, Fevereiro 12 (1943). Stelgidopteryx mficollis nificollis (Vieillot). Fazenda Sta. Maria: â, Novembro 26 (1942). Chácara Bom Jesus: S, Janeiro 27 (1943). Pygochelidon cyanoleuca cyanoleuca (Vieillot). Monte Alegre: $, Julho 31 (1942); 2 9 9, Julho 29 (1942) e Janeiro 16 (1943). Chácara Bom Jesus: $, Janeiro 23 (1943). Estação Experimental: <5, Fevereiro 7 (1943); 9, Janeiro 30 (1943). Família VIREONIDAE Vireo chivi chivi (Vieillot) — Juruviara. Fazenda Sta. Maria: 2 s S, Dezembro 2 (1942). Estação Experimental: 3 9 9, Janeiro 18 c 30, Fevereiro 6 (1943). Fazenda Bom Jesus: 9, Janeiro 19 (1943). Fazenda N. S. Encarnação: 4 í i, Janeiro 20 e Fevereiro 16 (1943); 3 9 9, Janeiro 20 e 21, Fevereiro 16 (1943). Monte Alegre: $, Janeiro 28 (1943). Sítio Boa Vista: s, Fevereiro 13 (1943). Hylophilns poicilotis poicilotis Temminck. Monte Alegre: 9, Julho 27 (1942). Chácara Bom Jesus: 9?, Janeiro 23 (1943). Estação Experimental: S, Janeiro 30 (1943). Sítio Boa Vista: 3 $ $, Fevereiro 13 (1943). Fazenda N. S. da Encarnação: 9, Maio 13 (1943). Fazenda Bom Jesus: 9, Maio 13 (1943). cm SciELO 10 11 12 13 14 15 146 PAPÉIS AVULSOS Vol. IV — N." 9 Família MOTAC1LL1DAE Anthus lutesccns lutescens Pucheran Fazenda Bom Jesus: 2, Maio 10 (1943). Família CYCLARHIDAE Cyclarhis gujanensis ochrocephala Tschudi. Fazenda Sta. Izabel: 2, Fevereiro 23 (1943). Fazenda Bom Jesus: 3, Maio 13 (1943). Família COEREB1DAE Dacnis cciyana paragaayensis Chubb — Saí. Fazenda Bom Jesus: 5 3 3, Julho 28 e 29 (1942); 2, Ju- lho 28 (1942); 3, Maio 13 (1943). Fazenda N. S. da Encarnação: 3 3 3, Julho 30 e 31 (1942) e Janeiro 20 (1943); sexo?, Janeiro 20 (1943); 3 2 2, Julho 25 e 30 (1942) e Janeiro 20 (1943). Monte Alegre: 2 5 3, Julho 25 (1942) e Janeiro 28 (1943). Fazenda Sta. Maria: 3, Dezembro 2 (1942). Coercba flaveola chloropyga (Cabanis) — Mariquita. Monte Alegre: 2, Julho 24 (1942). Fazenda Sta. Izabel: 3, Julho 27 (1942). Chácara do Capitão: 3, Janeiro 22 (1943). Chácara Bom Jesus: 3, Janeiro 23 (1943). Chácara Recreio: 2, Janeiro 24 (1943). Fazenda N. S. da Encarnação: 3, Fevereiro 11 (1943). Família COMPSOT HL YPIDAE Geothlypis aequinoctialis velata (Vieillot) — Pia-cobra. Fonte Bom Jesus: 2, Agosto 1 (1942). Fazenda N. S. da Encarnação: 2, Agosto 1 (1942). Estação Experimental: 3, Janeiro 30 (1943). Basileiitenis liypolcuciis Bonaearte. Fazenda N. S. da Encarnação: 2, Janeiro 21 (1943). Sítio Boa Vista: 2, Fevereiro 15 (1943). Fazenda Sta. Izabel: 3, Fevereiro 23 (1943); 9, Maio 12 (1943). ’ Fazenda Bom Jesus: 2, Maio 13 (1943). Família TERSINIDAE Tersina viridis viridis (Illiger). Fazenda Sta. Maria: 2, Novembro 25 (1942). 21-VI-1944 ■ — O. Pjnto — Aves do Distrito de Monte Alegre 147 Família THRAUPIDAE Tanagra musica au reata Vieillot. Fazenda Sta. Izabel: 3, Julho 27 (1942). Tanagra chlorotica violaceicotlis Hellmayr Monte Alegre: 9, Julho 22 (1942). Tangara cyanoventris Vieillot — Saíra Fazenda Sta. Izabel: 3 juv., Novembro 23 (1942). Tangara cayana chloroptera (Vieillot) — Saíra. Monte Alegre: 5 J í, Julho 22, 25, 26 e 30 (1942). Fazenda Bom Jesus: 3, Julho 28 (1942); 3 ? ?, Julho 28 (1942). Fazenda Ponte Alta: 9, Agosto 2 (1942). Fazenda Sta. Maria: 3, Dezembro 2 (1942). Fazenda N. S. da Encarnação: 3 juv., Janeiro 21 (1943); 3, Fevereiro 11 (1943); 2 9 9, Janeiro 21 (1943). Estação Experimental: 2 3 $ , Janeiro 29 e Fevereiro 2 (1943) Thraupis sayaca sayaca (Linnaeus) — Sanhaçú, Sanhaço de mamoeiro. Monte Alegre: 9 S 3, Julho 21, 22, 23 e 25, Novembro 26 (1942); 6 9 9, Julho 21, 22 e 23 (1942). Fazenda Sta. Maria: 2 3 3, Novembro 26 e Dezembro 2 (1942). Fazenda Bom Jesus: 3, Janeiro 19 (1943). Fazenda N. S. Encarnação: 2 3 3, Janeiro 20 e Maio 11 (1943). Chácara Bom Jesus: 1 í e I 9, Janeiro 23 (1943). Tachyphonus coronatus (Vieillot) — Gurundí, Tié preto. Monte Alegre: 3, Julho 23 (1942). Fazenda Bom Jesus: 9, Julho 30 (1942). Estação Experimental: 3 juv., Novembro 11 (1942). Trichothraupis melanops (Vieillot). Fazenda Bom Jesus: 3 } J, Janeiro 19 c Maio 13 (1943). Sítio Boa Vista: 3 ?, Fevereiro 15 (1943). Thlypopsis sórdida sórdida (Lafresnaye & i/Orbigny). Monte Alegre: 3, Julho 25 (1942). Fazenda Bom Jesus: 1 3 e 1 9, Julho 28 (1942). Estação Experimental: 3, Fevereiro 8 (1943); 9, Feverei- ro 19 (1943). Família ICTERIDAE Molfítlinis bonariensis bonariensis (Gmelin) Chácara Recreio: 3, Janeiro 24 (1943). Monte Alegre: 3, Janeiro 27 (1943). Chopim. cm SciELO 10 11 12 13 14 15 148 PAPÉIS AVULSOS Vot. IV — N* 9 Chácara Bom Jesus: 3, Janeiro 21 (1943); 2 9 9, Janeiro 21 e 23 (1943). Estação Experimental: 3 juv., Janeiro 28 (1943); 9, Janei- ro 30 (1943). Família PLOCEIDAE Passer domesücus domesticus (Linnaeus) — Pardal. Monte Alegre: 9, Julho 22 (1942). Família FRINGILLIDAE Saltator similis similis Lafresnaye & d’Orbigny — Tico-tico gu- loso. Fazenda N. S. da Encarnação: 3, Fevereiro 15 (1943). Estação Experimental: 9, Fevereiro 18 (1943). Fazenda Santa Izabel: 2 s 3, Maio 12 (1943). Cyanocompsa cycmea sterea Oberholser — Azulão. Fazenda Bom Jesus: 3, Janeiro 19 (1943). Tiaris fuliginosa fuliginosa (Wied). Chácara Recreio: 3, Janeiro 24 (1943). Sporophila caerulescens caeruicsccns (Vieillot) — Papa-capim. Fonte Alegre: 7 3 3, Julho 21 e 30 (1942) e Janeiro 16 (1943); 3 9 9, Janeiro 16 (1943). Fazenda N. S. da Encarnação: 3, Julho 31 (1942); 9, Ja- neiro 21 (1943). Fazenda Sta. Maria: 2 3 3, Novembro 25 e 26 (1942). Chácara Bom Jesus: 11 3 3, Janeiro 19, 21, 23 e 27 (1943); 2 9 9, Janeiro 23 e 27 (1943). Estação Experimental: 4 3 3, Janeiro 28 e 30, Fevereiro 12 (1943); 5 9 9, Janeiro 28, 29 e 30, Fevereiro 6 (1943). Chácara do Capitão: 4 3 3 e 1 9, Janeiro 22 (1943). Chácara Recreio: 3 3 3, Janeiro 24 (1943); 9, Janeiro 1 (1943). Sítio Boa Vista: 9, Fevereiro 13 (1943). Sporophila lineola (Linnaeus) — Bigodinho. Chácara do Capitão: 1 3 e 1 9, Janeiro 22 (1943). Chácara Recreio: 3, Janeiro 26 (1943); 2 9 9, Janeiro 24 e 27 (1943). Chácara Bom Jesus: 6 3 3, Janeiro 27 e Fevereiro 24 (1943); 9 , Janeiro 27 (1943). Estação Experimental: 3, Janeiro 30 (1943). Volatinia jacarina jacarina (Linnaeus) — Tsiu. Fazenda N. S. da Encarnação: 3, Julho 31 (1942). Chácara do Capitão: 4 3 3, Janeiro 22 e 25 (1943). 21-VI-1944 — ' O. Pinto — Aves do Distrito clc Monte Alegre 149 Chácara Recreio: 2 3 3, Janeiro 27 (1943); 3 2 2, Janeiro 24, 26 e 27 (1943). Monte Alegre: 3 (1943). Chácara Bom Jesus: 3, Janeiro 27 (1943). Estação Experimental: 3, Janeiro 28 (1943). Fazenda Sta. Izabel: 2, Janeiro 25 (1943). Spinus magellanicus ictericus (Lichtenstein) — Pintassilgo. Estacão Experimental: 3 j J, Janeiro 18 e Fevereiro 24 (1943). Chácara Recreio: 3, Janeiro 24 (1943). Si cal is flaveola brasiliensis (Gmelin) — Canário. Monte Alegre: 2 3 3, Julho 22 (1942) e Janeiro 16 (1943); $ , Janeiro 16 (1943). Fazenda N. S. da Encarnação: 2 $ $, Julho 30 (1942). Fonte Bom Jesus: 3, Agosto 1 (1942). Chácara do Capitão: 3, Janeiro 22 (1943); 2, Janeiro 25 (1943). Sítio Boa Vista: 2, Fevereiro 13 (1943). Estação Experimental: 2, Janeiro 30 (1943). Haplospiza unicolor Cabanis Chácara Recreio: 2, Janeiro 24 (1943). Sítio Boa Vista: 3, Fevereiro 13 (1943). Coryphospingits cucullatus rubcscens (Swainson) — Tico-tico rei. Monte Alegre: 3, Julho 23 (1942). Fazenda Ponte Alta: 3, Agosto 3 (1942). Chácara Bom Jesus: 2 3 3, Janeiro 19 e 23 (1943); 2, Ja- neiro 23 ( 1943). Chácara Recreio: 2 2 2, Janeiro 24 (1943). Estação Experimental: 3, Fevereiro 12 (1943). Zonotrichia capensis siibtorquata Swainson — Tico-tico. Monte Alegre: 4 3 3, Julho 21 e 22 (1942); 2, Julho 21 (1942).' Fazenda Sta. AAaria: 3, Dezembro 2 (1942). Fazenda Bom Jesus: 3, Maio 13 (1943). Donacospizn albifrons (Vieiu.ot). Aáonte Alegre: 1 3 c I 2, Julho 25 (1942). cm SciELO 10 11 12 13 14 15 ,SciELO, Vol. IV, N.