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UNIVERSITY OF TORONTO

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Ralph G. Stanton

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ODARTÂPARTE

DA mSTOEIA

DE S. DOMINGOS

PARTICULAR DO REIXO E CONQUISTAS DE PORTUGAL

OFFERECIDA

A AUCÍtJiíTA JIA«ESTA1>E I>*£I.-R£I

DOM JOÃO V

POR

FR. LUCAS DE SANTA CATHARINA

CimOMSTA DA OUDEM DOS PREGADORES, E ACADÉMICO DA ACADEMIA REAL

TERCEIRA EDIÇÃO

VOLUME V

LISBOA

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OIJÂRTA PARTE

DA

fflSTORIA DE S. DOMINGOS

QIARTÂ PARTE M HISTORIA

DE S. DOMINGOS

PARTICULAR DO REINO E CONQUISTAS DE PORTUGAL

OFFERECIDA

A AUdUliTA IIACÍEIITADE D'EL.-REI

DOM JOÃO V

POR

FR. LUCAS DE SANTA CATHARINA

CURONISTA DA ORDEM DOS PREGADORES, E ACADÉMICO DA ACADEMIA REAL

TERCEIRA EDIÇÃO

VOLUME V

LISBOA TYP, DO PAN0RA3IA—M3Í do Arco do Bandeira, 112.

M DCCC LXVÍ,

hKNMOR

Em tempo, om que a incomparável grandeza do Y. Magestade eriiiio aquella preclara Ofíicina da Verdade, em que se vâo lavrando, ou polin- do as Estatuas da gloria Portugueza, divida he que se lhe tributem aquellas, que também entrao a lazer numero com as obrigadas ; porque se a estas (para exemplares da posteridade) a virtude lhes lavrou os Templos, agora lhes manda a generosa, e Regia direcção de V. Mages- tade renovar os Cultos.

São estas (já immortaes, como gloriosas Estatuas) os fdhos d'aquelle eximio Patriarca S. Domingos de Gusmão (esclarecido consanguíneo de V. Magestade) que de Antagonistas da observância, e Oráculos da scien- cia, passarão a brilhar E^trellas no Firmamento da immortalidade, de- pois que luzirão tochas nas atalaias da Virtude. E se estes, que ou o Mundo escutou Sábios, ou a veneração testimunhou Justos, são os que também a Coroa de Portugal reconheceo vassallos, não desconhecerá V. Magestade as razues de lhes permittir o seu Pio, Catholico, e Real pa- trocínio; nem elles se esquecerão de agradecer o buscar-lhes eu o mais soberano, negoceando com Deos que o perpetue ditoso. O Ceo dilate a V. Magestade a vida, e prospere seu Real estado para gloria de seus Reinos, e premio de seus vassallos.

Fr. Lucas de Santa Calharina.

PROTESTO 1>0 Al TlIOn

Conformando-me com os Decretos Pontificios, sobre esta matéria, que aqui escrevo, protesto, que tudo o que digo de milagres, revela- ções, títulos de santidade, mercês, e favores de Deos, não intento que tenlmo mais credito, e verdade, que a das pessoas, e papeis, de que o tomei ; qxcepto o que esti} recebido, p approvado pela Santa Ca-

Pr, liUca-^ (Ic Santa Cqtharina.

PROLOGO

Á OBRA E AO LEITOR

O maior emprego, a que a vaidade dos homens consagrou todos os desvelos da sua ambição, foi sempre aquella industria de se restituirem â posteridade na segunda vida da memoria ; para isso cortarão os jas- pes, polirão os bronzes, escolherão os cedros, em que tornassem a avul- tar em o grande theatro do Mundo, emendando o caduco das cinzas na artificiosa transmigração das estatuas.

Espalhada vive esta verdade na divina, como na humana Historia, sendo os primeiros, que infaustamente cubicarão esta industriosa vida vaidade posthuma !) aquclles, que com espirito soberbo, desconhecen- do a distancia da terra ao Ceo, querião que huma desmedida torre os com- merciasse com a Divindade (1). Parou no ar a fabrica, porque d'ahi não passara a ideia. Começou a confusão das linguas a ser mordaça da blas- fémia, sem que se lograsse d'aquella fadiga mais, que o desengano de que fora aérea.

Desvelou-se Âbsalam vaidoso, fabricando o iltustre, e triunfal Ceno- tafio, em que se perpetuasse o seu nome aos assombros da posteridade; sem advertir, que nem o magnifico o livrava de sepulchro, arquivo do esquecimento (2). Hercules, que (sogeita a maior parte do Mundo) fazendo Templo de toda a Africa, lhe levantou aquellas duas columnas, a que consagrou a fama as suas duas azas(3). Semiramis, que levantando os mu- ros ao prodigio da Assiria, parece que quiz mostrar, que para o ma- gestoso do seu espirito, ImmaBabylonia podia ser Palácio (4). Artemisa, que lavrando o milagre da Grécia, para Regia urna das cinzas de seu esposo(5), assim estendeo a fabrica a conselhos da grandeza, que se não distinguio, se quiz eternizar a sua magoa, ou a sua soberba.

Os Reis da Africa, que em supersticioso culto authorisarão aquelle grande Templo de Diana (G), gloria de Efeso, e extraordinária maravilha do

(1) Vcnite facianius nobis turrim, cujus culmen pertingnt ad C«lura, et celcbremus nonien

nostrum. (jencs. li. (2) Samuelií i. Qui \ivens sioi moiiunientuni perpotuitalis constilucril.

(3j Walueii Lic (4) Volalc in l»liil;log 1.33. (lij DiodorusSicul {Gj Plinius 1. 36. c. 14.

VIII

Mundo, multiplicando com generoso, e nunca assas pesado dispêndio, nunca bem encarecido artificio, o non phis vUra em cento e vinte co- lumnas, levantadas atalayas, em que descançasse a soberba de sua Co- roa, e de que se descobrisse o espaçoso districto de sua fama.

Cyro, Rei dos Medos, lavrando hum Palácio em que o jaspe, e o ouro escurecerião a arquitectura á mesma obra, a não ser igual prodígio a arquitectura. Os Egypcios, erigindo suas celebradas Pyramides, talvez Altares consagrados ao fogo, a quem levantadas, e agudas servião de retrato e de sacrifício. Trabalho, que illustrando a Memphis, e assom- J)rando o Nilo, foi occupa.ção desempenhada por sessenta mil homens em espaço de vinte annos ; mas empenho tão filho da desvanecida so- I)erba de seus Authores, que castigado do Ceo em perpetuo esquecimento, aíé a seus nomes ficou tanta maquina servindo de sepulchro, sem lo- grarem n'elle os interesses de epitaphio(l).

Finalmente a vaidade ambiciosa dos que inventarão, e erigirão os

Obeliscos, que ennobrecerão a lícliopolis, multiplicando as grandezas a

Alexandria, e passando a coroar os prodiglos de Iloma no Circo Vali-

"cano, onde Nero, e Cayo lograrão memorias a pezar do tempo, porque

contra suas injurias se apostarão as Historias.

Assim se desvelou na humana natureza a cubica da fama, mas tão pouco afortunada, que não lhe valendo as cautelas dos bronzes e dos mármores, triunfou finalmente o tempo das mais duráveis, e agiganta- das torres, em que a industria dos soberbos se quiz guarnecer contra a continua bataria-dos annos. o artificio da peniia eternizou incontras- lavel os assumptos, a que quiz dar vida. Se não, veja-se qual he a d'es- sas cabidas estatuas, e espalhadas cinzas, mais que o espirito, que em hum papel foi eternizando o prelo, a cujas vozes mudas vão escutando os séculos as mais affastadas memorias.

Esta a valentia, com que os Escritores tríunfão da injuria das idades, não so devendo menos á fadiga de suas pennas, que pouparem aos ho- mens aquGiIa discreta magoa de não terem nascido a lograr as passadas experiências do tempo, em que nem toda a imperceptiv^l velocidade de sua carreira basta a esconder os successos, íiados á penna, que os (!SColhe assumptos.

Que baldados os desvelos, os dispêndios, os artifícios, os simulacros a que a vaidade fiou o pregão de suas cinzas, a não ser o espirito da Jlistoria, alma, com que tornão a viver as idades! Essa a utilidade da Historia, a que os homens devião destinar todas as posses de seu enge- nho para escrevel-as, como todos os entendidos as de sua aplicação para lepassal-as. Mas he lastima, que o suor, que a penna oíTerece ao estu- do, o tenha tomado por sua conta a censura; estando hoje tão praticado este vicio, quo ha necedade, que se resolve a censurar, sem mais ca- bedal, qúc o saber ler. D'aqui nasce o encolher-se a prudência entre os

(1) Oblilcralis tanlra vaniíalis aulonhuí;. Plini-is 1. 36. cap. 3?5.

IX

limites da desconfiancn, e perderem as idades o tliesoiiro das noticias, despendido por aqnellas pennas, em qne se poderá pesar o que a nossa lingna tem de grave, de eloquente, de expressiva, c de própria. Mas está tão tratavel o querer saber emendar quem nem sabe aprender, que mais fácil será darem os Authores em affoutos, que esperar os néscios emendados.

Se he digna de estimação a empreza do escrever com os ameaços de nâo agradar, o animo de perpetuar noticias, sem a ambição de que- rer compelir elegâncias, nâo proponho aos políticos Leitores outra va- lia, para que olhando para os motivos do meu trabalho, deixem passar as quebras do estylo, em que ainda nâo assentou a escolha, por ser o Tribunal da censura tão publico, que se contâo os Juizes pelos Leitores, sobre entrar a votar o gosto de mistura com o juizo.

Quer a Historia estylo corrente, como íilha da verdade ; mas não hu- milde, como mestra da vida ; e he diíTicil de conciliar a circumspecção de quem ensina, com a ligeireza de quem conta. Deve ser a Historia, verdadeira, clara, breve, e elegante. Estas são as qualro qualidades, que animão o racional corpo da sua escritura. Mas sendo, no entender de todos, o conciso, e o verdadeiro, vencível difliculdade ao trabalho, e ao artificio, a clareza, e a elegância me parecem as estreitas Pleidas, na esfera da Historia difficilmente juntas ; sendo muitas vezes o composto, e o escolhido das palavras, o dobrado, e o medido das orações, o que vai dilatando os períodos, a perigar entre o Scylla, e Charibdis de en- fadonhos, ou de confusos.

Nem a nimia clareza ha de desnaturalizar a suave adulação da Rhe- thorica, sendo esta discreta negaça o melhor desfastio da leitura. Os li- vros nâo se escrevem para os néscios; os entendidos nâo se canção nos reparos. Nenhum homem he feito para todos. Para contentar gostos, não basta desempenhar acertos. Escuras são talvez as parábolas ; não desmerecerão por isso tomal-as o mesmo Christo (i) por argumento de ver- dades, que propunha aos rudes ; resolvendo, que as comprehendesse quem podesse (2). O Escritor não ha de perder as licenças da Historia com o receio de peregrinar a ignorância. Quem não chegar a entender, reco- nheça o achaque em sua casa; que a Historia pode dar luz, mas não vista.

Sem perder d'ella estas advertências, me animo a pegar na pena, fiando á fortuna os logros, a que não alcançar a diligencia; que não ca- bem todos os acertos na jurisdicção da escolha. Os Varões notáveis da minha Religião Sagrada, e ihustres filhos d^esta Provinda de Portugal, são o assumpto do meu emprego ; e havendo n'elles muito, que ponde- rar, he precisa grande advertência para que a narração não se alargue a panegyrico, ou rompendo as leis da Historia, ou propondo a verdade en- carecida.

[\) Sine paiabolis non loquebatur eis. Malth. 2i. (2) Quis potcst capcre ca|iiat. Idem

Assumpto grande! Empreza difficil! Peso incomportável! Ainda aos liombros dos Tácitos, dos Lúcios, e dos Livios, Atlantes, em que des- cançou a elegante maquina da Historia, com aquella ventura, que ainda hoje justiíica a singularidade, e desengana a imitação. Grande, diíficil, c incomportável ao débil, ao curto vòo de huma penna, a primeira vez aparada para correr a grande esfera das Estrellas de Domingos, Varões lllustres, em que a sua estampou reflexos, e logrou influxos tâo sagra- damente desempenhados, que passando ao eterno Firmam.ento da Igreja, servem hoje de seguros nortes á mais considerada observação da vida.

Ficção foi gentílica, elegância poética, que, gemendo com a nobre carga da esfera celeste, de hum hombro a outro aliviava Atlante o gran- de peso. Ornava-se de estrellas o desmedido globo. Tudo cantou Yirgi- iio. jEneis. lie. VI.

ubi CcBlifer Atlas

Arem humero torquet stellis ardentibus aptum.