° 10 — pp. 151-16S 21-VI-1944 PAPÉIS AVULSOS DO DEPARTAMENTO DE ZOOLOGIA SECRETARIA DA AGRICULTURA — S. PAULO - BRASIL ARACNÍDEOS DE MONTE ALEGRE POR B. M. Soares INTRODUÇÃO A localidade de Monte Alegre está situada no município de Amparo, Estado de São Paulo. O governo do Estado pretende fun- dar aí uma estação experimental, motivo por que está cuidando do levantamento zoogeográfico da região. Trato, na presente nota, dos aracnídeos aí coligidos em 1942, dando a lista das espécies en- contradas e descrevendo, a seguir, as formas novas. Quanto às. aranhas, adotei a classificação de Petrunkevitch, dada no volume 33 de “Transactions of the Connecticut Academy of Arts and Sciences, New Haven, Connecticut, 1940”, p. 139. Os opiliões se mostraram, na época da coleta, relativamentc raros. É mister que se façam novas explorações na região, para a captura dêstes interessantes aracnídeos. São absolutamente ino- fensivos. Entre os escorpiões, sómente uma espécie foi encontrada, aliás a mais ocorrente no Estado de São Paulo, e quase que a única res- ponsável pelos acidentes registados. É a seguinte a relação dos aracnídeos coligidos em Monte Alegre, em 1942: ARANEAE Anyphaenidne Anyphaeninae Anyphaenu sp. Osoricllu osoriana Meio-Leitão, 1922 Teudis fortis (Keyserling, 1891) cm SciELO 10 11 12 13 14 15 152 PAPÉIS AVULSOS Vol. IV — N.° 10 Argiopidae Araneincte Parawixia andax (Blackwall, 18(33) Taczanowskia pulchra, sp. n. Zilla melanocephalci (Taczanovvski, 1875) Argíopinae Argiope argentata (Fabricius, 1775) Gasteracanthinac Gasteracantha kochi Butler, 1873 Neplülinae Nephila cíavipes (L., 1758) Ctenizidae Ctenizinae Idiops montcalegreusis, sp. n. Rachias intermedia, sp. n. Dinopidae Dinopinae Dinopis sp. Eusparassidae Eusparassinue Polybetes inacutatus (Keyserling, 1880) Micrommatinae Olios caprinas Meio-Leitão, 1919 ülios niacroepigynum, sp. n. Olios rapidus (Keyserling, 1880). Lycosidae Lycosinae Lycosa raptoria Walckenaer, 1837. Muito frequente n* Estado cie São Paulo. Veneno de ação local intensa. Tratamento: sôro específico anti-licósico, fabricado pelo Instituto Butantã. Lyssomanidae Lyssomaninae Lyssomancs sp. Mimetidae Mimetinae Gelanor zonatus (C. Kocli, 1845) Oxyopidae Oxyopinae Oxyopeidon ínarmoratum (Simon, 1898) Oxyopes salticus Hentz, 1845 Peacetia rubrigastra Meio-Leitão, 1929 153 21-VI-1944 ■ — B. M. Soakes — Aracnídeos de Monte Alegre Pholcidae fílechroscelinae Blechroscelis cyaneo-taeniata Keyserling, 1891 Saliicidae Myrmarachninae Simonella sp. Salticinae Menemerus bivittatus (Dufotir, 1831) Selenopidae Selenopinae Selenops spixii Perty, 1830 Senoculidae Senoculinae Senoculus sp. Sicariidae Scytodinae Scytodes lineatipes Taczanovski, 1873 Theridiidae Theridiinae Thwaitesia adomantifera Keyserling, 1884. Thomisidae Thomisinae Acentrosceliis versicolor Soares, 1942 Ceraaraclme germaini Sitnon, 1880 Mctadiaea litíerata Piza, 1933 Mctadiaea paranensis Meio-Leitão, 1932 Misumena pulchra Badcock, 1932 Misumenops cumdoi Soares, 1943 . .Misumenops croceus (Keyserling, 1880) Misumenops guianensis (Taczanowski, 1872) Misumenops pullens (Keyserling, 1880) Misumenops pallidus (Keyserling, 1880) Synaema luteovittatum Keyserling, 1891 Syncrema nigrianus Meio-Leitão, 1929 Tmarus sp. Tmarus albolineatus Keyserling, 1880 Tmarus camelinus Meio-Leitão, 1929 Tmarus mutabilis, sp. n. Uloboridae Miagrammopinae Miagrammops sp. 134 PAPÉIS AVULSOS Vol. IV — N.” 10 OP1LIONES Gonyleptidae Bourguyinae Piscocyrtoides violaceus Meio-Leitão, 1923 Gonylepünae Sodreana sodreana Meio-Leitão, 1922 Pachylinae Discocyrtus flavigranulatus, sp. n. Buthidae SCORPIONES Centurinae Tityns bahiensis (Perty). Espécie muito comum no Esta- do de São Paulo, para a qual o Instituto Butantã fabrica sôro específico. Dou, a seguir, a descrição das formas novas assinaladas. Taczanowskia pulchra, sp.n. (Fig. 1) $ . Comprimento - 5,5 mm. Cefalotórax tão longo quão largo, muito arredondado, abrupta e grandemente estreitado na região da fronte, convexo. Olhos an- teriores em linha recurva, os médios muito maiores que os late- rais, equidistantes. Olhos posteriores também em linha recurva, os médios muito maiores e mais próximos entre si que dos late- rais. Olhos laterais contíguos, os anteriores maiores. Área dos olhos médios um pouco mais larga que longa, de olhos anteriores maiores que os posteriores. Clípeo vertical, estreitíssimo, mais ou menos da altura do diâmetro dos olhos médios anteriores. Quelíce- ras com o bordo superior do sulco ungueal provido de três den- tes e com o bordo inferior mútico. Lábio e lâminas maxilares com rebordo muito desenvolvido. Lábio triangular, quase tão largo quão longo, de ápice levemente arredondado, excedendo o meio das lâ- minas maxilares. Estas, direitas, de lados paralelos, pouco mais longas que largas, de ápice um pouco arredondado. Esterno mais longo que largo, truncado entre as ancas IV, as quais estão mais ou menos afastadas entre si. Patas laterígradas, I-II muito maiores que I1I-IV, lembrando a disposição das patas nos Tomísidas. (SciELO, 21-V1-1941 • — B. M. Soares — Aracnídeos de Monte Alegre 155 Fig. 1 • — Taczanowskia pulchra, sp. n. Patas múticas. Patas I-II com os tarsos providos de duas unhas, a interna muitíssimo maior que a externa, lisa, apenas com um pe- queno dente basal, sem contar a unha mediana. Abdômen muito mais largo que longo, tendo de cada lado um alto tubérculo dorsal com a extremidade curvada para fóra, com- primido transversalmente no bordo anterior e deprimido longitu- dinalmente no dorso, com dois pares de grandes pontos na de- pressão e mais um par posterior muito menor, e que indicam a inserção de músculos. Cefalotórax amarelo, com os bordos laterais providos de uma faixa castanho-negra na metade anterior; com quatro manchas da mesma côr, irregulares, também na metade anterior, de um lado e do outro; com larga faixa longitudinal mediana de côr castanho- negra, que começa no início da declividade torácica com dois lo- bos e depois de curto percurso se divide em dois longos ramos que se dirigem para os olhos laterais e um ramo mais fino mediano que se dirige para o meio dos olhos médios posteriores, mas ter- mina muito antes de atingi-los. Olhos com uma auréola polida de 156 PAPÉIS AVULSOS Vol. IV — N.° 10 cor vermellio-apagada. Clípeo com uma faixa transversal casta- nho-negra que toma quase tôda sua altura e é continuação da fai- xa que existe nos bordos laterais do cefalotórax. Quehceras ama- relas, com uma mancha irregular castanho-escura na metade basal da face anterior e com uma mancha vermelha na metade basal do face posterior. Lâminas maxilares e lábio castanho-negros, com o rebordo amarelo. Esterno amarelo, com uma faixa negra que o con- torna internamente. Palpos amarelos, com uma mancha enegreci- da apical na face dorsal dos fêmures, com pequena mancha trífi- da, enegrecida, basal, na face dorsal das patelas e outra averme- lhada, pouco nítida, apical, na mesma face, e com larga faixa ne- gra longitudinal na face inferior das tíbias, em tôda a sua exten- são; o apíce das tíbias na face dorsal também apresenta uma man- cha enegrecida pouco nítida. Patas I amarelas, com as ancas e trocanteres irregularmente manchados de castanho-negro, com u- ma mancha irregular castanho-negra na base dos fêmures, patelas e tíbias e na base e ápice dos protarsos; os fêmures e tíbias a- presentam dois larguíssimos anéis amarelo-alaranjados e os pro- tarsos, apenas estreito anel mediano; as patelas têm a base in- feriormente enegrecida. Patas II mais ou menos como I, porém com as côres mais vivas, o amarelo-alaranjado sendo aqui de tons ver- melhos. Patas III-IV muito manchadas de castanho-negro. Abdômen branco, irregularmente manchado de róseo e negro, com uma grande mancha rósea de cada lado posteriormente. Ven- tre branco, região epigástrica amarelo-clara, manchada de negro. Epígino mal definido. Habitat: Eazenda Santa Maria, Monte Alegre, Município de Amparo, Estado de São Paulo, Brasil. Tipo: Número E.483 C.581, no Departamento de Zoologia da Secretaria da Agricultura do Estado de São Paulo. Coligido pelo Dr. Frederico Lane, em 25-XI-1942 ldiops montealegreiifcie, sp. n- (Figs. 2, 3 e 4) $. Comprimento - 13,5 mm. 21-VI-1944 — lí. M. Soares Aracnídeos de Monte Alegre Cefalotórax com pequeninas eminências circulares, que são a base de pequeninas cerdas, em toda sua extensão. Olhos laterais anteriores quase contíguos, perto do bordo frontal, numa elevação pouco apreciável. Os outros seis olhos formam um grupo disposto sôbre um tubérculo. Olhos anteriores (laterais anteriores) um pouco maiores que os laterais posteriores, êstes mais ovais que aqueles, os quais são muito mais arredondados. Olhos médios anteriores formando com os laterais posteriores uma linha muito recurva, os primeiros afastados entre si de meio diâmetro e a pouco mais de um diâmetro dos laterais posteriores. Olhos posteriores em linha procurva, os médios muito menores e muito mais afastados entre Fig. 2 — Idio/ts montoalegrensis, sp. n. 158 FAPÉIS AVULSOS Yol. IV — N.