Iluma esfera gloriosamente ornada de estrellas cança oshombrosao maior Atlante ; e como se não recearão opprimidos os que reconhecem em minha Religião Sagrada melhor esfera, em que seus íilhos são luzi- das estrellas, doutrinadas d'aquella, que em meu illustre Patriarca ma- drugou a ser aurora de sua vida, como se os lustrosos jeroglificos de seu illustre. sangue lha emprestarão para portentoso phenomeno de sua virtude, ou presagio feliz da Familia, que promettia á posteridade.

E se he preceito Evangélico, que se não escondão as luzes doutri- nadas d'elle, venturosa obediência a de descobrir aos olhos de todos as que de Domingos herdarão seus filhos, oíferecidas ás imitações, ou aos assombros. Este he o meu desvelo, e o meu asumpto. Quando estes são tão sobidos, a maior parte do emprego se fia aos desejos; sempre os fará ditosos a resolução, quando não os acertos. O desengano, e desin- teresse, consultados ambos com o meu curto talento, não hão de can- çar os Leitores com a antiga hypocrisia de lhe pedir, ou lisongear a censura ; que quem protesta escrever verdades despidas de novo artifi- cio, desconhece os caminhos de grangear applauso.

A ninguém deixou esperanças de os merecer (como justificado acré- dor de todos) o grande Chronista o Padre Fr. Luiz de Sousa, a cujo desvelo, e inconsideravel trabalho se deverão descubertos, com lanta fi- delidade de perdidas noticias, e felicidade de históricas elegâncias, os grandes successos d'esta Província até o anno de iG14, em que glorio- samente triunfadora de embaraços, c coroada de acertos, poderá acres- centar ás azas da fama aquella penna, em que eternamente voara o seu nome, a não ser divida o pendural-a no seu Templo, como reconheci- do milagre.

O que nos resta (desde o anno em que findou a terceira Parte da

XI

Clironica doesta Província, om que comprehendeo até a ultima notabili- dade d^ella) he recolher as noticias de alguns filhos seus, espalhadas po- ios Conventos, ou, para melhor dizer, sepultadas n^elles, nâo tanto â pensão de largos annos,ou culpáveis descuidos, como a cuidados, e cau- telas da modéstia religiosa, ou magnanimidade Portugueza ; tâo natuPt-íl sempre em huma, e outra, o obrar acções dignas de ser escritas, como o buscar caminhos para as esconder obradas. Este he (Leitor) o assump- to, que te proponho. Le a teu gosto ; mas lembro-te que este género de escritura encaminha-se antes ao exemplo, que á delicia ; e será cul- pável, que a attenção, que te havia de dever a doutrina, te leve a cen- sura.

Nâo ignoro que n'este ultimo periodo era próprio o lembrar, e pro- por aos claros, e beneméritos fdhos d'esta Província, as glorias, que, á imitação de seus primeiros pais, devião lavrar para seu credito na reli- giosa officina de seu Sagrado Instituto : mas devendo eu entender, que me era precisa huma penna, em que os rasgos passassem a ser voos, forçosamente me accommodava com o pezar de não poder expender co- mo elogios os que de algum modo soube predicamentar como succes- sos. Porém foi alta providencia de maior fortuna o descobrir o elegante epitome, em que o Reverendíssimo Padre Mestre Carlos António Cas- nedi da Companhia de Jesus, Oráculo da Sciencia sagrada (como o tes- temunha a sua CrUis Tlieolof/icd), Cicero Religioso (como o mostra esto Epitome Panegyrico), a conhecer ao Mundo, e perpetua nos Fastos da Ghristandade, o triunfimte. e glorioso Triduo, com que a sua Casa Professa de S. Roque celebrou a beatificação do Beato João Francisco Regis: porque expondo o dia, em que oíUciou a Communidade dos Religiosos de S. Domingos de Lisboa, e espalhando cm toda a Religião o melho- rado cofre de Amallhéa de sua erudição profunda, e florida elegância ; sendo o seu bem meditado emprego o ponderar aquelia devida atten- ção, com que a Ordem dos Pregadores teve sempre por singular, e ge- nerosa empreza o reconhecer, venerar, e promover as glorias dos es- clarecidos filhos do grande Ignacio, que podia eu escollier para elogio da mesma Religião Dominicana (especial esta Província Portugueza) se- não o saber a mesma Província reconhecer, na esclarecida Religião da Companhia, tão alto Instituto, e conservar com cila tão estimável com- mercio ; empenhando-se (para seu maior credito) em a venerar benemé- rita, e a merecer affectuosa. As clausulas do epitome (que hão de acre- ditar a minha escolha, e servir de imraortal gloria a esta Província Do- minicana) são as sefiiuintes.

D'

Coronidem soleinuissimo Triduo statuit florentissima, omnis safientice, et heroicarum odore virtutum, suorumquemysteriorumrosis, annuente Em- pyreOy coronata Patrum Prosdicatorwn Religio, non tantum uhi Deus sei- fur, sed et uhi nescitnr Orbi toti notissima ; cujus Filii Protoparentissui

XII

Dominici Incem mmulantes, facem pro lingua, ignem pro você spímnt. Convenit sub secundce diei Ve^peram, prceennte Crucis trophceo, populosum Palrum Proidicatorum agmen. Celebratce á Rever endissimo Patre Provin- ciali Fratre Dominico d Sancto Thoma, viro omnibus numeris absoluto, qui mitissima animi sui Índole, et áurea morum suavitate, de suis, et de exteris omnibus, prcecipue de nóstra Societate religiose triumphat ; celebra- tce, inquam, máximo cum apparalu, assistentibus sex gravioribus sui coe- tus Patribus, ornatissimo Pluaviali superamicUs, primai Vesperce, quibus absolutis, fervidissimw Canicuke ignes pro nihilo habentes^ et ab aspérri- mo excelsi coliis nscensu, et descensu minime territi, sexies intra viginti horaruni spatium idem iter, latrante Canicula, suscepere.

Praílcr festivos ceris campani, tum in Patrum Dominicanorum, tum, quod magis mirandum est, in inclytaram excelsi hujus Instituli Sancti Mo- nialium Conventibus iteratos fragores, expositi ante utrorumque Ccenobia na- tnrales, et jactoti ante Templorum fores, per noctis tenebras arlificiales ab amicis ignes.

Cantata postremo die ab eodem laudatissimo Patre Provinciali, piíssi- ma ostentatione, 3fissa, et repelitoe secundce Véspera;, post quas ínstituta solemnis per Urbis plateas processio, in qua inter PP. Prcsdicatores^ et nostros urbana humilitate certatum^ rennentibus illis digniorem, iit par ernt, conantíbus nostris, ut ratio exigebat, inferiorem locum occtipare ; cer- tamen d charitate, quoe omnia nnit, defuiitum; ita enim utrique comisce- bantur, ut, nisi candor liabitus nos proderet, igaorari plane posset, uter Dominicnnus , uter Jesuíta foret.

Delata per longos viarmn tractus Beatí Joannis Francisci S tatua, suc^ colantibns pies sarcinw duobus ex Sanctissimm Trinitatis Patribus, et duo- bus nostris. Tandem Christus Dominus, qui omnium Alpha, et Omegaest, numerosíR, ob multiplicem aliorum Religiosorum, prwcipue Trinitariorum, concursum Processionis agmen clausit, sustentantibus Baldachínum octo Pa- tribus Dominicanis, Pluviali ornatis, et deferente Sacrum Dívince Encha- ristia; pignus Reverendíssimo eorumdem Patre Provinciali.

Oravit sub Sacrum (nequid splendoris deesset Ulyssiponensis Conven- tus) Reverendíssimus Prior, Doctor Frater^Antonius á Sacramento. Ut pro re loquereiur, totus Ponti fieis Beatificationis Brevi institit ; et quidem tam inenarrabilí plaitsu, ut, sicut nefas est dubitare, quin Breve fuerit á Cle- mente Xí. Spirilu Sancto conccssum, ita dementatie temeritatis réus haben- diis foret, qui Concionatorem speciali Spiritus Sancti assistentia munitam negarei. Etenim Ulyssiponenses contincre se non potuerunt, quin quater saltem condonantem Concionatorem ínterrumperent, eumque inusitatis lau- dibus hl Coílum ferrent.

Hoec simplici, et pedestri veritatis stgto superesset modo, vel gloriosí hujus Ordtnis exumlunlem obsequlorum in nos excessum ; vel nostrorum erga eumdem indelebilemgrali animi observantiam expendere. Primum bre- viuscula apostrophc. nllrrum taciturna admiratione expediam.

XIII

Favistis, Religiosissimi Paires^ (tique pmcipue Ueverendissime Pro- tincialis ; favistis, inquam, et sine meta Societati favistis ; nobísque fa- vendo, vobis ipsis favistis^ Nam vigientem, primis sub annis, Societatem vestrcB sapientw uberibus, multiplici in Unicersitate laclastis. Vos eam in Tridenlino Concilio totis viribus promovistis. Vos mirabilem exerci tioruni librum á mordacibus linguis volo vesiro ilhusum servastís. Vos Divum Ignatium contumeliose ^ et durisúme vexatum vestris in Clanstris perhuma- niter tractastis. Vos Collegia in Lusitânia, et índis, pródiga manu sump- tibus vestris erexistis. In vobis magna illa vestronim Herorum nomina, Venerabilis Archiepiscopus Bracharensis, Frater Bartliolomceus d Marty- oibus, et ccleberrimus sanctitate, et sapientia Ludovicus Granatensis (ne a Lusitânia receiam) quo conatu dilatationem Societatis promoverint^ in omnium mente, et ore versatum: et ita quídem, iit eosdem in hodierna fes- tivitate revixisse credendum sit. Favistis igítur supra moduni Societati, at Societati vestrce ; ita enim vestra est, «í, si vestr<i, vos colendo, et ho- norando non sit, Societas nun sit. Niliil igitur mirum, si favendo exces- sistis. Nemo enim secum ipso avarus (1).

Esta a narração elegante, e authorisado apostrophe, com que aquella áurea penna da doutíssima, preclara, e florentissima Companhia de Je- sus, quiz condecorar a Religião Dominicana, especialmente esta sua Pro- vinda Portugueza ; e he este reconhecimento tão estimável, e decoroso para ella, que o escrevo no Prefacio dos heróicos progressos de seus il- lustres filhos, querendo perpetuar-lhes n'esta lembrança a mais gloriosa coroa.

(1) Efita memoria pancgyrica deixou escrita o Revcrendissimo Meslrc Casnedi na sua Cri- sis Theologica, tom. 5. disp/lO. scct. 5. §. 2. p. 228.

LICENÇAS

DA ORDEM

Censura do J/. I\. P. M. em Theologia, Fr. Pedro Monteiro, Pregador do Serenissimo Senhor Infante D. Francisco, Consultor do Santo O/fi- cio. Examinador Stjnodal do Arcebispado de Lisboa Oriental, das Igre- jas do Infantado, e das do grande Priorado do Crato, e Académico da Academia Meai.

Manda-me V. P. M. R. que veja a Chronica, qiie compoz o Reveren- díssimo Padre Fr. Lucas de Santa Catharina, Ghronista d'esta Provinda, Académico da Academia Real ; favor, de que fiz singular estimação, para ter n'ella que admirar de novo os muitos sugeitos, que n'este ultimo século da Religião ílorecerâo n'ella em virtudes, e letras, porque muitos d'elles forão promovidos a diversas dignidades.

A obra he muitas vezes digna do grande nome do seu Author, gran- geado era muitas, de que tive noticia, por mais que a algumas nâo per- mittio o nome a sua modéstia. Com este conhecimento esperava o acerto, com que aqui escreve a sua grande capacidade, bem conhecida, e experimentada nas Aulas, e Gollegio Conimbricense, de que foi digno Collegial, satisfazendo as obrigações literárias com aquella exacção, que se pede n'ellas.

Depois se entregou a estudos Sagrados, em que sempre o acharão com a penna na mão. N'ellcs deu ha annos ao prelo a Historia Panegyri- ca da Princeza Santa (com o titulo de Estreita Dominicana) ornada com todo o género de erudição divina, e humana; obra, e parto de hum vas- to estudo ; e n'aquelle género, e no seu estylo incomparável no voto dos eruditos desapaixonados, não n'este Reino, mas em algum estranho.

iNão se esperava menos de hum engenho, em que se faz fácil o es- crever em varias matérias, accomodando-se ao estylo de cada huma, as- sim no Sagrado, como no Politico, e ainda no Poético, com igual (por mais que diíficil) pratica no ponderoso, c no jocoscrio, em que conhe- cendo a impiedade da Critica Nacional, escondeu a sua modéstia, e a sua

I

XV

advertência aos curiosos muitos empregos, em que os bons discursos acbarião nao divertimento, mas documentos.

Das suas occupaçôes estudiosas, e continuas dão agora a estampa alguns aíTectos á Religião, que as conhecem, e as cstimão, a Vida do nosso Grande Pairiarcha S. Domingos (que faltava no idioma Portuguez) e glorias da Ordem, com o titulo de Taumaturgo do Rosário-, obra, que envolve erudição histórica, e predicativa.

Imprime mais o Paníheon Evangélico, com cincoenta, e mais Pane- gyricos Sacros; e podião continuar quatro Imprensas dos papeis, que d'este género andão espalhados por varias mãos, de que sâo tão mal co- nhecidos, como andão confusos, e desfigurados. Sepulta ainda na sua cella a impossibilidade do dispêndio (que lhe nega indevidamente o pre- lo) cinco tomos de varias matérias Predicáveis, Ascéticas, e Panegyricas, que o nome do Author segura dignas da sua luz publica, que talvez lhe nega a fortuna em obsequio da inveja.

Nos empregos Académicos vai dando repetidas provas de que não degenera, antes confirma a grande proporção com os heróicos espíritos, de que ella se compõe ; sendo o seu emprego (em que tem escrito dous livros) matéria a primeira vez exposta no nosso idioma, e não acha- da na nossa Historia ; mas tudo vencerá a applicação laboriosa de quem se sabe adiantar n'ella.

Quem em semelhantes empregos não professa noticias, mas pra- tica experiências, e a quem nem os muitos annos d'esta pratica enfra- quecem a penna, não podia deixar de satisfazer com toda a exacção (as- sim na verdade fielmente historiada, como no estylo verdadeiramente histórico) as Memorias doesta Provinda, para gloria do seu, e nosso Grande Patriarcha, e dos heróicos filhos, que i Ilustrou n"ella. Assim me parece a obra tão digna da estampa, como o Author da gloria, que se lhe seguirá d'esta imprensa. Este he o meu parecer. Vossa P. M. R. or- denará o que for servido. S. Domingos de Lisboa Occidental, em 2 de Maio de 1732.

Fr. Pedro Monteiro.

Fr. Christovão de Santo Thomaz, Mestre em Santa Theologia, Con- sultor do Santo Ofíicio, e Prior Provincial da Ordem dos Pregadores ii'estes Reinos de Portugal, pela presente damos hcença ao Padre Fr. Lucas de Santa Catharina, Ghronista d'esta Provinda, para que possa imprimir a Quarta Parte da Historia d'ella, visto estar revista, e appro- vada pelos Padres Mestres da Ordem. S. Domingos de Lisboa Occiden- tal, IO de Maio de 1732.

Fr. Christovão de Santo Thomaz^ Vigário Geral,

XVI

DO SANTO OEFICIO

Censura M. It. P. M. Fr. Aloaro Pimentel, Qualificador do Santo OfficiOf etc.

111.™° e Rev.'"^ Sr.

Revi a Quarta Parle da Historia S. Domingos, particular do liei- no, e Conquistas de Portugal, composta pelo Ueverendissimo Padre Mes- tre Fr. Lucas de Santa Catliarina, da Ordem dos Pregadores, seu Cliro- iiista ; e acho n'ella muito que admirar, assim no estylo próprio da His- toria, como na matéria de que trata, pois em qualquer vida dos Religio- sos, que conta, se descobre hum exemplar da perfeição, do zelo de Deos, e Santa Fé, sem que o Author tropece contra ella, ou offenda aos bons costumes : pelo que a julgo por muito digna de se dar ao prelo. Vossa Illustrissima fará o que for mais acertado. Lisboa no Convento de Nos- sa Senhora da Graça, 20 de Setembro de 1708.

O Mestre Fr. Álvaro Pimentel,

Censura do 3L R. P. M. Fr. Miguel da Resurreição. Qualificador do Santo Officio, ele.

111.'"^ e Rev.™° Sr-

Manda-me Vossa Illastrissima, que o meu parecer sobre se ha- ver de imprimir, e sahir á luz a Quarta Parte da Historia de meu Pa- triarcha S. Domingos^ particular do Reino de Portugal, composta pelo Muito Reverendo Padre Mestre Fr. Lucas de Santa Catliarina, da Ordem dos Pregadores, e seu Chronista : e obedecendo, digo o que entendo, e me parece que não tem cousa alguma contra a pureza de nossa Santa Fé, nem contra os bons costumes ; antes muitos, e vários exemplos de veneráveis Padres, e Religiosas, que assim como podem prestar au- gmento á imitação da vida mais reformada, assim também podem servir de credito á veneração da Religião Catholica, e de tão illustre Famiha, em que o Author entra com huma grande parte pela elegância, com que os escreve, e exprime : e aqui não digo tudo o que sinto, porque as leis da Censura não permittem os panegy ricos, que merece a sua erudição. Vossa Illustrissima mandará o que for servido. Santa Clara de Lisboa, 29 de Janeiro de 1709.

Fr. Miguel da Resurreição.

XVII

Vistns as iiiforRinçôcs, podc-se imprimir a Qnm-la Parle da Historia Dominicana, de (luo ti'ata esta petição ; e impressa tornará para se con- ferir, e dar liconra para que corra, e sem ella não correrá. Lisboa, ^ÍJ de Janeiro de 1701). . V-

Carneiro. Moniz. liasse. Monleiro. lUbciro.

fíochn. Fr. Encarnarão. Barreio.

DO OUDINAHÍO

Póde-se imprimir a Quarta Parte tia lífstnria Dominicana, visla a li- cença do Santo Oiíicio; e de[)ois de impressa t(.>rne para se conferir, e i\i\v licença para correr, e sem isso não coi'rerá. Lisijoa, IO de Abril ile 170Í).

Bisi)o de Tcgaste.

DO PAÇO

Censura do M. It. P. M. Fr. Mif/nrl d*' Santa jlirria, Acndennco da Acailemia lical. ele.

SIlMIOR

Li a Quarta Parle da Historia de $. í)omlní/os, parlic.nlar dos Iicin<>s de Vossa Magestade, Anilior o Muito Keverendo }*adi'e Aiesti'eFi\ Lucas (a* vSanIa CalhariiiM, Chrofusta da Ordein d*a(íuelle Santíssimo l^alriaiclia : é tendo lido as três piimeiras. que compoz o insigne ('.hronista Fi*. Lui/. de Sousa, me parece que o Padre Mestre Lr. Lucas em nada lhe lie in- ferior, mais que esn ilorecer depois, como de Cicero, comparado com Demostlienes, disse a sabia antiguidade; certeza de que lie vivo exent- pio esla (juai'ta I^ule, composta com eslylo tão casto, tão elegante, tun j)roporcionado ás matei'ias de que trata, e tâo verdadeiro, que vimos nós com os nossos olhos muito do que escreve aqui, e illustra a sua l^enna ; podendo quahjuer Leitor de ambos, dizer sem lisonja de huiii. e sem offensa de outro, que não iie mais para admirar o princi[)io. e piogresso da Historia Dominicana Poilugueza, na primeira, segunda, c, ti'rceira Parte, que o seu íim, e coroa na quai'ta, como a outro iníenlo disse IMinio o segundo: Inilinrn, et yrogressnm laboris niirer, aii jhivru ? O padre Fr. Luiz começou, e proseguio com tanto acerto, que meriíis-

VOL. V 2

XVHl

.simamente logra o applaiiso, do que até agora nenhum Historiador lhe tirou da mão a palma ; mas se huma o pode ser de duas mãos, não recusaria o Padre Fr. Luiz a do l*adre Mestre Fr. Lucas, que por llie ser igual no trabalho, na verdade, no engenho, na erudição, e no estylo, he razão que lhe seja companlieiro no triunfo : e não será injuria ainda o preferir esta Quarta Parte ás três primeiras; porque a Ilistoria he como a vida, cuja períbição não está tanto em começar, e proseguir bem, como em acabar bem: que por isso Cicero coroou a eloquência dos Ailionienses, dizendo, que a aperfeiçoarão depois de a inventarem: In (jiiibus ffumma dicendi vis et inventa est, et per feda.

Pelo que toca ao argumento da 0!)ra, contem esta Quarta Parte mui- tos Religiosos, e Keligiosas. illustrissimos lleroes em santidade, em le- tras, em dignidades, e em nobreza de sangue, os quaes adequadamente corresponderão, e desempenharão os merecidos encómios, com que gra- víssimos Escritores, e, o que mais he, os Summos l*ontiílces honrarão a preclarissima Ordem dos Pregadores, intilulando-os Defensores invictos da Catholica, verdadeiras luzes do Mundo, fidelíssimos Ministros de Christo, fortalezas incontrastaveis da Igreja, e radiantes illustraçôes de todas as gentes : conservando os íilhos d'esta Província, de quem com tanta modéstia faz a Chronica presente, a piedade, erudição, e zelo de seus predecessores, e crescendo cada vez mais nas honras, e acclamaçoes dos que sabem distinguir o solido, e verdadeiro do fantástico, e fabulo- so, a pezar da inveja inimiga de tudo o que he excelso, e illustre. Fsle lie o meu parecer, em que, supposto o acerto do Author, e nobreza da matéria, não pode deixar de ser elogio a censura: pelo que julgo esta Obra digníssima da luz publica, e o Author delia merecedor de toda a honra, e mercê, que V. Magestade for servido fazer-llie, como tão bene- mérito, não da sua Religião, mas da nação Portugueza. No Convento de nossa Sentiora da Graça, 16 de Maio de 1709. '

Fr. Miguel de Santa Maria.

Que se possa imprimir, vistas as licenças do Santo OíTicio, e Ordiná- rio, e depois de imí)ress() tornará á Meza para se taxar, e conferir, e sem isso não correrá. Lisboa, de Maio de 1709.

D. Presidente. 01 ir eira. Lacerda. Botelho,

XIX

DA ACADEMIA REAL

Censura do M. R. P. M. Fr. Miguel de Santa Maria, Académico da Academia Real, ele.

Ex.'"^^ Srs.

Vi o livro, que Vossas Excellencias me mandarão censurar : e send<3 o mesmo, que revi por ordem do Desembargo do Paço no anno de 1709, agora tornei a adiar a grande razão, com que lhe troquei a censura am elogio, devendo ser, no voto dos que melhor entendem da Historia, di- gna de todos esta que o Autlior escreveo para norma de todas. Isto o (jue disse com mais diffusão n'aquella censura, e o que repito nesta, i'emettendo-me ao maior elogio do que (então, como agora) reconheço no Aulhor benemérito da maior honra, como o livro do beneficio da im- prensa. Este he o meu parecer. Vossas Excellencias mandarão o que fo- rem servidos. Nossa Senhora da Graça, em IO de Junho de 1727-

Fr. Miguel de Santa Maria.

O Director, e Censores da Academia Real da Historia Portugueza, dão licença ao Padre Fr. Lucas de Santa Catharina para usar do titulo de Académico n'este livro, vista a approvação do Académico, a quo se comnietteo o seu exame. Lisboa Occidental, 20 de Junho de 1727.

Marquez de Alegrete. D. Manoel Caetano de Sousa. Marquez de Fronteira. Marquez Manoel Telles da Siha.

QUARTA PARTE

HíSTOrJA DE 8. DOMINGOS

íMíliíCrLlR IM) IlEIXO E CONQUISTAS DE POUTWUL.

I.IVRO PRIIIEIRO

Uos Rdifjíosos filhos doesta Provinda^ que florecerão, e acabarão com rejnilaçào de virtude, e leiras.

Saspondoo a pcnna o Padi^o Frei Luiz tle Sousa, grande Chronista d^csla Pmviíicia, deixaiido-a rica com seus escritos, e singularmente autliorisada com a larga, e elegante historia, em que depositou nos Ar- cliivos da posteridade os nomes dos Varões, que a ennobrecerao insi- gne, com a vida; e não menos os das Heligiosas, que nos Claustros Do- minicanos souberão meditar os desenganos delia, e correr por entre os- piniios de moi'tiíicaçôes a abraçar a verdadeira.

A lium, e outro numero tem espíritos, que acrescentar este nosso século, ainda que nos faltasse com a matéria, e assumpto de novas fun- dações, sobre cincoenta e sais, que aponta a nossa historia: resta-nos a do Mosteiro do Sacramento em Lisboa, e a do Convento de Santa Joan- iia da mesma Cidade; a das Religiosas Hibernias do Bom Successo; assim me pareceo repartir esta quarta Parte em quatro classes, ou quatro li- vros. O primeiro tocará aos Religiosos. Ás Religiosas o segundo. O ter- ceiro com es[)eciaridade ao Mosteiro do Sacramento, como aquelle, que ainda nas nossas Chronicas nao entrou a fazer vulto, Benjamim da Pro- víncia, filho da sua ancianidade neste Reino. O quarto, ao Mosteiro do Dom Successo, de Religiosas flibernias, que ainda que peregrino pnra a Província, hospedado em i^ortugal, será razíío, que lhe succeda o mes- mo em a Chronica; e não se queixará o seu merecimento, de que a rjio escolheo para I*atria, lhe veio a servir de sepultura.