° 10 si que dos laterais. Quelíceras com três faixas longitudinais de cer- das, cada faixa formada por duas filas paralelas de cerdas. Fê- mures, patelas e tíbias das patas com duas faixas longitudinais lisas, no restante com cerdas em tôda a sua extensão, como o são os demais artículos das patas. Lábio pouco mais largo que lon- go, estreitando-se muito discretamente para o ápice, sem cúspi- des, com finas cerdas, além de outras maiores no ápice. Esterno Fig. 3 — Idiops montealegrcnsis, sp. n. (Palpo do macho) Fig. 6 — Rachias intermedia, sp. n. (Palpo do macho) Fig. 4 — Idiops montealegrcnsis, sp. n. (Palpo do macho) mais longo que largo, mais largo ao nível das ancas III e mais estreito adiante, provido de finas cerdas. Tíbias I com duas apó- fises laterais internas, uma apical e outra menor perto do ápice. Protarsos e tarsos 1 com uma série longitudinal de espinhos de cada lado, sendo a série interna de espinhos mais numerosos. Pal- pos: Fêmures, patelas e tíbias com duas faixas longitudinais li- 21-V 1-1944 ■ — B. M. Soares — Aracnídeos de Monte Alegre 159 sas na face dorsal. Tibias mais espessas que os fêmures e pate- las, com uma área provida de cúspides na metade apical externa. Bulbo como na figura (3 e 4). Fig. 5 — Rachias intermedia, sp. n. Colorido geral castanho-claro. Cerdas negras. Abdômen com pêlos negros, que são em muito menor quantidade na face ventral, a qual é de côr amarela levemente queimada, como as ancas e o esterno. SciELO 160 PAPÉIS AVULSOS Vol. IV — N* 10 Habitat: Fazenda Santa Maria, Monte Alegre, Município de Amparo, Estado de São Paulo, Brasil. Tipo: Número E.485 C.326, no Departamento de Zoologia da Secretaria da Agricultura do Estado de São Paulo. Coligido pelo Dr. Frederico Lane, em 27-XI-1942. Rachias intermedia, sp. n. (Figs. 5 e G) í. Comprimento - 15,0 mm. Cefalotórax muito mais longo que largo, com longos pêlos se- dosos, pouco alto, de região cefálica convexa e fôvea torácica direi- ta, larga. Olhos anteriores em linha procurva, quase iguais, pouco separados. Olhos posteriores em linha recurva, os médios muito me- nores e muito mais afastados entre si, contíguos aos laterais. Olhos laterais posteriores menores que os laterais anteriores. Quelíceras sem apófise apical, de rasteio pouco distinto e constituUo por den- tículos pouco abundantes e quase setiformes. Lábio mais largo que longo, com duas cúspulas apicais. Ancas dos palpos com uma área basal interna cuspulosa. Esterno mais longo que iargo, mais largo posteriormente, com três pares de sigilas esternais, sendo as do par posterior internas e as outras marginais; há no esterno pêlos finos erectos. Patas com longos pêlos. Tarsos de tôdos os pares curvos, com escópula de pêlos finos, curtos e muito macios. Protarsos sem escópula. Tíbias I do macho sem espc ráo apical. Fêmures 1-1 1 com espinhos dorsais. Patelas 1 com 1 e II com 2 espinhos laterais internos abaixo do meio. Tíbias I com 3-3-3 es- pinhos inferiores e 1-1 do lado interno. Tíbias II com 3-3-2 es- pinhos inferiores e 1-1 do lado interno. Protarsos 1 com 4-1-2 es- pinhos inferiores, sendo os quatro apicais. Protarsos I" com 3-1-2 espinhos inferiores e 1 de cada lado. Tarsos com o terço basal mútico, os dois terços apicais com uma série dupla de curtos es- pinhos fracos. Abdômen mais longo que largo, com pêlos deitados macios e pêlos mais grossos quase erectos. Cefalotórax castanho-oliváceo escuro, com pêlos cinzento-cla- ros. Quelíceras anteriormente da mesma côr do cefalotórax, pos- 21-VI-1944 — li. M. Soares — 1 Aracnídeos de Alonte Alegre llil teriormente castanhas. Patas e palpos castanho-escuros, bem co- mo o lábio e o esterno. Dorso do abdômen castanho, com a base dos pêlos em man- chas brancas. Ventre branco. Bulbo como na figura. Tíbia dos palpos com 7 espinhos api- cais e 2 laterais internos. É possível que se trate do macho de Rachias piracicabensis Piza, 1938, e só o exame de machos da mesma localidade-tipo da espécie do Prof. Piza poderá solucionar a questão em definitivo. Tipo: Número E.546 C.629, neste Departamento. Olios macroepigynuin, sp. n. (Figs. 7 e 8) ¥ . Comprimento - 9,0 mm. Cefalotórax mais longo que largo, com a região cefálica se- parada da torácica por um sulco em V. Estria torácica fina e lon- ga. Olhos posteriores em linha quase direita, muito pouco pro- curya, os médios menores e um nada mais afastados entre si que dos laterais. Olhos anteriores em linha levemente recurva, os* mé- dios maiores, todos equidistantes. Área dos olhos médios muito pouco mais larga que alta, mais estreita adiante, de olhos ante- riores maiores que os posteriores. Clípeo muito estreito, um pouco mais alto que o diâmetro dos olhos médios anteriores. Quelíceras com dois dentes no bordo superior do sulco ungueal e com qua- tro dentes no bordo inferior, sendo o dente mais interno do bordo inferior muito menor que os demais. Lábio arredondado, muito mais largo que longo, baixo, muito menor que a metade das lâ- minas maxilares. Estas são direitas, largas, quase da mesma es- pessura desde a base até o ápice. Esterno quase tão longo quão largo, truncado anteriormente, terminando em ponta curta entre as ancas IV. Protarsos I-II com 2-2 longos espinhos inferiores e 1 de cada lado perto da base. Tíbias I-I I com 2-2-2 inferiores e 1 de cada lado perto do meio. Tíbias e protarsos III-IV também espinhosos. Abdômen muito mais longo que largo. Epígino grande, como na figura. Cefalotórax amarelo, com áreas irradiantes, pouco nítidas, 162 PAPÉIS AVULSOS Vol. IV — N.° 10 mais claras. Quelíceras, patas e palpos amarelos. Lâminas maxi- lares brancas na metade superior e amarelo-claras na inferior. Lá- bio amarelo-claro, com rebordo branco. Esterno amarelo, quase branco. Abdômen superiormente amarelo levemente queimado, com u- ma faixa longitudinal na metade anterior amarela. Ventre amarelo- claro. Epígino castanho-claro. Fig. 7 — Olios macroepigynum, sp. n. Fig. 8 — Olios macroepigynum, sp. n. (Epígino) Haritat: Fazenda Santa Maria, Monte Alegre, Município de Amparo, Estado de São Paulo, Brasil. 21-YI-1944 ■ — B. M. Soares - — Aracnídeos de Monte Alegre 163 Tipo: Número E.485 C.353, no Departamento de Zoologia da Secretaria da Agricultura do Estado de São Paulo. Coligido pelo Dr. Frederico Lane, em 27-XI-1942. Tuiarus mu tn bilis, sp. n. (Figs. 9 e 10) S . Comprimento - 7,0 mm. Cefalotórax mais longo que largo, com cerdas finas e frágeis na parte mais dorsal. Clípeo muito proclive, mais alto que a área dos olhos médios. Olhos anteriores em linha recurva, quase equi- distantes, os médios muito menores que os laterais. Os olhos pos- teriores também quase equidistantes, em linha recurva, os médios muito menores que os laterais. Área dos olhos médios um pouco mais larga que alta, mais estreita adiante, com os olhos anteriores menores que os posteriores. Tíbias 1 com 2-2-2 espinhos inferio- res, 1-1-1 de cada lado c 1-1 superiores, protarsos com 2-2 -2-2 inferiores e 1-1-1 de cada lado; tíbias II com 2-2 inferiores e 1-1-1 de cada lado, protarsos II com 2-2-2 inferiores e 1-1-1 de cada lado. Lábio muito mais longo que largo, excedendo o meio das lâminas maxilares, e mais largo no ápice que na base. Lâmi- nas maxilares longas. Esterno mais longo que largo, largamente truncado na frente. Abdômen muito mais longo que largo, com pêlos frágeis e longos. Epígino como na figura. Cefalotórax amarelo, lateral e posteriormente manchado de branco, com linhas irradiantes brancas que partem do início da declividade torácica, entre as quais sobressai uma linha mediana longitudinal que vai até o clípeo. Sobre o cefalotórax há, de um- lado e de outro, atrás dos olhos laterais, uma mancha alongada irregular olivácea. Clípeo amarelo, salpicado de vermelho na me- tade anterior. Tubérculos oculares cinéreos. Patas 1-1 1 amarelas, com os fêmures, patclas e tíbias salpicadas de branco e oliváceo, lateral e inferiormente, coloração esta mais acentuada nos fêmures e decrescendo para as patelas e mais ainda para as tíbias. Os fêmures 1 e II apresentam uma mancha olivácea muito nítida no 164 PAPÉIS AVULSOS Vol. IV — N.