Encostar-se-ha a esta escritura a de alguma noticia da Congregaroã

22 LIVRO I DA HISTORIA DE S. DOMINGOS

da índia. Hirao os Religiosos e Religiosas pela antiguidade de suas Ca- sas, não faltando a notícia do que houver de novidade n'ellas, desde o tenapo, que as deixou o Padre Frei Luiz de Sousa, pelos annos de i613 sendo Ministro Geral da Ordem Frei Serafmo Silo Papiense, e Prior Pro- vincial n'esles Reinos Frei Agostinho de Sousa; nâo havia mais novi- dade no estado da Província.

CAPITULO I

De alguns filhos do Convento de Santarém, que deixarão nome, e opinião de virtude.

Nâo podem deixar de correr parelhas a justa queixa do nosso des- cuido, e a matéria, que os grandes espíritos d'esta Província nos derão para destruíl-o, porque o mesmo será irmos descobrindo Varões insi- gnes, que irmos tropeçando na culpável ommissâo das memorias d'elles. Assim será a queixa prologo da notícia.

He a Casa de Santarém o primeiro domicilio, que a Família Domi- nicana teve nâo n'este Reino, mas em toda Ilespanha, berro de sua observância, antes fecunda seara de Santos, que vivenda de recoletos, de que forâo boas testemunhas El-Rei D. AlTonso IV o Bravo, e o piedoso Rei Dom João o II. Nâo promettía menos fruto aquelle cantinho de terra, cultivado pelos Sanctos Fundadores Frei Soeiro Gomes, e Frei Domin- gos do Cabo. Então se fez Casa pequena, como para homens, que amor- talhados a queriâo ter por sepultura. Augmentou-se depois, e com mais largueza, a Igreja; tudo arruinarão os tempos, e tudo reedificou o zelo de bons Prelados; hoje se perfeito e acabado, assim de oíTicinas, como de ornato, e aceio de Templo, verdadeiramente toda a Casa como Palá- cio de Deos, d'onde se hospeda a sua Família, que o louva. Mais anti- gas, e miúdas noticias tem os curiosos na primeira Parte das Chronicas. Passemos aos edifícios espírituaes, que são nossa única importância.

Foi hum d'elles o Padre Fr. António de Sande (Fr. Domingos diz outra noticia, nenhuma certa, a do sobrenome sim, que passará a ser- vir de nome a quem tanto n'estes escritos o merece). Filho he sem du- vida o Padre Sande d'esta Casa, porque sendo conhecida sua virtude, em nenhuma outra se descobrio memoria d'elle, sendo experiência n'esta Província, que Religiosos de semelhante vida sempre vâo servir, e aca-

PARTICULAR DO REINO DE PORTUGAL 23

bal-a nas Casas, onde sao filhos. Nem faça equivocarão o acbar-se na mesma Casa outro Religioso com o mesmo nome, e a mesma, ou quasi circunstancia de morte; ponjue o primeiro Fr. António de Sande, que. tiaz a primeira Parte doesta Chronica, íoi filho da Batalha, íoi aqui Por- teiro, e faleceo no anno de 1612, e o nosso foi aqui Organista, não se lhe sabe de filiação, e faleceo em 1080 pouco mais, como nos affirmavão Religiosos graves em que estava fresca a tradição, único documento, a que logo começamos a recorrer do nosso descuido. De grande Frade, e exacto observante, deixou nome este Padre, não na estreiteza doesta Clausura, mas no respeito, e memoria dos seculares daVilla. Assim so escutarão estas noticias a hum Sacerdote d'ella, pessoa de boa opinião, com que linha acabado pouco tempo antes quft isto escrevêssemos.

Em exercícios de verdadeiro Religioso, notável recolhimento, e amor da Clausura, gastou este Padre grande parte da vida nesta Casa. Era n ella organista, occupação em que servia a Deos desvelado, e gostoso: correspondia a vida á occupação; se n'esta era Anjo, não menos naquella; assi não tinha hora mais gostosa, que a em que hia ajudar os Religio- sos nos louvores Divinos. Pagou-ltie oCeo este gosto com outro mais so- bido.

Yê-se no Templo d'estaCasa de Santarém, no Cruzeiro, da parte do Evangelho, contigua á Capella do Menino Milagroso, a do Santo Christo dos Aílligidos, huma das perfeitas, que tem o Templo; bom reíabolo, em que se abre hum nicho, capaz de recolher o Senhor em o madeiro da Cruz : a estatura de homem, aspecto assim devoto, que juntamente atemoriza, e obriga a respeito. Mostra antiguidade, antes parece ter a da fundação da Casa. Esteve como esquecido na da Sacristia velha, de d on- de a devoção de hum Religioso o tirou para o lugar, que tem agora: no pri- meiro succedeo o que vamos a referir; casos, que sem duvida o ílzerão buscado, com o titulo dos Aílligidos, confirmado cada dia com copiosos milagres, que honrão aquellas Sagradas paredes, e convidão a para os pedir, e os esperar.

Com esta Sagrada Imagem era continuada, e viva a devoção do bom Padre Sande. Passava a todas as horas do Coro a tocar o Órgão, e pondo os joelhos em terra, repetia com espirito humilde, e penitente o Psalmo Miserere, Detinha-se n"esta devoção hum dia, que passava á occupação costumada, quando lhe fere os ouvidos, e o coração huma voz, que sa- bida da Sagrada Imagem, lhe dizia: Prepara-te, porque hoje serás comigo

21 LIVRO I DA HISTOIlíA Dí: S. DOMINT.OS

vo Paraha. Assustado, e alep^re o bom vollio, de ver tao antecipado e seguro o premio de seu pouco trabalho, deixa-se cabir por terra, pondo iTelIa a boca, como recolliido ao centro da sua humildade. se levanta com aivoroço, chega á cella do Prior, começa a pedir-lhe o Viatico, e a Unção, aíílrmando, (jue eslava no ultima dia d(^ sua vida.

Suspendia-se o Prelado, que o via com forças, e inteira saúde; cul- ])ava-lhe a diligencia como delirio. Insta com palavras concertadas, e en- carecidas o bom velho; entra em si o Prelado com a experiência do es- lylo de vida do súbdito, representa se-lhe, i\\m havei'á mysterio, poern- ]\\e preceito, que diga a causa de ifio repentina supplica, e diligencia, leefere o Padre o que lhe succedei'a; e despedinlo-se pelas cellas dos lieligiosos, que o acomj)anha\ão, tanto com lagrimas, como com inveja, jecolliido, e tomando os Sacramentos, com hum admirável socego, pas- sou deste valle de misérias aoPai-aizo, dando a alma nas mãos daquelle Senhor, que í)ara elle o chamara desde a arvore da vi(ta. No Cemitério (venerada hosoedaria das relíquias dos j)rimeiros cultivadores d'es{o Santa terra) tem sepultura, escondendo-se n"ella, assim a certeza de qual seja, como maiores noticias de hu?na vida, que mereceo esta morte.

Não devia ter menos circunstancias a de outro Ueligioso. com quem o mesmo Senhor usou a mesma piedade, mas com particularidade gí'aí!- (te. Não achamos a do nome do Ueligioso, pi'ocurado com incançavel, e ])erJida diligenc!.a. Uelalemos a tradição. Sendo este Padie ainda Noviço, e de pouco tempo passado das li!)erdades, e delicias do Mmido áquelle estreito modo de vida, em que a Religião cosiunia provar a constância de quem a abraça, pareceo-liie duro caminho, fácil a execução de dei- xal-o, com:) quem não tinlia até então mais carcei"eiro, que o ^ou gosto. Kesolvia-se iiuma noite a romper este pequeno eml)araço, e chegando a lazer oração á Imagem Sagrada, de que era devoto, quando ouve clara e distinctamente, qsie lhe reprehendia a temeridade, e o exliorlava a abraçar sofiido os rigores da vida, que escolhera: mas era tal o melai da voz, tal o affecío com que se ex[)rimia, que não duvidou o Noviço, (jue o Senhor o repi-ehendia, nã.» com vozes, também com lagrimas, naquelle madeiro, em (|ue lhe devera o mesmo extremo todo o gé- nero humano (l).

Não quiz o Senhor, que .ficasse este excesso sem teslemunlia ; na face direita se lhe íicou divisando, e hoje se llie divisa a nódoa, e a

(Ij Cum cliiiiiore valido, cl lacrymií cxaiulilus e?t Ad Ilebiioos 11 7.

PARTICULAR DO RKIXO DK POUTl GAL 20

própria estampa do linma laj^rima. Louvada soja iníifíitameiíle sua clc- luoQcia tão pa^a do ser liboi-al com riosco, que nos deixa testemunhadas as finezas, como se fizera l)razão d'ellas! Mas grande confusão para as nossas rebeldias, não nos melhorai em a^n^adecidos tão nobres teslemu- n!ias. Assim abalarão o coração do Noviço ja venturoso a reprehensâo, o conselho, (pie abraçou desde alli, c continuou huma vida, como o pi'0- inellia o Conselheiro delia, professando, vivendo, e morrendo no habito aijida que se ignora a Casa, como he tradição commua dos í\eli^^iosos mais anli<i:os, que ha [)ouco falecerão n*esta, e o não haver maioi' noh- cia : culpável omissão d(i não liaver n'aquelles tempos {pr:ím por oílicio as guardasse para os futuros.

Com mais alguma clareza nos veio á mâo a noticia do Padre Frei Paulo ,do Uosario, porque foi tal sua vida, que mereceo conservar-se por tradição de memoria em iTismioria, permiltindo-o o Ceo, para eii- liobrecer as desta Casa, e d'esta escritura. Tomou este Padi-e o haijito em nosso Convento de Coimbra, mas não como íilho delle, como que- i'em alguns, mas (reste de Santarém, para d"onde veio no seguinte dia, sendo a tomada do halnto n*aquella terra, ou por achar-se ali o l^relad*», (pre o recebeo á Ordem, ou tiír «;ssa comissão o d'aquella Casa, ou !i- nulmenle por se faz(M' aos pai-entes do Noviço essa lisonja, porque se enttriide, que Coimí)ra era sua Pátria.

Correo o anno de ap})rovação Cíjm mostras de rpiem não hia a pas- s:)l-o, antes a ai)prend(;r n"."llií a ser toda a sua vida Noviço. Professou no anno de l(>il, sendo Gí^ral da Ordem o Padre il(3Stre Frei Nicolao Pkodulíb; e recolhendo-se outra vez nesta (]asa, (depois que em outras acabou os estudos) foi n'ella .M(ístre de Noviços, occupação, que n'a(iuel- les tempos, e em tal Casa poíba <^(!V boa dadora de sua vida. Este cargo exercitou pelos annos de KiGG, sendo l*rior o Padre Frei Francisco de Lemos. l*rimeiro ensinava os discipulos com a vida, que com o castigo, ou a palavra. Para os defeituosos era asperissimo, e tão zelador da obe- diência, que lhe suc(-ederão casos, que eternizarão esta noticia; hum so bastará para a termos d(3 muito (jue o era. Entendia, e bem, que \íí> a baze, e lotai fundamenl-o da observância, o cora(;ão, de que se repart^í a vitalidade a lodo o myslico coipo da Rehgião, conheceo em huni No- viço alguma rebeldia, não valeo a primeira rtíprehenção para a emenda; chamou-o hum. dia, o levando-o ao quintal da casa de Noviços, diz-lhe quo cave na terra, e manda-lhe que ásvessas ponha n'ella huma planta.

46 LIVRO I DA HISTOniA DE S. DOMINGOS

Sahio logo, como estranhando o desacerto, o génio do Noviço; e por mais que o Mestre instava que obedecesse, mais escusava com replicas, e desculpas. Chama o Mestre os outros Noviços, manda que abrâo maior cova, e que n'ella metao, e sepultem o Noviço até ao pescoço, marty- rio em que o deixou estar por algum tempo, lirando-o delle sojeito e doutrinado.

Nâo erão menos as asperezas, que usava comsigo, exacto no jejum de sete mezes, nas Matinas á meia noite, na estamenha junto á carne; e parecendo-lhe a lâa alliviada, recorria aos cilicies, e d'elles passava a rigorosas disciplinas de sangue, nâo havendo arma com que não per- tendesse domar aquelle inimigo, mais para temer, quanto mais caseiro. Mas assim se agradou o Ceo n'esta sua ultima penitencia, que nas mes- mas pedras quiz, que se lhe conservasse a noticia d'ella. Era grande a devoção, que tinha com o bom Jesus, Imagem de hum Crucifixo mila- groso, que fica na primeira Capella da nave, que corre da banda do Evangelho. Diante d'esta Imagem costumava Frei Paulo tomar a miúdo ásperas, e copiosas disciplinas de sangue. lie ainda hoje conhecido, e venerado o lugar adonde o fazia, que he hum grande mármore, que correndo igual com o lageado da coxia, que coutinua ao dos Altares, se mostra singular, por alvo e limpo ; assim não admitte em nenhum tempo ou pó, ou outro desaceio, que faz preciso este reparo, mostrando-se limpo, e branco em todo aquelle circuito, em que podia estar o corpo, e espalhar-se o sangue dos golpes.

Inviolável na guarda do silencio, o fazião dispensar n'elle as obri- gações do oiricio. N'elle durou muitos annos, até que o aposentou an- tes a falta de alento, que de espirito. Mais individuaes noticias nos podião ficar d'elle, mas foi tão escaco o tempo, que consorvando-lhe com estas qualidades o nome, lhe sepultou as acções, que lho podião eternizar com mais circumstancias de grande. Mas d'esla curta narração se podem inferir maiores progressos de virtude, por mais que culpáveis os descuidos díiixassem esquecer as particularidades de sua morte, como também o lugar da sua sepultura, roubando-nos essa consolação aos oihos, como om maiores noticias, maior exemplo para os reformados, e maior edificação para lodos. Mas ainda que seu corpo ficou duas vezes escondido, não o ficou assim a tradição de que está inteiro.

Maior numero de filhos memoráveis (como sempre tão -fecunda d'el- les) nos prometlia esta Casa, c o espaço de 80 e mais annos, que se

PARTICULAR DO REINO DE PORTUGAL í?

nao tem fallado n'e]la, sendo experiência, que nnnca lhe faltarão em to- dos os tempos espíritos da primeira observância, como morgada d'esta Província. Doesta verdade podíamos ainda hoje mostrar evidente prova: mas contenlar-nos-hemos com estas, que temos dado, visto poder mais o envelhecido descuido de quem podia evitar este defeito, que a dili- gencia, e moderno cuidado de quem pegou na penna, achando esta Província sem aquellas venerandas Idades, que erâo, e podlão serprom- ptuarlos vivos das memorias d'ella. Nâo esqueceremos com tudo n"esíc lugar huma, por muitos títulos precisa, que sirva de recompcnsacão ás multas, que perdemos n'esta Casa.

N^ella tem seu jazigo, em que está sepultado (na Capella mór, que he de sua Casa) Manuel de Saldanha, fidalgo de singulares prendas, da illusíre Casa doeste appellido, bem conhecido, e estimado n'este Reino. Foi filho de Diogo de Saldanha, neto de Frei Diogo de Saldanha, filho de António de Saldanha, que nos tempos de el-Rel Dom Manoel passou á empreza memorável de Tunes, em companhia do Emperador Carlos V, e voltando a esta Coroa, cheio de bizarrias militares, mereceo o premio e o agrado do grande Monarca Dom João o III. Veio a casa a seu filho Diogo de Saldanha, que fez delxaçâo d'ella a seu filho morgado António de Saldanha, vendo-se entrado em dias, e nâo podendo resistir ao amor da Religião Dominicana, que feito natureza em tantos annos, o cha- mava para os seus Claustros, d onde vestio o habito, professou, e faleceo, como se na primeira Parte da Chronica d'esta Província (1).

Herdou Manoel de Saldanha de seu vlsavô Frei Diogo este aíTecto singular ao habito de S. Domingos, e cora especialidade a este Convento de Santarém, conservando-se mais vivo o commerclo pela assistência da Casa, que esta Família tem na Vllla. Mas assim passou em Manoel de Saldanha esta devoção a extremo, que fazendo de sua casa antes hospe- daria, que vivenda, parece que não tinha outra mais, que o Convento, nem mais commerclo, que com os Religiosos d'elle, com grande edifica- rão, e ainda lucro temporal de todos, a que a sua liberalidade esprei- tava a penúria, soccorrendo-a com mão larga. Erão n'esta parte especlaes beneficiados seus os que, cursando as escolas, tlnhão nome, e reputa- ção n^ellas, fomentando, como tão grande amante da Província, aquellas plantas, que crescião para coroal-a.

Não o experimentava menos cuidadoso bemfellor o material doCon-

(1) 1. Part. 1ÍY. 2. cap. i%

28- uvRO I DA msToniA de s. domingos

vento, não havendo n elle obra, que ou em parte, ou em todo lhe nlto devesse dispêndio. EíTeitos erâo estes da devoção, que tinha com S. Do- mingos, tão excessiva, que no seu tempo chegou a ser apodo dos amaii- tes das Famihas Sagradas. Em dia do Santo accrescenlava com grandeza o prato aos Hehgiosos, como se estivera ainda escutando o preceito: que o grande Varão Frei Diogo de Saldanha pozera a seu filho em se- melhante dia (1). Em huma Véspera d'elle 3 de Agosto, de IGGG; falleceo, dispondo-o (no que ajuizou a piedade Christãa) o mesmo Santo, agrade- cido âquelles extremos, a que negociaria immortais prémios.

Assim acabou, cumprindo-lhe Deos o desejo de chegar com vida até aquelle dia, que Ibi em hum Sabbado, quando a voto, e resolução de médicos, não podia passar do da quinta feira; e dando graças ao Santo Patriarcha, e â Virgem piedosa do Rosário, (retratos, que tinha á cabeceira, e a que chamava o seu thesouro), mostrando o (pianto ti- tinliâo de mais valor na estimação, e no aílt'cto. Mas não deixemos liuma circumstancia sem reparo, (que á l)oa consideração não parecerá indigno d'elle) que foi achar-se assim disposto o caixão, em que rc^.- colhião o corpo no jazigo, que sem poder ser de outra forma, feita muita diligencia, veio a íicar o cadáver com o rosto voltado á imagem do Santo, que está no Altar mór, ao lado do Evangelho, como se o grande Piítriarcha quizesse dar a entender, que por aquelle estilo, que vião ao seu devoto na terra, estava gozando na gloria de sua vista.

A este reconhecimento do pai se seguio o dos filhos, mandando o Provincial desta Província, o Padre .Mestre Frei Manoel Leitão por toda ella igualmente á Casa de Heligiosos, como de que se lhe íizessem {pu- blicas exéquias, com o mesmo estylo de piedade, e fausto, que se cos- tuma nas Ueligiosas dos Gerais da Ordem. Não se contentou, nem coií- tenta com menos demonstração o agradecimento dos seus filhos nesta Província, sendo ainda mais extremoso, e mais durável em toda ella o funeral das saudades, em que sempre durará sua memoria.

CAPITULO II

Addição d fundação do Conrpnto de S. Domiuqos de Lisboa : de ali/u- mas particularidades, (jne se vem ntUe ao presente.

Foi esta Casa levantada dos primeiros fundamentos a dispêndios da

{{J I. Part. ubi !^ujira.

PARTICULAR DO RElXO DK PORTrGAL 29

pia, c Ueal magnificência d'el-nei Dom Sanclio 11. do nome, e íV. de Portugal, augmentada de Templo (obra verdadeiramente meditada, em lium grande, e espaçoso espirito) por el-Ilei Dom Âfíonso líl Conde de Bolonha. Náo se estenderão menos, (pie estes dons grandes braços, a sustentar tanta fabrica ! A fortuna, que elía correo, de inundações, de terremotos, pode ver o curioso no l*adre Frei Luis de Sousa (I). Mellio- rou-a finalmente el-Rei Dom Manoel de dormitórios, (obra tâo sua. co- mo o está gritando na grandeza) hoje acabados com igualdade ás mais oíTicinas, formando liuma das magestosas Casas, cm que na Corte avulta ò culto de Deos, e a grandeza d'ella.

Mas nâo deixarei de avaliar bem a modéstia d'aque]les seus primei- ros habitadores, que tendo bastante largueza, e pedindo a da Casa ex- teriores de mais vulíf), cahindo-lhe dous lanços de Dormitório sobre a celebre praça do Rocio (donde se podia desculpar a demasia, com as licenças de ornato, e correspondência da praça) assim he tosca, e hu- milde a frontaria fpara o que hoje vemos em outras fabricas Sagradas) que quem por dentro examina a largueza d'esta, confessa, que a des- conheceo por fora ; em fim Casa dilatada ao commodo de numerosa fa- mília, e não á culpável ostentação de grandeza.

Algumas accrescerão depois que o Padre Frei Luis de Sousa a dí?s- creveo, especialmente na Igreja, e Cora d"ella. Na Ca[)ella mor se dourado hum grande retabolo, que lhe mede a altura : fhc elle primo- roso, e ella excessiva) oito de boa pintura, e douradas molduras de en- laliíado moderno, vestem de huma, e outra parte o espaçoso campo das paredes, que dando lugar sobre elles a seis grandes janelías, sobem a fechar em huma alterosa bodeda, mais vistosa com hum gracioso bru- tcsco, que a afermosea.

No Coro correm por huma, e outra parte airosas, c bem lavradas cadeiras de bordo, acompanhadas de dous retabolos de entalhado, re- partido em bem lavradas columnas, e airosas quartellas, dando em os vãog lugar a 22 quadros dos Santos da Ordem. Deverão-se ao Mestre Frei Domingos de Santo Thomas, assim as copias dos Santos, como o dourado dos retabolos; a mais obra da Capella, e Coro ao Mestre Frei Álvaro de Mesquita, e a Frei Jerónimo da Assumpção, aquelle Prior, este Sacristão mór do Convento, ficando os degraos do Altar de fino jaspe vermelho (mais durável, e nâo menos vistosa alcatifa) e o pavimen-

(I) Fiei Luiz de Soasa. i. p. í. 3. cap. 17.

3() LIVUO I DA IIISTOUIA DE S. D0MING05

lo do Coro do mesmo jaspe* tecido com preto, e branco, em extrava- gante xadres, sendo obra de Ueligiosos particulares, e entre elles do Mestre Frei Manoel Veloso, Deputado do Tribunal de Lisboa.

O corpo da Igreja, como se se quizera guardar no theor, e fabrica (re- duzidas já iioje todas á moderna) para venerado padrão da antiguidade que obriga a hum certo respeito, e devoção, ficou incapaz de emenda, ou melliora, pelo muito que se apurou na nave, que corre da parte da Epistola em que se lavrarão as Gapellas de Santo Thomaz, do Senhor Jesus, e do Uosario, tào alterosas, e bem acabadas, como se desenga- narão a correspondência nas frontarias. Melhorou-se com tudo esta gran- de machina ; assim no ^torneado das grades, que fcchâo esta nave, como em huma tea, que divide toda a outra, ficando ambas com a me- lliora de duas rasgadas janellas, que no cabo de cada huma servem de Collateraes ao grande espelho, que fica sobre a porta. Yê-se hoje todo o Templo livre, e desembaraçado, sustentada toda a sua machina, que he magestosa em oito columnas; estado a que a reduzio a improporçio, que tinha em todo o corpo, e Gapella, que para os primeiros tempos erao grandezas. Deveo este bem meditado desembaraço ao Mestre Frei António do Sacramento, sendo actualmente Provincial d*esta Província. Agora espera pela proporção, que lhe dará a industria, e architectura moderna, de que se vem principies, (devidos á mesma mão, que lhe quiz emendar os defeitos) promettendo avultar sem elles entre as mais fabricas Sagradas, que hoje se vencrão na Corte, como magesto- sos Padrões da Christandade.

O Corpo do Convento se augmenlado em obras de azulejo, espa- çosas; e bem lançadas escadas de pedra, desafogada, e airosa Portaria ; e iguais ao Convento as mais oíTicinas, melhor a Sagrada da Sacristia; Livraria espaçosa, e bem acabada, obra, que se deveo ao Mestre Frei Gonçalo do Grato do Conselho Geral de Lisboa.

Ao i>resente se acha com notável augmento pela industria, desvelo, e profuso dispêndio do Presentado Frei Manuel Guilherme, cobrindo-se todas as paredes com segundas estantes (que tocão no tecto com artifi- ciosos remates) em que se dislribue huma numerosa Livraria de nobre enquadernação, e Ião igual, como escolhidos os livros; e estes tão co- piosos, que foi preciso recorrer a nova Casa, que lhe fica contigua, e igualmente ornada, hospedando-se em huma, e outra os Varões illustres de huma, e outra classe, ou na laboriosa applicaçâo da penna, ou na ri-

PAHTICULAR DO REINO DE PORTUGAL St

gorosa observância da vida, e entre elles infinitos Escritores da Ordem, como Antagonistas dos seus Institutos, parece se devia esculpir nos jas- pes daquellas artificiosas portadas por glorioso timl)re esta letra: Fe- lices, qiiibus coutifjH aut $crihere ler/enJa, aut f acere scribenda !

O Claustro com espaçoso âmbito, cuberto com desafogadas e ale- gres varandas, que descanção sobre airosos arcos de bem lavrada pe- draria, com remates, e embutidos de jaspes pretos, e vermelhos. Cer- cão estes com grades hum desembaraçado terreiro, que com vario lu- vor de murtas se reparte em ruas, dando no meio lugar a hum tanque, que em forma engenhosa oitavada sustenta no centro d^ella em hum pi- lar huma grande taça, em que de outro se recebe a agua destilada em artifícios vários. Assim o são os jaspes finos, que matizâo toda a obra. Deveu-se esta ao desvelo do .Mestre Frei Pedro Calvo.