° 10 ápice inferiormente. Patas III-IV amarelas. Palpos, quelíceras, es- terno, lábio e lâminas maxilares amarelas. Abdômen branco-sujo, com uma faixa longitudinal olivácea que termina antes da extremidade posterior. Habitat: Fazenda Santa Maria, Monte Alegre, Município de Amparo, Estado de São Paulo, Brasil. Fig. 9 • — Tmarus mutabilis, sp. n. Fig. 10 — Tmarus mutabilis, sp. n. (Epígino) Tipo: Número E.472 C.331, no Departamento de Zoologia da Secretaria da Agricultura do Estado de São Paulo. Coligido pelo Dr. Frederico Lane, em 27-X1-1942. 21-Y 1-1944 — B. M. Soares • — ■ Aracnídeos de Monte Alegre 1 (>."> Parátipos: Números E.472 C.571 e E.473 C.332, no mes- mo Departamento. Estes três espécimes (tipo e dois parátipos) servem de exem- plo para nos mostrar que, após uma revisão das espécies do gê- nero Tmarus Simon, 1875, o seu número será provavelmente mui- to reduzido, se se conseguir trabalhar com grandes séries, pois a variação individual é enorme: côr, quetotaxia e, como já tenho ob- servado em outras espécies, o tamanho e as distâncias dos olhos entre si. Assim é que, num dos espécimes, a faixa mediana do dor- so do abdômen é muito nítida, em outro não existe e no terceiro se estende até os lados. A forma do epígino se mostra diferente num dos exemplares, talvez por diferença de idade. Suponho que o epígino se mostre igual quando os exemplares têm o mesmo nú- mero de mudas. Um dos espécimes da espécie que acabo de des- crever, aparecendo futuramente isolado, poderia constituir boa es- pécie nova. A forma do abdômen também se mostra diferente nos indivíduos da mesma espécie. Os caracteres utilizados para a separação das espécies do gê- nero Tmarus Simon, 1875, em chave, organizada pelo Prof. Melo Leitão, mostram-se em vista do exposto, falhos (Cf. Meio-Leitão, Afantoquílidas e Tomísidas do Brasil, Arq. Mus. Nac. vol. 31^ 1929, pp. 128 a 132). São os seguintes: Côr (presença ou au- sência da faixa longitudinal mediana do dorso do abdômen), que- totaxia, altura e largura da área dos olhos médios. Discocyrlus ílavigraniilalus, sp. n. (Fig. 11) S. Comprimento - 6,0 mm. Patas: 9,5 - 18,5 - 14,5 - 19,0 mm. Artículos tarsais: 6-9/10-7-7. °. Comprimento - 7,0 mm. Patas: 8,5 - 14,5 - 12,0 - 15,0 mm. Artículos tarsais: 6 - 8/9 - 7 - 7. S . Margem anterior do cefalotórax com alguns grânulos peque- nos esparsos. Cefalotórax com quatro grânulos atrás do cômoro ocular e com alguns grânulos pequeninos na metade anterior. Cô- moro ocular modicamente elevado, com dois espinhos divergen- 16(i PAPÉIS AVULSOS Vol. IV — N.® 10 tes c alguns grânulos pequenos. Área I bipartida, granulosa so- mente no meio; II com grânulos formando a figura de meia-lua de concavidade posterior e no mais lisa; III com um par de tubér- culos medianos, com grossas granulações no meio e uma fila de Fig. 1 1 — Discocyrtus flavigranulatus, sp. n. pequenos grânulos em tôda a extensão perto do sulco IV; IV bi- partida e com pequeninas granulações em quase tôda a sua exten- são; V com duas filas de grânulos, a anterior de grânulos muito menores, c com dois grânulos medianos muito maiores que os de- 21-VI-1944 — B. M. Soares - — Aracnídeos de Monte Alegre 167 mais. Áreas laterais com grossos grânulos na parte mais dilatada, e com granulações muito pequenas irregularmente distribuídas. Tergitos livres com uma fila de grânulos e mais alguns grânu- los pequeninos irregularmente distribuídos. Opérculo anal parcial- mente granuloso, com granulações pequenas. Esternitos livres li- sos. Coxas I a III com algumas granulações. Palpos: Trocante- res com dois espinhos apicais inferiores, um dêles muito pequeno; fêmures com um espinho basal inferior e robusto espinho apical interno; tíbias com 4-4 e tarsos com 4-3 espinhos inferiores. Fê- mures I-II direitos, III-IV curvos. Fêmures III com um espinho api- cal lateral. Patas IV : Ancas granulosas, com enorme apófise api- cal externa ponteaguda, curva para trás, e com robusta apófise apical interna direita, com a extremidade em bisel; trocanteres com um dente mediano interno, dois dentes verticilados apicais inter- nos, e com alguns grânulos grossos do lado externo; fêmures com robusta apófise dorsal mediana curva para dentro, com outra, se- melhante a ela, menor, perto do ápice, e uma terceira, menor ain- da e mais fina, apical, com um par de dentes apicais dorsais e um par de dentes apicais ventrais, com uma fila interna de dentes, e uma fila interna de tubérculos; patelas com um dente basal e um apical inferiores, além de outros dentes tuberculiformes; tíbias com três pares de dentes inferiores apicais, o par mais próximo do ápice maior e o mais afastado o menor, além de outros dentes tu- berculiformes irregularmente distribuídos. Colorido geral castanho-escuro, com as granulações das áreas I-II-I1I e os quatro grânulos de trás do cômoro ocular amarelo- sulfúreos. Bordas das áreas laterais, da área V e do tergito livre 1 amarelo-sulfúreas. Palpos e patas I a III oliváceos, o ápice dos fêmures III amarelo. Patas IV castanhas, com o ápice dos fêmures amarelo. 9 . A área III possui um par de espinhos baixos em vez de tu- bérculos c é quase tôda granulosa, sendo as granulações que fi- cam entre os espinhos maiores. Arca IV bipartida e granulosa em tôda a extensão. Tergitos livres I e II com um par de grânulos medianos maiores que os demais, como se vêm na área V do es- cudo dorsal. Fêmures III com um espinho apical lateral. Coxas 1138 PAPÉIS AVULSOS Vol. IV — N." 10 IV granulosas, com uma apófise apical externa espiniforme, e com apófise apical interna espiniforme menor que a externa e pou- co visível, sómente apreciável quando examinada pela face ven- tral do opilião. Trocanteres IV granulosos do lado externo, com um espinho mediano, lateral, interno, e dois espinhos verticilados apicais internos, um dos quais muito pequeno. Fêmures IV com um dente dorsal perto do meio, outro também dorsal perto do ápi- ce e dois apicais dorsais, dois apicais inferiores, um apical inter- no e outro perto do ápice também do lado interno, afóra grânu- los de vários tamanhos irregularmente esparsos. Patelas e tíbias IV com grânulos irregulares. Quanto a coloração, a fêmea não possui os bordos das áreas laterais, da área V e do tergito livre I amarelo-sulfúreos, a não ser muito discretamente coloridos dessa côr. Habitat: Fazenda Santa Maria, Monte Alegre, Município de Amparo, Estado de São Paulo, Brasil. Holôtipo e Alótipo: Número E.485 C.569, no Departa- mento de Zoologia da Secretaria da Agricultura do Estado de São Paulo. Coligidos pelo Dr. Frederico Lane, em 27-XI-1942. Vol. IV, N.