Mas não deixarei em silencio o ornato, que lhe veste as paredes, não pela vida de Nosso Padre estampada em azulejo, (obra grosseira, e indigna de ser estampa d'aquella vida) mas f)ela que se animada em huns dysticos do Padre Frei Luiz de Sousa, que parece destinou muitos annos antes o fino desta Poesia a dissimular o tosco d aquella pintura, bem afortunada (e quando o não foi o enorme?) em achar alli huma penna, que lhe trocasse os borrijes em figuras, ou hum espirito que animasse com a vida da Poesia o tosco daquelle barro.

Vê-se no primeiro quadro a Senliora Dona Joanna de Aça, mãi de Nosso Padre, descançando em hum leito, e representando-se-lhe hum rafeiro com huma tocha acceza na boca; e diz inferior ao quadro o dys- lico :

Vem vides genitrix: Ccelestem condis in alvo, Qui manduni accenso persouet ore, cauem.

Vê-se no segundo quadro Domingos menino, quando sahindo do Sagrado banho do Bautismo, se lhe divisou na testa huma Estru^lla, au- rora, com que lhe madrugou o dia da graça; e diz inferior ao quadro o dyslico:

Fax in ventre latens, jam sacro fonte iavatns Aurora est, ardens postmodo Phasbus erU,

Vê-se no terceiro quadro Nosso Padre acompanhado do Bispo de Os- ina. (juanaa (para confusão da pertinácia herética) lhe respeitou três ve-

ãâ Fitvno I DA irisToniA dk s. DOMixr.os

zes o fogo o livro, em que escrevera as verdades da douli-ina Saibrada, .irdcíido em hum instante o que conlinlia os dogmas heréticos; e infe- rior ao quadro diz o dístico :

Ábsvwcns pracum pia litem flnmma lUremit, Et sanclum innocna; ter rcpnlerc faces.

Vr-se no quarto quadro a Rainha dos Anjos, dando a Nosso Padre hum liosario, |)ara que saia a espalhal-o polo Mundo, como seu pri- meiro Missionário; e inferior ao quadro diz o dystico:

Accipe ah aúherpo missum tihi munu^ Ohjvipo, Orbis tufawetiy cleliciasque meãs.

Vè-se no quinto quadro Nosso Padre na gucn-a dos AU)igenses occu- [KUido a vanguarda do campo Catholico, Alferes daquelia Sagrada ban- deira, que arvorada sobre o Calvário, deu a conhecer vencido o mes- mo adversário, que agora em seus sequazes lhe fazia rosto. E se mais vicioriosa, (juando rota de liuma lança, aqui não menos feita alvo das seitas inimigas, como se de estandarte se passara a escudo para rece- bel-as; e inferior ao quadro diz o dystico :

Pro Christo cerlans, sculum Crucis ohjicit Jioslí, Hanc solam, iclkeso milile, tela petunt.

Vè-se no sexto quadro Nosso Padre, gloíioso Athlanle da Igreja, que (íigurada na de S. João de Latrão em Homa) ameaçando mina, en- contrava aquelles grandes hombros para evilal-a;) mysteriosa visão, re- represerilada em sonhos a Innocencio III) c inferior ao quadro diz o dystico :

Qnam poliiil quondam templi cnliibere rvinain,

Per sobolem verus nunc quoquc fulsil Athlas.

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Vè-se no selimo quadro Nosso Padre com os joelhos em terra, mã(»s e olhos no Ceo, pedindo clemência a Christo Senhor Nosso, que indi- gnado brandia três seitas para castigo do Mimdo, quando sua piedosa Wãi lhe mostrava a Domingos, como suspensão do castigo dos homens, e fiador da emenda d*elles, como dizendo no dystico:

PARTICULAR DO REINO DE PORTUGAL 33

Nate, quis in míseros tanlus furor? Áurea terris, Hoc diice^ restituct scvcula prisca peles.

Vé-se no oitavo quadro Nosso Padre recebendo com os joelhos em terra a confirmação da sua Ordem de ílonorio III, e inferior ao quadro diz o dyslico:

Quas swpe Coelis prwnuntia signa prohariint, jEterna Iccjes consecro lege tuas.

Vê-se no nono quadro Nosso Padre, quando pernoitando na Igreja de S. Pedro em Vaticano em oração, diante das reliquias dos grandes Apóstolos Pedro e Paulo, este lhe deu hum livro, aquelle hum bordão, como se hum llie encaminhara os passos para correr a terra, outro lhe illustrara o entendimento para propor a doutrina; e inferior ao quadro diz o dystico :

Lustrei et illustret mens oimula Solis ut Orbem, Legis Evangélica} est rector hic, ille via;.

Vè-se no decimo quadro o Santo Reginaldo enfermo; Nosso Padre em siia cella orando por sua melhora: a Rainha dos Anjos (acompanhada das Protectoras da Ordem as Sanctas Catharina e Gecilia) restituindo-lhe com mysterioso óleo a saúde, e mostrando-lhe, e oíferecendo-lhe o Es- capulário branco, que queria lhe servisse a elle, e aos mais filhos de Domingos de habito; e inferior ao quadro diz o dystico :

Arte laboratam nostra tibi suscipe vestem, Reginalde, mei stemmata Dominici.

Vê-se no decimo primeiro quadro Nosso Padre recusando a oíferla de três Mitras; escravidão, que temia por authorisada, não por trabalhosa: e inferior ao quadro diz o dvstico.

Prodigus ad poenas renuit, horretque Tiaras : Omnis anhelanti sidera sordet honos.

Vô-se no decimo segundo quadro Nosso Padre diante do hum Cru- cifixo com os joelhos em terra, descabertos os hombros, descarregando

VOL. v 3

^ LIVRO I DA HIÍlTORIA DE S. DOMINGOS

sobre elles com rigorosa mao huma cadea de ferro, (que Ires vezes os banhava em sangue entre dia, e noite) e inferior ao quadro diz o dys- lico:

Férrea vinda diu, lerque hórrida verbera nodu Alterna repetunt conditione vices.

Vê-se no decimo terceiro quadro Nosso Padre no meio d'aquelles fu- nestos espectáculos, em que triunfou da morte a sua piedade; o sobri- nho do Cardeal despedaçado da queda de hum cavallo; o oíiicial oppri- mido da parede do Convento em que trabalhava; a viuva chorosa, e mostrando-lhe o filho sem vida; os quarenta romeiros, que sorveu tor- mentoso o rio éQ Tolosa; e inferior ao quadro diz o dystico :

Quce nóft monstra tihi, qum non miracula cedent, Cui toties spoliis mortis onusta manus"!

Vê-se no decimo quarto quadro N. Padre com os Religiosos emCom- munidade no Refeitório do Convento de S. Xisto em Roma, levantadas as mãos e os olhos ao Ceo, quando sem haver pára aquella Santa Fa- milia hum pão, (por se ter dado de esmola hum único, que havia em Casa) entrarão dous Anjos pelo Refeitório, repartindo a cada Religioso o seu; e inferior ao quadro diz o dystico :

Félix pauperlas I Quid non speremus egeni? Ccelicolúm o socii pascimur ecoe penu,

Vê-se no decimo quinto quadro Nosso Padre arrebatado em hum extasi diante de hum Crucifixo; e o demónio em forma de horrível dra- gão voando-lhe sobre a cabeça, e ameaçando-lh'a com hum pezado, e desmedido penedo; c inferior ao quadro diz o dysti€o :

Corpoream excidit molem super aera raptus : Nec pavet insidias , hostis inique, tuas.

Vê-se no decimo sexto quadro Nosso Padre, e seu companheiro pi- zando hum deserto; o Ceo desatando-se em formidável inundação; mais ao largo (já sereno o Ceo) buscando-o o Povo com reverencia, e applauso: e inferior ao quadro diz o dyslico :

PAKTICULAIl DO RlíLNO DE POIATUGAL 35

Qui potuit pluvias cohibere, et claudere coílum^ tlunc mira popuH religione colunt.

Vê-se no decimo sétimo quadro Nosso Padre entre as saudosas la- grimas dos filhos espirando; hum Anjo no ar com huma coroa, e huma palma; c inferior ao quadro diz o dystico :

Ergo trhmphales fert victor ad wthera passus, Sacra maniis ornat palma, corona caput.

He isto o mais notável, que accresceo á fabrica d'este Convento. Não será desagradável leitura aos que o nâo virão, nem desmerecido pre- mio ao zelo dos Religiosos, que o ornarão.

CAPITULO III

Dos Mestres Frei Pedro de Magalhães, Frei Agostinho de Cordes^ Frei Guilherme do Vadre.

Athenas Dominicana podíamos chamar á Casa de S. Domingos do Lisboa, porque sendo ella pela maior parte a em que residem os iMes- tres em Theologia, com a circumstancia de ser huma das cinco Univer- sidades, que tem esta Província, aqui se achao as sciencias nos seus dous estados, na custosa fadiga de aprendidas, na socegada felici- dade de laureadas. Mas não roubara esta ás Casas a gloria de berços de seus beneméritos filhos, contando aquelles, que a respeitarão mãi, e não os que a escolherão vivenda.

Foi hum d'elles o Mestre Frei Pedro de Magalhães (entende-se dos que merecerão esta lembrança, e nos chegarão á noticia desde a ultima, que o Padre Frei Luiz de Sousa nos deixou d'esta Casa) que dado todo aquelles dous extremos tão difficultosos de ajuntar, como. Aula e Coro, letras e virtude, servia de exemplo aos que o vião, e de Oráculo aos que o escutavão. A lãa junto á carne, o jejum rigoroso, as Matinas con- tinuas, as disciplinas contínudas, e, o que mais era, hum Argos da obser- vância, sem haver cousa, que mais o lastimasse, que as quebras d'ella.

Correo as Cadeiras, graduou-se Mestre, e deu á estampa (sazonado fruto de seus estudos) dous Tratados, hum i\Q'Scíeutia Dei, outro de

36 LIVIIO I DA IIISTOniA DE S. DOMINGOS

Pmdesllnatione, como se qaizera testemunhar a quem (sem experien- cia do que ora) o visse ii'aquelle honrado zenilh das letras, que o que o tinha levado a elle forao applicaçucs, e nao industrias. Passou a Évora Deputado d'aque'lle Tribunal da Inquisição, occupaçâo em que descobrio tantas capacidades, que ellas o trouxerâo para o lu^^a^ da Mesa Grande do de Lisboa, Cabeça de que dependem as direcções de todos os do Reino. Alli presidio por muitos annos, sendo n'aquelle lugar o Oráculo d'aquelles ; e tâo lembrado de que devia á Religião, como Mãi, e a si como bom filho, que a dosvellos, e diligencias conseguio, que se lhe dessem os três lugares do Deputados em Lisboa, Évora, e Coimbra. Se foi reconhecimento com a ffii, não deixou de ser zelo com o Tribunal, convencendo-se (com experiências de portas a dentro) como n'elle sa- bem os filhos de S. Domingos seguir as pizadas d'aquelle Pai, que foi o primeiro, que assim as deixou trilhadas em serviço da Fé. Era esta huma graça com circumstancias de restituição; e mostrou o Mestre Frei Pedro, que no Tribunal da melhor justiça não soube ser filho sem os dictames d'ella. Piedade, e inteireza benemérita de toda a nossa memoria!

Compassivo com os enfermos, e liberal com os pobres, com o que necessitavão acudia a cada hum, entrando a sua comiseração pelas cel- las dos Religiosos, que via mais desamparados, sem esperar mais dili- gencia, que ter essa noticia. N^estas, e semelhantes obras gastava o que lho rendia o lugar da Inquisição, lucro ignorado assi da sua cella, como da sua pessoa. Tão poucas crão as alfoias d'aquella! Tanto o desprezo com que tratava esta ! Faleceo carregado de annos, (inda que não pe- zão n'aquella hora os bem gastados) recebidos com piedade Christãa, e devoção Religiosa todos Sacramentos, com grande paz de espirito, e confiança em Deos, em II de Fevereiro de 1G75. Tem sepultura no Ca- pitulo.

Não pizou o estreito caminho da observância o Mestre Frei Agosti- nho de Cordes com menos circunstancias, e experiências de grande es- pirito. Toda sua vida fora huma continua advertência de sojeitar-lhe o corpo. Graduado pelas Escolas, leo algum tempo, no CoUegio da Rainha Dona Catherina, Moral, com o acerto de quem meditava os maiores de sua consciência. entrado em dias, voltou todos os cuidados a espe- rar o ultimo. Dos livros para o Coro era o seu continuo commercio. De noite o deixavão na Jgreja visitando os Altares os últimos que sahião d'clla, e n^ella o achavâo os (juc a buscavão de madrugada.

PARTICULAR DO REINO DE PORTLT.AL 37

Assim parecia inculpável a sua vida. Nunca no voto dos justos liro parece a sua. Seria essa a razão, porque o Mestre Frei Agostinho a per- seguia com penitencias. Sobfe o jejum continuado, era o que comia tão pouco, que o parecia inda para sustentos; mas nem por isso lhe enfra- quecia o braço para os golpes da disciplina, sendo estas uâo amiu- dadas, mas tão rigorosas, como o mostravão as pedras da Igreja, d'on- de muitas vezes era o sangue viva testemunha.

Com este estylo de vida a passou muitos annos n'este Convento, vindo a acabar n'elle ditosamente com todos os Sacramentos, e edificação grande dos Religiosos, aos 4 de Fevereiro de 1GG2. Está enterrado á entrada do Capitulo; e abrindo-se a s.ua cova alguns annos depois (sendo Prior o Mestre Fr. Valério de S. Raymundo, Bispo que foi de Elvas) se achou inteiro o corpo. Não duvido, que pode ser talvez privilegio de melhor compleição, mas talvez também de melhor vida. Quando o he esta, he aquella notável circumstancia. Aos Justos prometteo Deos esse privilegio. Assim está escrrto(l). Nós narramos, não diffinimos. Também affirmão, que á hora da morte lhe assistirão Nossos gloriosos Patriarchas Francisco, e Domingos. Venturoso filho, que na vida lhes seguio as pi- zadas, na morte lhe víerão mostrar o termo d^ellas !

Mas que venturoso século o em que a sciencia humana se deu as mãos com a Divina! Esta nos diz o Sábio, que tem seu principio no te- mor de Deos (2). Assim achamos os filhos d'estaCasa, sábios ao Divino, como ao humano, porque tão tementes a Deos, como Letrados. Em hu- ma, e outra sciencia exercitaváo a vida. Vida venturosa na veneração da terra, e no premio do Ceo! Destinado a este, como merecedor d'aqueUa, professou, c viveo n'este Convento o Mestre Frei Guilherme do Vadre, grande Theologo em huma, e outra Tlicologia. Com igual applauso pas- sava da Cadeira ao Púlpito. Assim sabia ensinar discípulos, como redu- zir peccadores. Não pregava com a .palavra, mas com a vida; não com a vida, mas com as exterioridades d'eUa; assim para edificar a quem o via, ou escutava, não desdizião as cores do rosto do feitio do habito. Huma imagem da penitencia respirava n^aquella mortalha: quem vivia morrendo, como morreria acabando? Piccebeo todos os Sacramen- tos, e com grande socego de espirito passou aquelle ultimo golpe, como quem sempre se andara ensaiando para elle, em 9 de Novembro de 075. Tem a sua sepultura no Capitulo.

{\\ Nec dabis Sanctum tuuiu v ideie corruptionora. Psaliu. 13. 10. (2) Psalm. lo. 10.

UM\0 I DA HISTORIA DE S. DOMINGOS

CAPITULO IV t

Dos Padres Frei Manoel do Espirito Sanlo^ Frei António de Jestis, Frei Tfiomé de , . . . Mendonça, e Frei Belchior da Franca.

Corria o anno de 1G38. Era Provincial cVesta Província o Venerável Padre Mestre Frei João de Vasconcellos, Miniâlro Geral da Ordem Frei Niciilau Rodiilíb, quando veio a ella, pedindo a humilde mortalha Do- minicana, o Padre Frei Manoel do Espirito Santo, tão doutrinado por elle, como se lhe pedira o titulo menos para nome, que para morte. Assim o mostrou logo nos primeiros passos de vida observante. Estes o leva- rão nos primeiro annos a buscar o centro delia naRecoleta Bemficana, que então se levantava entre todas as da Província com maior reputa- ção de reformada. Alli accrescentou o numero d'aquelles verdadeiros professores da Heligiâo, e da austeridade, servindo de espelho aos mes- mos, de que a sua humildade tomava exemplo.

o seu dava tanto que entender ao inimigo das almas, que o co- meçou a buscar astuto, com a esperança de que, quando lhe nâo arrui- nasse a consciência, sempre lhe assustaria o socego. Assim lh'o queria turbar no Goro, que sendo o Padre Fr. Manoel liuma imagem da mo- déstia, antes da mortificação religiosa, se lhe percebião bem sinaes co- mo de que o perseguião, e apertavão. Com o capcllo na cabeça, os olhos no chão, as mãos cruzadas sobre o peito, acompanhava o Coro; mas no modo, com que se encolhia, e se apertava a si mesmo, se advertia a violência, que o mortificava. Junto isto com a observação, que se fazia de sua vida, facilmente se dava no que era. Passou a mais a astúcia diabólica,

Gomo o Padre Frei Manuel por muito retirado parecia esquivo, e ora pouco o seu commercio, ainda com os Religiosos da Casa, não dei- xavão algqns de lhe censurar a estranheza. Doía-sc elle, lastimava-se in- teriormente; não fiou da sua constância não romper em alguma impa- ciência; resolveo-se a mudar de Casa. Passou á de Aveiro, não achou n'ella menos reforma, entendeo, que mais socego; mas o inimigo, que vendo-o retinir, concebia novas esperanças de o vencer, o acompa- nhou com aquella mesma astúcia, que calificava por poderosa. Co- meçou de introduzir-ihe desconfianças de que era aborrecido, e murmu-

PAUTÍCULAR DO REINO DE PORTUfiAL 39

rado na Casa. Este pensamento o trazia em huma continua batalha ; fi- nalmente triunfou d'elle hum dia.

Divertiíio-se alguns Religiosos (e de boa nota) praticando n'aquella hora, em que a Religião dispensa o silencio : eis-que accendido em có- lera, com passos arrebatados, e vozes impacientes, chega Frei Manoel rompendo n'estas palavras: Bem sei, Padies, bem sei, que estão murmu- rando de mim. Voltarão comedidos, e assombrados os innocentes Padres, testemunhando como se enganava, e pertendendo socegal-o. Sei (conti- nuava elle) que murmurão, agora o fazião. Gloriava-se e demónio que o tinha vencido; não lhe durou muito esse engano. Mal tinha voltado as costas recolhido â cella, quando abrindo outra vez a porta, corre aos Religiosos, c deixando cahir ao mesmo tempo as lagrimas dos olhos, e o corpo sobre a terra, repetia: Padres, perdoem-me pelas Chagas de Christo. Perdoem-me : fui tentado.

Algumas vezes (inda que não chegando a tanto excesso) se lhe ou- vio alguma palavra, filha de semelhante desconfiança; mas assim a cas- tigava logo em si, que se desenganava o inimigo, que mais perdia nas emendas, que ganhava nas quedas. Assim continuou o Padre Frei Ma- noel com mais socego, se he que havia instante em que o conhecesse quem fazia continua guerra a tudo o que o parecia. Cingido andava junto á carne, não fiando da lãa a mortificação d'ella, não se soube se erão cordas, ou cilícios: do modo, com que se meneava, se entendia huma cousa, outra. Jejum inviolável, acompanhado de áspera disciplina ; Ma- tinas continuas. Quando a Religião dispensava n'ellas, ou nas de privile- gio, ou nas duas recreações do anno, no Coro diante do Santíssimo, pas- sava até á meia noite. Se havia Matinas, d'ellas até pela manhãa. Perse- guido do sono, o agasalhava huma taboa, que era a cama, que escondia na cella, mas commummente o pavimento da Igreja.

Do Rosário era devotíssimo, assim lhe chamavão o Frade do Terço. Para elle applicava o pobre estipendio de alguma Missa, comprando Ro- sários para repartir pelo Povo. Com aquella Santa negaça o seguia a in- nocencia dos pequenos: inclinava-os á devoção com ella, e entre elles a dispendia. Não gostava o inimigo d'aquelle contrato, embaraçava-lhe as contas. Por mais que as separasse, e as dividisse, amanhecião juntas, e embrulhadas. Resolveu-se em separal-as pela parede da cella. Deu-lhe o demónio em huma occasião huma bofetada; sospeitou-se, que sobre esta demanda.

4d LITRO I DA riTSTOP.lA DE S. DOMINGOS

Persegiiiao-no achaques, rcceitavâo Médicos, que comesse carne, (parecia-lhe, que era comprar cara a saúde) nunca o obrigarão a comel-a. Este rigor de vida nâo lli'a promettia muito larga; mas assim pa- rece, que a reforçava na penitencia, que chegando a contar n'ellaC5an- nos, inda o que lh'a tirou nâo foi achaque, seria o amor de Deos, po- deroso como a morte. Pareceo, que teve revelação d'ella. As circunstan- cias parece que podião ser provas,

Era Véspera de Natal de 1671, estava sem nova moléstia, foi-se ao Prelado (então o Padre Pregador Gerai, e Presentado Frei Gaspar de Araújo) pedio-lhe com humildes, e encarecidos rogos, que lhe desse a Communhãb Sagrada por Vialico, que estava em hora de pedil-o. O Prior, que o via sem accidente, que lhe favorecesse a supplica, mandou-o re- colher na cella passando aquella entre os Rehgiosos, por desatino ou de annos, ou de escrúpulo. Callou, e obedeceo o bom súbdito; assistio a Vésperas, e Completas d^aquella devotissima solemnidade; ciiegou-se a de Alatinas, tocarão o primeiro, juntou-se a Communidade no Coro, faltava Frei Manoel, qae sempre madrugava para elle, Fazião reparo os Religiosos; tinhão-n'o visto, não muito antes, chegar ao lampião, a bus- car luz com socego, e desassombrado) suspendia ao Prelado o mesmo pensnmento, convenceo-se que seria sono.

Mandou, que o chamassem; resultou da diligencia saber-se, que não deferia a nenhuma; sobe o Prelado, abre-lhe a cella, acha o bom súb- dito sem vida sobre huma taboa. Cresce o assombro, examinando o modo com que jazia. As mãos em Cruz sobre o peito, n'ellas hum Crucifixo, compostos os olhos, e mais membros do corpo, em forma, como se albeia diligencia o accommodara. lícpararão mais, era lavado o habito, os interiores o mesmo, novidade tudo para o que usava comsigo. Este era o tálamo, em que esperava n'aquella noite o Esposo, que com passos de Gigante vinha buscal-o, e este o adorno cândido, com que preparou sua alma com alvoroços de esposa.

Tratavel, e ílexivel estava o corpo; e mais examinado, o acharão cingido com huma cadea de ferro, tão entranhada na carne, que se lhe tirou com violência (tcstemunhava-o quem o vira). Semelhantes atavios de penitencia sem outra cousa se lhe acharão na cella. Trouxerão-no para o Coro. Divulgara-se pela Villa o successo; corrião todos, con- vidando-se anciosos huns aos outros, para verem o Frade Santo (este o epilheto, que sua vida lhe grangeara n'aquelle Povo). Era mais ditoso

PAnTICUI-AR DO REINO DE PORTUGAL 41

O que chegava a vel-o; contentava-se com tocar contas no esquife o que nâo podia estender a mâo ao habito, defendido não com pouca difíicul- dade da dihgencia dos Religiosos.

Derão-lhe sepultura no Capitulo, e sem duvida a deu elle em sua vida aos favores que do Ceo grangeara com ella, que parece não podia ser menos, que revelação aquelle repentino aparelho, o precederem cousas maiores áquelle novo transito. Mas o que a sua modéstia escon- deo na vida, quiz dar a conhecer o Ceo na sua sepultura. Abria-se esta, (pas- sados annos, havendo de enterrar-se hum Religioso, e sendo a mais an- tiga das que tinhão servido) eis que se enche o Capitulo de hum sua- vissimo, e novo cheiro; acodem os Padres, dá-se conta ao Prelado, (era o Presentado Fr. Silvestre Pacheco) mandou cobrir a cova. Era Sacris- tão o Padre Frei Domingos da Cruz, Prior de Azeitão, quando isto es- creviamos, e da sua mesma boca o escrevemos.

Testemunhava o mesmo Padre da grande reputação, com que o Ser- vo de Deos vivera na Villa, havendo tradição da fé, com que recorrião a elle nos apertos. Os enfermos, suspirando-o á sjin cabeceira, oomo mais segura mesinha. Reconheceo-o assim huma viuva, natural da mes- ma Villa, por nome Dalida Francisca, que desconfiada dos Médicos em huma longa doença, e visitada do Servo de Deos, lhe disse: Padre, encomen- de-meaDeos; que certamente morro. Não se desconsole (lhe tornou o Padre) que, passados três dias, convalecerá de todo. E assim succedeo. Semelhantes casos ficarão antes em memoria de seculares, que dos Religiosos. De- vido reconhecimento d'aquelles, como costumada, mas culpável ommis- são de esfoutros.