° II — pp. 169-176 21-VI-1944 PAPÉIS AVULSOS DO DEPARTAMENTO DE ZOOLOGIA SECRETARIA DA AGRICULTURA — S. PAULO - BRASIL PRIMEIRA CONTRIBUIÇÃO AO CONHECIMENTO DA FAUNA ICTIOLÓGICA DE MONTE ALEGRE (*) (Estado de São Paulo) POR A. Amaral Campos Em meados do mês de maio do corrente ano, por incumbên- cia do Departamento de Zoologia, fui à cidade de Monte Alegre, com o fim de colher dados e material necessários ao remate dos estudos que venho fazendo já há alguns mêses sobre a ictiologia da região. A região é banhada pelo rio Camanducaia, ao qual se res- tringem tôdas as observações trazidas no presente trabalho. Nasce o referido rio, entre serras distantes algumas léguas e encontra esparsos ao longo do seu percurso bruscos desníveis, que vence em rumorosos saltos encachoeirados ou em movimentadas corredeiras, vindo em seguida retomar o leito arenoso e unifor- me, onde desliza mansamente por alguns quilômetros. Suas águas crescem rapidamente com as inúmeras vertentes colhidas das mon- tanhas que contorna, e vai desaguar no rio Jaguari, após um per- curso de várias dezenas de quilômetros, já com um volume bas- tante considerável. A ausência de brejos e pantanais nas margens do rio, que são cobertas de arbustos quando não cultivadas, per- mite acompanhá-lo em quase tôdo o seu trajeto entre a cachoeira do Falcão e a de Três Pontes, a uma distância calculada de 12 a 13 quilômetros. A cachoeira do Falcão, pouco distante da sede da Fazenda (*) Recebido para publicação cm X-43. 170 PAPÉIS AVULSOS Vol. IV — N.° 11 Experimental, fundada recentemente pela Secretaria da Agricul- tura, é constituída por uma interessante escarpa de aproximada- mente 3 metros de altura, que o rio após fragmentar-se em volu- mosos jactos transpõe de uma só vez, para a seguir expandir-se num leito de pedras e cascalhos. Pequenos sítios formados ali nos arredores animam a magnífica paisagem. Outras quedas menores e corredeiras são encontradas espaçadamente, estando uma delas situada dentro do território da Fazenda Experimental. Serpenteando por entre os vales, o rio Camanducaia, como já foi dito, tem as suas margens despidas de matas, notando-se de quando em vez um aglomerado de pequenas árvores que indica um reflorestamento natural. Em tôda a extensão percorrida veri- fica-se a presença de umas poucas árvores de Ingá, planta coniu- mente encontrada às margens dos rios e produtoras de um fruto apreciado pelos peixes frugívoros. À devastação das margens sobrevem fatalmente o desapare- cimento dos peixes do rio. Desta forma o rio Camanducaia, que pelo seu volume poderia ser muito mais piscoso, parece no mo- mento achar-se na situação de tôdas as águas devastadas e des- protegidas. Apesar de desprotegido sob êstes aspectos considerados, o rio Camanducaia comporta várias espécies de peixes representadas embora por número pequeno de indivíduos. O tempo frio e des- favorável à pesca contribuiu para que a coleta de espécimes não fosse muito numerosa, limitando-se a 174 exemplares apenas. Não obstante, o material ictiológico colecionado no mesmo rio duran- te os meses de verão eleva aquele número a um total de 491 exem- plares, distribuídos pelas famílias seguintes: Loricariidae, Sila- ridae, Cliaracidae e Poeciliidae. Embora não figure na coleção, é quase certo ocorrer também a família Cicldidoe. A família Loricariidae, que é a melhor representada no rio Camanducaia, abrange os peixes vulgarmente conhecidos por “Cas- cudos”. Em tôdas as épocas do ano, êstes peixes são lá encon- trados com facilidade. Aliás um fato curioso chama a atenção de quem observa os exemplares desta família coligidos neste rio: é a predominância, ou talvez a exclusividade, do gênero Plecos- tonms. Pois não foi encontrado um exemplar sequer dos outros gêneros, nem mesmo de Loricaria, ou “Cascudo viola”, que rara- 21-VI-1944 • — A. A. CamioS • — Fauna ictiológica de Monte Alegre 171 mente falta onde existem outros componentes da família. Sua au- sência é tanto mais notável quanto se trata de uma região em con- dições ótimas para o seu desenvolvimento. Êste fato entretanto não reverte em prejuízo da zona, porquanto os peixes do gênero Ple- costonms são, dentro da família Loricariidac, os que possuem as melhores qualidades como alimento. Possuidores de uma carne ótima e delicado sabor, quando bem preparados podem substituir qualquer outra espécie de pescado fino. A família Siluridac “bagres” e “mandis” é representada pelos gêneros Pimelodella, Pseudopimelodits e Rhandia. A não ser o gê- nero Pinielodella, cujas espécies são de pequeno porte, os outros dois gêneros compreendem peixes que atingem um desenvolvimen- to razoável, o que lhes confere algum valor econômico. A numerosa família Chorocidae, cujos gêneros são consta- tados em quase todas as águas fluviais do Brasil, também ai está presente com o seu contingente de espécies, distribuídas entre os gêneros Astyanax, Poecilurichthys, Leporinas, Apareiodon, Paro- don, Brycon, Salminus, Hoplias e Prochilodus. Quase todas con- tém espécies aproveitáveis para a alimentação do homem, ao lado de outras que, pelo crescimento muito reduzido, prestam-se mais à alimentação dos próprios peixes de tamanho maior. Há ainda a família Pocciliidae, concorrendo com um gênero Plialdoccriis, peixinho muito gracioso cujo valor decorativo em tanques e aquários é sobejamente conhecido. DISCRIMINAÇÃO DAS ESPÉCIES DE PEIXES ENCONTRADAS Família LORICARIIDAE Pleeottomus plccostomus Cuv. et Vai. 34 exemplares desta espécie vieram enriquecer a coleção do Departamento de Zoologia que já contava com exemplares de di- versas procedências como sejam: Franca, Vila Olímpia, Sorocaba, Perus, Piracicaba, Tatui e, agora, mais a de Monte Alegre, tôdas do Estado de São Paulo, contando também com as de São Luiz de Cáceres no Estado de Mato Grosso, rio Muriaé, Estado do Rio dc Janeiro e rio São José no Estado do Espírito Santo. SciELO 172 PAPÉIS AVULSOS Vol. IV — N.“ 11 Plecostomus alatii8 CílSteln. 115 exemplares novos procedentes do Camanducaia reuniram- se aos exemplares desta espécie, quase tôdos colecionados em Pi- racicaba em 1910 por E. Garbe, naturalista-viajante, e que já fa- ziam parte da nossa coleção. Plecostomus lexi R. v. lhering. Das espécies citadas, salienta-se esta, pouco conhecida por ter sido descrita em data relativamente recente (1910), cujo tipo encontra-se na coleção do Departamento, sob o n.° de registo 2.126. E' procedente do rio Pardo, Estado de São Paulo, colecio- nado pelo sr. Fausto Lex. Possuímos agora mais de duas dezenas de exemplares destes lindos cascudos, que no rio Camanducaia são conhecidos pelo nome popular de “Cascudo-chita”. Família SILUR1DAE Pimelodella lateristriga Midi. & Troscll. Pseuclopimelòdus zungoro (Humb ). Ithamliu quelen (Quoy & Gmrd). Estas espécies de larga distribuição não só no Estado de São Paulo como nos outros estados, estão representadas na coleção de peixes dêste Departamento por um grande número de exempla- res de várias procedências. Família CHARACIDAE Astyanax fasciatus (CllV.) Ocorrentes em tôdos os rios do Brasil e conhecidos por “Lam- baris”, são êstes pequenos peixes representantes de um grande nú- mero de espécies, dentro da família Characidac. Mais uma espécie do gênero citado pode-se distinguir nesta região, que é: Astyanax biniaciilatu» (L ). Entre os peixes pertencentes ao gênero Parodon e Apareio- don, denominados comumente “Canivetes”, há a espécie: 21~\ 1-1944 — A. A. Camios - — Fauna ictiológica dc Atonte Alegre 173 Parodon tortuosus Eigenm. e mais duas espécies do gênero Apareiodon das quais, uma, eu considero com caracteres distintos das espécies até agora conhe- cidas, pelo que passo a descrever sob o nome de Apareiodon ilntieiiMS nobis Tipo do rio Camanducaia, Monte Alegre, Estado de São Paulo (N.° 3.41 1). O gênero Apareiodon Eigenm. 1916, que tem como tipo Pa- rodon piracicabae do mesmo autor, cuja característica diferencial é a ausência completa de dentes na maxila inferior, apresenta vá- rias espécies com as quais entretanto não pude identificar a que en- contrei entre os peixes coligidos em Monte Alegre. Muito afim com Apareiodon piracicabae Eigenm., Aparcidon dariensis Meek Hild, e Apareiodon davisi Fowler, delas se afasta quanto a fórmula den- tária, para não falar nas diferenças de proporções e colorido. As- sim comparando a fórmula dentária entre estas espécies, forne- cidas pelos respectivos descritores, encontramos: Apareiodon piracicabae Eigenm. = 4 interníaxilares, e 2 ma- xilares de cada lado; Apareiodon dariensis Meek. & Hild. = 3 ou 4 interníaxilares, sem fazer referência aos dentes maxilares; Apareiodon davisi Fowler = 4 interníaxilares e 1 maxilar; c Apareiodon ibiíicnsis nobis = 3 interníaxilares e 1 maxilar. Além destas divergências, outras liá, como em A. piracicabae, as peitorais são mais pontudas e tem os raios medianos recurva- dos para dentro, enquanto que em A. ibitiensis estas nadadeiras apresentam o bordo mais arredondado. A. dariensis apresenta três estrias longitudinais em cada lado do corpo o que não se verifica na nova espécie. A. davisi é muito mais robusta, isto é, tem o cor- po mais alto do que a espécie que acabo de encontrar. Descrição do tipo: D. 11; A. 6-7; V. 8; P. 11-13; altura 4 4/5; cabeça 5; olhos 3-3 1/2 na cabeça; 1 1/3 no focinho e no interorbital; linha lateral 40; dentes multicúspidos em número de 3 em cada interniaxilar; 1 dente fraco na extremidade proximal de cada maxilar; dorsal com início pouco antes da metade do colii- 174 • PAPÉIS AVULSOS Vol. IV — N.° 11 primento do corpo; peitorais mais longas do que a cabeça; ven- trais menores que as peitorais; ambas com membranas inter-radiais espessas, estas últimas situadas a maior distância da origem das peitorais que da anal; anal com os raios anteriores duplamente maiores encobrindo os posteriores; lobos da caudal com a base escamosa; escamas do corpo estriadas, 4 séries distintas entre a 175 21— V 1-1944 — A. A. Camios ■ — Fauna ictiológica ile Monte Alegre linha lateral e base da dorsal e 3 séries entre essa linha e a ori- gem da ventral; dorso escuro, uma estria negra acompanhando a linha lateral segue até às pontas dos raios medianos da caudal; uma mancha escura sôbre o focinho e outra na base do opérculo; mais 5 estrias escuras, porém, transversais partindo do dorso a- travessam a longitudinal e desaparecem na face ventral do corpo, a 1.® aparece logo depois da região occipital; a 2. :i na origem da dorsal, a 3.“ na base desta nadadeira, a 4.® antes da adiposa e a 5.® depois da adiposa. A caudal que é fimbriada de escuro, apre- senta uma lista oblíqua na base de cada lobo; dorsal com duas listas escuras, uma na base e outra na margem; peitorais e ven- trais com a face superior enegrecida, a inferior pálida; anal c adi- posa ligeiramente pigmentadas. Comprimento 1 13 mm. A outra espécie do gênero é: Apareiodon piracicabac Eigenm., frequentemente encontra- da no rio dêsse nome como também em outros que percorrem o estado. Brycnn orbinyanus Cuv. et Vai., pertencentes às chamadas “Piracanjubas” muito apreciadas pelo sabor delicado de sua car- ne, embora esta espécie não atinja um desenvolvimento igual ao de suas congêneres. Salminus hilarii Cuv. et Vai., ou comumente “Tabarana”, não sendo tão apreciada como sua congênere “Dourado” é bastante consumida para a alimentação. Leporinus fasciatus Spix. Leporinas copclandi Steind., que são as conhecidas “Piabas”, “Piaus”, “Piaparas”. Hoplias mcilabctriais (Bloch), ou “Traíras” facilmente en- contradas nas lagoas e águas pouco movimentadas. Além dêstes gêneros, cujas espécies foram citadas, soube por informação, de que na região costuma ocorrer representantes do gênero Prochilodus (Curimbatá) e também espécimes da família Cic/didae (Acarás) dos quais, aliás, não constam representantes na coieção. 176 PAPÉIS AVULSOS Vol. IV — N.° 11 Para finalizar a lista de peixes coligidos até a presente data, na região de Monte Alegre, temos ainda uma espécie da família Poecilidae, Phallocercus ccmdomaculatiis Hense., habitante das á- guas marginais ou das pequenas águas popularmente conhecida por “Barrigudinho”. Vol. IV, N." 12 — pp. 177-1SC 19-VII-1944 PAPÉIS AVULSOS DO DEPARTAMENTO DE ZOOLOGIA SECRETARIA DA AGRICULTURA — S. PAULO - BRASIL MAIS ALGUNS OPILIÕES DE BORACÉA (*) POR B. M. Soares INTRODUÇÃO Após minha primeira nota sôbre opiliões de Boracéa (Cf. Soares, 1942, Papéis Avulsos Dcp. ZooL, São Paulo, 2: ,1), re- cebi uni pequeno lote dêstes aracnídeos da mesma localidade, co- ligidos pelo sr. Alfredo Zoppei, e cujo estudo foi o assunto dêste novo artigo. E’ a seguinte a lista dos opiliões, todos da subordem Lci- niatorcs : GONYLEPTIDAE Bourguyinae Discocyrtoides sp. — 2 $ 9 . Hypophyllononuis maculipalpi (Piza 1938) — 1 3 e 5 9 9. Mitobatinae Pnomitobates ornatus (Melo-Leitão, 1922) ■ — 13. Pachylinae Discocyrius boraceae Soares, 1942 — 1 3. Alótipo. Discocyrtiis longicornis (Melo-Leitão, 1922) - 53 3 e49 9. Oxyrhina zoppeii, g. n. sp. n. Prosampycus argcnteopilosus Melo-Leitão, 1935 — 2 3 3 e 3 9 9 . PHALANGODIDAE Tricommatinae Capnriacoius fallax, sp. n. Hypophyllonomus Giltay, 1928 (*) Recebido para publicação em 12-IX-43. 17S PAPÉIS AVULSOS Vol. IV — N.° 12 Hypophyllonomus Giltay, 1928, Ann. Bul!. Soc. Ent. Belg., 68: 82; Roewer, 1929, Abh. Nat. Ver. Brem., 27 (2): 265; Melo-Leitão, 1932, Rev. Mus. Paul., 17 (2. a pte.) : 221, 228. Parabristoweia Piza, 1938, seria sinônimo, neste caso de Singram gica, 10 (4) : 116. Examinando séries grandes da espécie Hypophyllonomus ma- culipalpi (Piza, 1938), 12 exemplares de Boracéa, Município de Salesópolis, Estado de São Paulo, e 14 de Ipiranga, Estado de São Paulo, Capital (localidade em que foi coligido o tipo), che- guei à conclusão de que a espécie deve pertencer à subfamília Boitrguyinae, pelos caracteres que apresenta. Sendo assim, Para- bristoweia Piza, 1938, será sinônimo de Hypophyllonomus Giltay, 1928. Se a espécie ficasse na subfamília Pachylintae, mesmo assim Parabristoweia Piza, 1938, seria sinônimo, neste caso de Singram Melo-Leitão, 1937 (Cf. Melo-Leitão, 1937, Rev. Chil. Hist. Nat., Ano 41: 154). Pela leitura da diagnose, parece que Hypophyllo- nomus maculipalpi (Piza, 1938) é sinônimo de Singram simplex Melo-Leitão, 1937, o que só a comparação com o tipo soluciona- rá. Se houver sinonímia, Singram Melo-Leitão, 1937, será tam- bém sinônimo de Hypophyllonomus Giltay, 1928. Mesmo que não haja sinonímia entre espécies, parece-me que, examinando-se um grande série, Singram simplex Melo-Leitão, 1937, passará para a subfamília Bourguyinae. Hypophyllonomus maculipalpi (Piza, 1938) é espécie afim de Hypophyllonomus longipes Giltay, 1928. Discocyrtus bnraceae Soares, 1942 (Fig. 1) Em trabalho anterior (Cf. Soares, 1942, Papéis Avulsos Dep. Zool., São Paulo, 2: 12) descrevi a fêmea desta espécie, sem haver dado ilustração. Agora passo a descrever o macho, fazen- do-o acompanhar da respectiva fotografia. Alótipo í. Comprimento: 5,0 mm. Patas: 9,0- 19,00- 14,0 -18,0 mm. Artículos tarsais: 6-13-7-6. Borda anterior do cefalotórax com alguns grânulos pequenos. Cefalotórax com poucos grânulos pequeninos atrás do cômoro ,SciELO, 19-VII-1944 ■ - ]?. M. Soares — Mais alguns opiliões de üoracéa 179 ocular, que é alto, armado de dois espinhos robustos e provido de alguns grânulos. Áreas 1 a IV com grânulos pequeníssimos. Área III provida de um processo elevado, dirigido para trás e ar- mado de dois robustos espinhos. Área V e tergitos livres com uma série de grânulos pequeníssimos. Ancas I com uma série de gros- sas granulações providos de longas cerdas. Ancas II, III, parte in- ferior das ancas IV e área estigmática com' cerdas delicadas. Pal- pos: Trocan teres com dois espinhos inferiores; fêmures com um espinho basal inferior, dois pequenos espinhos inferiores e com espinho apical interno; tíbias com 4-4 e tarsos com 4-3 espinhos inferiores. Fêmures I com grânulos setíferos, II com grânulos sc- Discocyrtus boraceae Soares, 1942 180 PAPEIS AVULSOS Vol. IV — N.® 12 tíferos e robusto espinho apical lateral. Patas III: Fêmures com grânulos dorsais, com duas séries de tubérculos que aumentam de tamanho à medida que se aproximam do ápice e com robusto espinho apical lateral; patelas com tubérculos pontudos dorsais; tíbias com tubérculos setíferos dorsais, com duas séries inferiores de espinhos robustos que aumentam de tamanho em direção do ápice, e com dois espinhos inferiores muito robustos e longos, perto do ápice. Patas IV : Ancas lateralmente com grânulos setí- feros, com longa apófise apical externa transversal, de extremi- dade acuminada, arqueada para trás, e provida de um tubérculo basal inferior e, além disso, as ancas apresentam uma apófise api- cal interna bífida; trocanteres com duas apófises de cada lado; fê- mures, patelas e tíbias com muitos tubérculos e espinhos irregu- larmente distribuídos; os espinhos apicais inferiores das tíbias são muito robustos e longos; protarsos com tubérculos. Colorido geral castanho, com os grânulos postos em man- chas amarelas. Áreas do escudo com estas manchas circundadas por uma linha escura. Patas I a III amarelas, muito manchadas de oliva. Palpos com os tarsos e tíbias de côr oliva, com os res- tantes artículos amarelos, manchados de oliva. Patas IV casta- nhas, com os protarsos e tarsos da mesma côr que as patas I a III. Habitat: Boracéa, Município de Salesópolis, Estado de São Paulo, Brasil. Ai.ótipo n.° E.364 C.290, no Departamento de Zoologia da Secretaria da Agricultura do Estado de São Paulo. Coligido por A. Zoppei, em 5-IX-1942. Discocyríus Holmberg, 1878 Discocyrtus Hoemberg, 1878, Natural. Argent., 1: 73, 74. Discocyriunus Roewer, 1929, Abh. Nat. Ver. Brem., 27 (2): 250. Examinei uma série de 5 machos e 4 fêmeas da espécie Dis- cocyrtus longicornis (Meio-Leitão, 1922), procedentes de Boracéa, Município de Salesópolis, além de muitos outros exemplares de Alto da Serra. A área I pode apresentar nesta espécie um par de tubérculos ou êstes se confundem com os grânulos, o que levaria alguns espécimes para o gênero Discocyriunus Roewer, 1929, e ou- T C\ 1 'M 4 ■ D. M. JSoakf.s — A lais alguns opiliões de Boracéa ÍS1 íros, para Discocyrtus Holmberg, 1878. Julgo, pois, oportuno, fun- dir êstes dois gêneros num só. Doravante Discocyrtus Holmberg, 1878, poderá apresentar na área I um par de tubérculos ou ser inerme nesta área. Oxyrhina, g. n. Áreas I, II, íV e V do escudo dorsal inermes, III com dois tubérculos. Cômoro ocular provido de robustíssimo espinho pon- tudo dirigido para diante. Tergitos livres do macho inermes; na fêmea o tergito livre I é inerme, II e III com pequeno tubérculo mediano. Opérculo anal inerme. Palpos de fêmures inermes. Tar- sos I de 5 artículos, III-IV de 6, II de mais de 6. Tipo: Oxyrhina zoppeii, sp. n. A configuração geral e o espinho do cômoro ocular lembram os Falangódidas, mas a presença de pseudoníquio muito evidente tira a possibilidade de pertencer a esta família. E’ afim de Meta- gyndes Roewer, 1913. Oxyrhina zoppeii, sp. n. (Fig; 2) ?. Comprimento: 7,0 mm. Patas: 8,0- 14,0- 10,5- 14,5 mm. Artículos tarsais: 5 - 8 - 6 - 6. Borda anterior do cefalotórax com dois tubérculos setíferos no meio e com três de cada lado. Cômoro ocular granuloso, com robustíssimo espinho muito longo, pontudo, pouco granuloso, di- rigido para diante, excedendo muito a borda anterior do cefalo- tórax. Cefalotórax granuloso adiante c atrás do cômoro ocular, li- so de um lado e de outro. Área I dividida por um sulco longitu- dinal mediano, granulosa, lisa de um lado e de outro. As demais áreas do escudo dorsal c o tergito livre I granulosos; a área III com dois tubérculos grandes. Tergitos livres II c III granulosos e com pequeno tubérculo cônico mediano. Áreas laterais granulo- sas, com grânulos maiores na metade posterior. Opérculo anal gra- nuloso, com um par de grânulos que dão ideia de dois tubérculos pequenos medianos. Esternitos livres com uma única série de grâ- 182 PAPÉIS AVULSOS Vol. IV — N." 12 nulos. Ancas, trocanteres, fêmures, patelas e tíbias de todos os pares de patas providos de tubérculos setíferos. Todos os fêmu- res, exceto os do primeiro par, armados de um espinho apical la- teral. Fêmures I— II retos, 1I1-1V curvos. Protarsos e tarsos pro- vidos de cerdas delicadas. Ancas 1 e II com dentes dorsais. Pal- ?. Oxyrliina zoppeii, sp. n. pos: Trocanteres com 1 ou 3 grânulos setíferos inferiores, os fê- mures com 3, as tíbias e tarsos com 3-3 espinhos inferiores. Colorido geral castanho, com as áreas do escudo mais escuras. Ancas de todos os pares, fêmures, patelas e tíbias poste- riores castanhas. Trocanteres dos três primeiros pares de patas a- marelos, os fêmures, as patelas e as tíbias dêstes mesmos pares 183 19-V1I-1944 — 13. M. Soares — Mais alguns opiliões de Boracéa de patas castanho-escuros, com áreas mais claras. Proíarsos ama- relos, com duas áreas irregulares escuras. Tarsos amarelos. Pal- pos amarelo-acinzentados. Habitat: Boracéa, Município de Salesópolis, Estado de São Paulo, Brasil. Tipo: N. u E.364 C.191, no Departamento de Zoologia da Secretaria da Agricultura do Estado de São Paulo. Coligido por A. Zoppei, em 5-IX-1942. A coleção deste Departamento possui mais três machos da espécie, coligidos em Alto da Serra, Estado de São Paulo. Um destes machos será descrito em trabalho em elaboração, devendo constituir o alótipo. A espécie é dedicada ao sr. Alfredo Zoppei, que foi quem co- ligiu os opiliões estudados na presente nota. Caporincoiut* falla.v, sp. 11. (Fig- 3) Comprimento: 5,0 mm. Patas: 6,0- 12,0-8,0- 12,5 mm. Ar- tículos tarsais : 3/4 - 6 - 5 - 5. Borda anterior do cefalotórax lisa. Cômoro ocular marginal, alto, posteriormente granuloso, provido de robusto espinho granu- loso dirigido para diante. Áreas I a IV com dois tubérculos e uma série de grânulos perto do sulco posterior de cada área, V com dois tubérculos e uma série irregular de grânulos. Tergitos livres I, 11 e 111 com uma única série de grânulos. Opérculo anal granuloso. Áreas laterais com uma série de grânulos. Esternitos livres lisos, providos de grânulos setiferos de um lado e de outro. Opérculo anal ventral com uma série de grânulos. Ancas com grânulos se- tíferos. Palpos: Trocanteres com um espinho inferior mediano; fêmures com um espinho inferior basal, com um espinho inferior submediano e com espinho apical interno; tíbias com 2-3 e tar- sos com 2-2 espinhos inferiores. Fêmures 1 e 11 mais ou menos direitos, 111 e IV curvos. Ancas IV lateralmente com grânulos se- tíferos e com um tubérculo setííero apical externo. Colorido geral castanho, com as áreas do escudo dorsal mais PAPÉIS AVULSOS Vol. IV — N* 12 escuras perto dos sulcos. Cômoro ocular escuro em torno dos olhos. Trocanteres de todas as paias amarelos. Tergitos e esternitos li- vres de tom castanho-escuro. Patas castanhas, com aneis ene- grecidos no ápice dos fêmures e no ápice e base das patelas, tíbias e protarsos. Palpos amarelos. Habitat: Boracéa, Município de Salesópolis, Estado de São Paulo, Brasil. Tipo: N.° E.364 C.192, no Departamento de Zoologia da Se- cretaria da Agricultura do Estado de São Paulo. Coligido por A. Zoppei, em 5-1X-1942. Caporiacoius fallax, sp. n. 19-VI 1-104-4 • — B. M. So\res — Mais alguns opiliõcs , 1914, Gen. Ins. Wytsman 160, p. 5; etc. Arlhrochlamys Ihering s Ihering, 1904 (1905), Rev. Mus. Paul. VI. p. 642 nota (nom. nov.). Boloschesis Jacobson, 1924, Rev Russe Ent. XVII I, p. 239 (nom. nov.); Schaeffer, 1926, Proc. Ent. Soc. Wasli. 28, p. 181. Knoch (•"*), em 1801, estabeleceu o gênero Chlamys, imedia- tamente adotado por todos os entomólogos, para descrever duas espécies de besouros. No entanto, Chlamys já havia sido empre- gado, em 1798, para designar um gênero de Mollusca ( Lamelli - branchia, Pectinacea, Pcctinidae) , geralmente atribuído a Bolten. Só em 1905, Ihering <£ Ihering (p. 642) — em nota que passou despercebida até 1929 (Laboissière) e somente cm 1934 foi re- gistrada em The Zoological Record (H. v. Ihering) — chamam a atenção para o fato nos seguintes termos (salvo quanto à . rto- grafia) : “Observo que estando o nome genérico Chlamys já pré- ocupado na literatura conquiiiológica desde 1798 por Bolten, êste gênero de Crisomélida que também deu o nome a uma subfamí- lia, foi assim denominado por Knoch em 1801, e, pois requer uma nova denominação para a qual proponho o nome de Arthrochla- mys.” (°) Jacobson (p. 239) porém, sem conhecer o nome já proposto, (°) Nctte Beytraege zur Inscktenkunde. Lcipzig, Schwickert, 1801, p. 122. (°) Em 1907, H. von Ihering (p. 251) considera Chlamys, etn Molus- cos, “nomen nudum” e propõe Myochlamys Ihering, para substituí-lo, dc- ciarando Arlhrochlamys Ih. & Ih., sem eleito. SciELO 216 PAPÉIS AVULSOS Vol. IV — N." 35 escreve, em 1924: “Genus Chlamys Knoch 1801, Klug 1824, quod praeoccupatiim a Bolten 1798 et Megerle 1830 in Molluscis reno- mino in Boloschesis noin. nov. Tribus Chlamydina nominanda est Fulcidacina." Ao rever o assunto, em 1929, Laboissière (p. 257 e 258) re- ferindo-se ao gênero Chlamys (de Moluscos), geralmente atribuí- do a Bolten, diz: “!e catalogue dans lequel ce genre figure pour la première fois a pour titre: Museuin Boltenianum, il fut publié en septembre 1798 par Peter Friedrich ROEDING; il concerne prin- cipalement la collection Bolten, mais ROEDING, dans sa préfa- ce, indique qu’il y a intercalé d’autres espèces et declare — page VI 1 1 — qu’il a ajouté des noms latins d’après GMELIN, 13e. éd. du système Linneen.” Depois de concluir, com DAUTZENBERG, pela validez de Chlamys (em Moluscos) atribue o nome de Ar- throchlamys a H. v. lhering levado, naturalmente, pelas palavras dêste na memória de 1907 (/')• O trabalho, porém, em que o no- me foi proposto é de colaboração e de autoria de Hermann e Ro- dolfo von lhering, embora a nota esteja redigida na l. a pessoa do singular. Deve ser chamada a atenção, dos interessados, para o fato de continuar, em Moluscos, o gênero Chlamys a ser atribuído a Bolten apesar du que foi afirmado, sobre o assunto, por Labois- sière. Em conclusão: a validez de Chlamys (em Moluscos) está, hoje, assentada ( s ) e Chlamys (em Coleópteros) deve ceder o lu- rar a Arthrochlamys Ih & Ih. Diplacatpia Jacobson, 1924 Diaspis Lacordaire, 1848, Mon. Phyt. II, p. 645; Chapuis, 1874, Gen. Col. X, p. 200; Jacoby, 1881, Biol. Centr.- ( 7 ) “J’ai proposé le nom d' Arthro chlamys . ...” (p. 251). (8) Cf. - Regras Internacionais de Nomenclatura Zoologica, opinião 96, in Alem. Inst. Butantan Ni, 1937, p. 270 (Trad. de A. do Amaral) ; Neave, 1939, Nomenclator Zoologicus 1, p. 703, onde se lê: “ Chlamys Bolten 1798, Aíus. Bolten., 2, 161 - Aloll. (Cf. Myochlamys lhe- ring 1907). Chlamys Rnòcli 1801, N. Beitr. Insectenkunde, (I) 122. - Col. (See Ar- throchlamys lhering 1904 & Boloschesis Jacobson 1924). Chlamys Youiig & Young 1877, Ann. Afag. Nat. Hist., (4) 20, 429. - Spong. Chlamys Beneden 1892, Buli. Acad. Sei. Belgique, (3) 23, 227. - Crust. 2 3 4 SciELO cm 10 11 12 13 14 15 19-\' 1 1-1944 -- E. Navajas - -Nomenclatura dos Fulcidacídeos 217 Anier. Col. VI (1), p. 74; Id., 1889, id. Suppl., p. 155; Clavareau, 1913, Col. Cat. Junk et Schenk, XXIV (pars 53), p. 209; Achard, 1914, Gen. Ins. Wytsman 160, p. 4. Diplacaspis Jacobson, 1924, Rev. Russe Ent. XVIII, p. 239 (nom. nov.) ~ Diapsis Lac., 1848, preocc. (nec Diaspis Costa, 1828). Skwarraia van Emden, 1932, Zool. Anz. 101, p. 9 (nom. nov.). Em 1848, Lacordaire (p. 645) instituiu o gênero Diaspis para uma espécie ( paradoxo ) singularmente provida de dois es- cutelos. 0 nome já estava, porém, pré-ocupado para designar um gênero de Diaspididae ( Homoptera , Coccoidea), estabelecido por Costa em 1828 ( 9 ). Por êste motivo Jacobson, em 1924 (p. 239), propõe: “Genus Diapsis Lac. 1848, quod exsistit jam Diaspis Bremi 1847 in Hemipteris Coccidis, nomino Diplacospis, nom. riov.” Apesar disso, ainda em 1932, van Emden ( I0 ) propõe novo nome ( Skwarraia ), para substituir Diaspis Lacord. (nec Costa) que será corretamente designado por Diplacaspis. Fulcidax Voeti 1806. Poropleura Lacordaire, 1848, Mon. Phyt. II, p. 863; Cha- puis, Gen. Col. X, p. 205; Jacoby 1881, Biol. Centr.- Amer. Col. VI (1), p. 90; Id., 1889, id. Suppl., p. 173; Achard, 1914, Gen. Ins. Wytsman 160, p. 19. Fulcidax Voet, 1806, Cat. Syst. Col. 11, p. 33; Clavareau, 1913, Col. Cat. Junk et Schenk, XXIV (53), p. 222. O gênero Poropleura foi estabelecido, em 1848, por Lacor- daire (p. 863) que, nêle, incluiu as maiores e, talvez, mais belas espécies neotrópicas de Fulcidacídeos; o autor definiu muito bem o gênero e descreveu tôdas as suas espécies, até hoje ("), conhi- (®) Frcspctto nuova Div. Mct. Coccus, p. 7 - segundo Lepage, 1938, Catálogo dos Coccídeos do Brasil (Hómoptera - Coccoidea), in Rev. Mus. Paul. XXII 1, p. 403. ( 10 ) “D:e Gattung Diaspsis Lac. 1S48 ist homonym zur der bekannten Schildlausgattniig Diaspsis Costa 182S u. 1836, nuiss also neu benannt wcrden. Ich schlage zu Eliren der Entdeckcrm der Larve den Namen Skwarraia nom. rov. ver” (p. 9). O 1 ) Em trabalho anterior — Papéis Avulsos Dep. Zool., 4, 1944, p. 95, — propuzemos a revalidação de I'. violaccus ( Ivlug) , espécie considerada, por Lacordaire, idêntica a F. cuprcus (Klug). cm SciELO 10 11 12 13 14 15 21, S PAPÉIS AVULSOS , Yol. IV — N." 15 ci das. Infelizmente, já em 1906, Voet ( 12 ) descrevera a espécie Fulcidax azarais — em diagnose inaproveitável, não fôra a gra- vura anexada à mesma — que os autores, posteriormente, coloca- ram na sinonímia de F. monstrosus (F.). Fulcidax prevalece, pois, em relação a Poropleura. NOMES ESPECÍFICOS Artliroclilainys exasperata (Klug, 1 824) Chlamys exarata Klug (nec Kollar), 1824, Ent. Mon., p. 141, t. 9, f. 11. Chlamys exaspeipta Klug, 1824, Ent. Mon., p. 239 (nom. nov.); Lacordaire, 1848, Mon. Phyt. II, p. 743; Clava- reau, 1913, Col. Junk et Schenk, XXIV (53), p. 213 (Lac.); Achard, 1914, Gen. Ins. Wytsman 160, p. 8 (Lac.). Arthroclilumys inaeulosa (Klu g. 1824) Chlamys macalata Klug (nec Kollar), 1824, Ent. Mon., p. 147, t. X, f. 4. Chlamys macidosa Klug, 1824, Ent. Mon., p. 239 (nom. nov.). Chlamys gratiosa Lacordaire, 1848, Mon. Pliyt. II, p. 762; Ci.avareau, 1913, Col. Cat. Junk et Schenk. XXIV (53), p. 214; Achard, 1914, Gen. Ins. Wytsman 160, p. 10. Segundo informações do próprio Klug (p. 239), já estavam impressas as suas “Entomologische Monographien” quando co- nheceu a “Monographia Chlamydum” de Kollar (1824); aquele autor teve então o cuidado de juntar um apêndice ao gênero CHLAMYS, em que fixa sinonímias e propõe novos nomes ( 13 ) para os homônimos: assimilis (para affinis), exasperatp (para exarata ) e maculosa (para macalata). O 12 ) Catalogus Systematicus Coleopterorum II, 1S06, p. 33, t. 28, f. 1. Achard (p. 19 nota 2) reproduz a diagnose de Voet (“Antennae prope caput laeves, cacterum serratae, quales in Cucujus”), informa que a gravura é :ná mas não lhe assistem razões nomenclaturais aceitáveis para manter, como propõe, o nome de Poropleura. ( 13 ) “Endlich machen noch einige in der Kollarschen Monographie ge- brauchte Henennungen dic Aenderung derselben Namen in der meinigen notli- wendig. Dieses sind : Chi. affinis, p. 115. n. 23. welches in Chi. assimilis umzuáendern, Chi. exarata p. 141. n. 47. wofuer Chi. exasperata zu setzen und Chi. maculata n. 147. n. 62. welche Benennung mit Chi. maculosa zu verstaus- chen wiierde". (p. 239). 2 3 4 SciELO cm 10 11 12 13 14 15 19-VII-1914 — E. Navajas - — Nomenclatura dos Fulcidacídeos 219 0 nome específico assimilis tem sido corretamente atribuído a Klug, pelos autores e colocado, por alguns dêles, na sinonímia de foveolata Knoch. Embora Lacordaire (p. 744) ( 1J ) declare expli- citamente que exasperata é de Klug, Clavareau e Achard atribuem êsse nome àquele autor. Já o nome maculosa, sem motivo ponderá- vel, foi posto de lado, pelo autor da Monograpbie des Phytopha- ges (p. 762) ( 13 ) a favor de gratiosa que não pode prevalecer. ABSTRACT Some misnamings (in Fulcidacidcte) are reviewed; a íew amendments are also made. riie following nanies are to be retained as correct: Fulcida- cidae Brues & Melander (?), 1932 [ = Chlamydidae Jacoby, 1881); Arthrochlamys Ih. & Ih., 1904 (1905) [= Chlamys Knoch, 180' (nec Bolten or Roeding ?, 1798)]; Diplacaspis Jacobson, 1924 [= Diaspis Lac., 1848 (nec Costa, 1828) = Skwarraia v. Emden, 1932]; Fulcidax Voet, 1806 [— Poropleura Lac., 1848]; Ar- throchlamys maculosa (Klug, 1824) [= A. gratiosa (Lac. 1848)]; .4. exasperata is referred to Klug and not to Lacordaire. Attention is called to the fact the gentis Chlamys (in Mol- lusks) is commonly referred to Bolten instead of Roeding as sug- gested by Laboissière. BIBLIOGRAFIA Achard, J. — 1914 - Coleoptera Phytophaga, Fam. Chrysomeli- dae, Subfam. Chlamydinae & Sphaerocharinae - in Wytsman, Genera Insectorum, fase. 160. Brues, C. T.