Com a mesma Pátria, e Casa parece que herdou o espirito d'este irmão, e patrício o Padre Pregador Geral FreiTliomé de Mendonça (dos Anjos se chamou primeiro), filho de pais nobres. Muitos annos viveo na Recoleta Bemficana verdadeiro cultivador delia. Assim o foi da humil- dade Religiosa, que nunca o poderão inclinar a acceitar prelasia. Dese- java-o aquelle cargo, descobrindo n'elle hum claro entendimento, de que se podião esperar acertos, e huma incançavel vigilância, a que não po- derião atrever relaxações. Se os que elegem, buscarão estas qualidades no Prelado, nem nos súbditos se escutarão queixas, nem na Religião se lamentarão quebras; mas não temia o Padre Frei Thomé a pensão, es- cusava-se á singularidade.

Era o seu centro a cella, e o Coro ; sempre lhe seria violenta occu-

LIVRO I DA HISTORIA DE S. DOMINGOS

paçâo, qne o escusasse (1'aquelle centro. Tinha na cella quem lhe pren- desse os desejos, a commiinicação dos Hvros Sagrados. Finalmente mal teria génio para se facilitar a publicidades, e negócios, quem o tinha para viver sepultado. Mas venturosos séculos, em que se desenterravão os sogeitos para os cargos I no seu retiro o foi buscar o voto do Pre- lado da Província (era então o Mestre Frei Manoel Pereira, que depois foi Bispo do Rio de Janeiro, e Secretario de Estado) que como filho da mesma Uecoleta Bemficana, nada o desvelava tanto, como a conservação da reforma d'ella, e no zelo de Frei Thomé descançaria a sua diligen- cia. Propol-o para Prior aos Religiosos da Casa, sahio eleito, mas foi tanta sua pena, como sua repugnância. Entrou a emmudecel-o a obe- diência; encolheo os hombros, disse que aceitava.

Recolhe-se á cella, toma a capa, e o caminho de Lisboa, entra por casa do Conde de Castello Melhor, n'este tempo valido, e em que se ajuntarão todas as prendas beneméritas do valimento, sendo n'ella syno- nymos o valer, e o prestar) pede aos criados que digão, que hum Re- ligioso de São Domingos o busca com huma grande importância. Sahio o Conde, acha-se com hum Frade amortalhado em hum pouco de burel branco, cores no rosto, que não desdizião da mortalha, cuberto de suor, e sinaes de alllicção grande, que lançando- se-lhe aos pés, o deixa as- sustado, e compadecido. Levanta-o nos braços, e perguntando-lhe a causa de semelhantes excessos, responde Frei Thomé: «Senhor, para o aperto, em que me vejo, não busco menos pessoa, que a de V. Excellencia, d'onde conheço juntos o poder, e a benignidade, para se me não castigar a confiança, e se me deferir á suplica. O meu Provincial me fez Prior de Bemfica, tirando-me do canto da minha cella. Aquelle lu- gar, Senhor, pede pela honra outros merecimentos, e pela carga outros hombros; huma cousa e outra me falta, sobejando-me o conhecimento para entender, que me não posso salvar n'aquelle cargo. Como poderá servir de exemplo aos outros, quem serve de confusão para si? Vossa Excellencia, que tudo pôde, seja valia; para que o meu Prelado me absolva.»

Assim fallou Frei Thomé, continuando com instancias fervorosas, e repetidas, de que convencido o Conde, não acabava de admirar-se, vendo hum espirito, a que as honras metião medo; máxima nunca imaginada nos votos políticos, e ja esquecida nos monásticos. Alcançou-lhe a absol- vição; e o bom velho vendo aquelle grilhão limado, rompeo, em taes demonstrações de gosto, que ames parecia louco, que satisfeito. Quem

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assim queria desembaraçar sua consciência, sem duvida a trazia mui apon- tada. Parece, que se lhe divisava a pureza d'ella na limpeza da cella po- bre, e desarmada, e n'aquelle burel, que vestia. Corria então de sorte a severidade d'aquella Recoleta, que para fazer excessos bastava obser- val-a, e era o Padre Frei Tliomé hum dos que o faziâo á risca.

O jejum das Constituições observava inviolavelmente; e como erâo raras as sabidas do Convento, raras vezes comia carne; continuava os exercicios penitentes, sendo as paredes das Capellas mais retiradas boas testemunhas do que carregava a mão nas disciplinas. Era assim conti- nuo nas Matinas á meia noite, que de feito a ellas, nâo votava, que inclemência dos tempos (a que o sitio fazia mais rigorosos) bastava a dispensal-as. Acabadas, se deixava ficar na Igreja visitando os Altares, e nem este desvello o tirava de ser o primeiro, que á Prima apparecia no Coro. Lâa sempre junto á carne, nas túnicas, e nas mantas, de que o dispensava o ameaço do Medico com o preceito do Prelado ; silen- cio continuo, aproveitando-se para recreio de poucas horas das que costumâo dispensar-se para elle.

Oração a menos no Coro, a mais na cella, para o que era perpetuo G seu recolhimento. Assim vivia tão esquecido de tudo o que era Mundo, como se nunca lhe esquecera, que vivia amortalhado; ou assim o esque- cia, porque o conhecia tanto. Succedendo-lhe praticar em cousas d'elle entre pessoas, que se cansavão em averiguar a verdade, costumava di- zer: «Que não importava, que se examinassem esses pontos; que bastava dar aquelle allivio aos ouvidos.» Era a pratica de politicas do Reino, ou noticias dos estranhos, porque as em que podia haver cousa, que encontrasse a modéstia, ou caridade, não o merecião ouvinte. Filosofava bem o que era o Mundo e sem mais ser, que apparencias, tinha que ver e ouvir, não que examinar; porque sendo tudo nada, e tudo falli- vel, em que podia haver verdade, mais que no conhecimento de não ha- ver cousa que o fosse?

Finalmente a oração, a penitencia, o silencio, o retiro, era o com- mum d'aquella Casa, e o Padre Frei Thomé tão pontual n'elle, como se oquizesse singularizar em si. Com este estilo de vida, em boa velhice o alcançou a morte. Cahio de huma doença, que descobrio em breves dias, que seria a ultima; e achou-o tão desenganado, como se lhe anti- cipara a noticia. Pedio os Sacramentos, que recebeo com socego, e paz de espirito, e entre actos de verdadeira penitencia, e conformidade co-

I 44 UVnO I DA HISTORIA DE S. DOMINGOS

meçou a esperar pela morte. N'este estado passou alguns dias em que depois de repetir demonstrações penitentes e reli[(iosas, dizia com in- teireza, que podia ser filha de sobrenaiural esperança: «Eu estou Sacramentado; pois que faço aqui?» Erão amantes, e ditosas impaciên- cias de se lhe alongar o caminho para o eterno descanço. Assim pas- sou placidamente a elle em hum Sabbado, alguns dias antes da Exalta- ção da Cruz, pelos annos de 1G81.

Do Padre Frei António de Jesus (seria pela vulgaridade do nome) não ha mais noticias, que as que se podem inferir de espirito, que de crescidos annos vem buscar o retiro dos Claustros Sagrados. Aclia- va-se este Padre, quando pedio o habito, e se recebeo á Ordem, gra- duado na Universidade de Coimbra em a Faculdade de Medicina, e com bom nome nella. Professou n'este Convento de S. Domingos de Lisboa com o Padre Frei Thomé de Mendonça aos 4 de Junho de 636, sendo Prior o Presentado Frei iMauricio da Cruz, Mestre da Ordem Frei Nico- lao Rodulfo. As mais ou para melhor dizer, todas as particularidades de sua vida se perderão no tarde, com que chegamos a inquirir d"eUa, por chegar á nossa mâo a obrigação d'este trabalho; depois de muitos annos de descuido. O que pode conjecturar-se para maior dor, he, que não deixarião de ser notáveis as que merecerão, ainda nas frouxidijes d'a- quelle tempo, o reparo, que nos ficou em hum assento antigo, de que fora sua morte com grandes sinais de predestinado.

Pertence também sem duvida a esta Casa o Padre Fr. Belchior da Franca, nobre por nascimento ; filho de Tangere, e da yigairaria, que tivemos n'aquella Pi aça, que com esta fihação professou neste Convento de S. Domingos de Lisboa aos 10 de Outubro de 618 nas mãos do Mes- tre Frei Diogo Ferreira, então Prior, sendo Geral da Ordem o Mestre Frei Serafino Papiense. Mas extincta a Casa de Tangere, (memoria sem- pre lamentável) a Lisboa pertence a sua, como a berço, em que co- meçou a viver a vida religiosa. Assim o foi a sua, que se grangeou a reputação de justificada, falecendo com a de Santo, como consta de hum assento, que se na margem do da%sua profissão, no livro d'ei- las, que se guarda n'esta Casa, e diz : Obiit ciim opinionc Sanctitatis. E som duvida lie hniibrança, que se não mereceo menos, que cora acções de virtude conhecida, e examinada. Mas he entre nós tão pode- roso o descuido, que conto por milagre o ter-lhe escapado este assen-

PAUTICULAR DO IlEINO DK PORTUGAL 4 O

to, roubando no mais a gloria a Tangere, de que este Padre era filho, e a todos a edificação e o exemplo.

CAPITULO V

Be alguns Religiosos filhos d' este Convento, de reputação em letras, Púlpito, e tirados da Ordem para Bispos.

Parece, que se destinou a este Convento, como Cabeça da Provín- cia, hum filho, que nâo a ella, mas ao seu século sérvio de coroa. Este foi o Mestre Frei Domingos de Santo Thomaz, (a quem por mui- tos séculos bastará para Chronica o seu nome) talento digno da Corte, que lhe deu Pátria, do Convento, que lhe deu berço, e da Província, que o escolheo filho. Nada para tanto Yarão devia ser menos que grande. Cursou as Aulas com aquellas esperanças, que devião começar a fazer lugar ás suas prendas, sendo tao grande o brado d'ellas, quando aca- bava a trabalhosa tarefa dos estudos, que na Cadeira, e no Púlpito o começavão a conhecer Oráculo; encarecimento, que reduzio a verdade em todas as occasiôes, em que os melhores juizos ou o consultarão dis- cípulos, ou o quizerão examinar sábios.

Achava-se no Mestre Frei Dommgos huma comprehensão universat com que fatiava em todas as sciencias e artes; com frase tão própria, c tão individual estyto, como se aquellas noticias forão profissão, e não engenho. A isto se ajuntava huma graça e fermosura no dizer,, huma clareza no propor, huma viveza, e facilidade no soltar, que poderão bem os applausos intitulal-o Mercúrio Dominicano, como os de Licaonia ao maior Theologo do Apostolado (I).

Seguio a estas luzes de benemérito a costumada sombra de pouco afortunado, sem terem mais ar as grandes azas de sua capacidade, que para chegar á esfera de Prior de São Domingos de Lisboa, e ao Púlpito da Capella da Magestade d'el-Rei Dom João IV. Seria, que se envergo- nbavão os cargos, temendo ficar em restituição aos seus merecimentos tão crescidos, e agigantados, que escaçamenío haveria premio, que os Hvrasse de queixosos. Era Frei Domingos por si tanto, que tudo fora d'elle parecia pouco ; mas era seu animo tão comedido, que sem sombras de ambicioso (vendo-se nem escolhido do Ueino, nem da Re-

(1) Vocabaiil Pauluin Mercuriuui, quia ipóc cral tlux Yerbi. Actor. 14. 11,

#6 LIVRO 1 DA HISTOniA DE .S, DOMINGOS

ligião) costumava dizer com graça, e agudeza: «Que lhe davao todos o que lhe nâo podia dar nenhum; porque el-Rei lhe perguntava, porque o nao fazião os Frades Provincial; e os Frades lhe perguntavão, porque o não fazia el-Rei Bispo. E que nem os Frades o podiâo eleger Bispo, nem el-Rei Prelado.»

Píao era isto appetecer lugares, que nem o mais levantado o faria mais conhecido, nem o de maior reputação mais venerado. Assim se ti- nha adiantado a todos, que convencidos os naturaes, entrava pelas por- tas dos estranhos. Cunduzidos d'esta noticia, o vinhão praticar á sua cella, talvez com escrúpulos de que aquella lhe parecia demasiada, mas rara vez sem sahirem com o desengano do pouco que dizia. Residia na Corte com importâncias de Castella o Batavira; descia acompanhado de Religiosos graves, e do Mestre Frei Domingos, a quem viera buscar, (fora na sua cella larga, e varia a pratica) adiantou-se ao Mestre Frei Domingos na Portaria e disse, voltando aos Religiosos: {Padres Maestros este homhre era menester fundido) como se dissera: Este homem era ne- cessário eternizal-o. Era Batavira Hespanhol de supposição, pezador, e talentos, de capacissimo entendimento, versado nas Cortes dos Prínci- pes, e maduro com experiências, e entendeo que para hum tao grande Capello, como o Mestre Frei Domingos, erão precisas as apócrifas urnas do Fénix, porque huma vida era curto espaço, para se lograrem tan- tas virtudes.

Acompanharão a sua pessoa huma isenção casta, e modéstia rehgiosa que sempre forão acrédoras de seu bom nome. Teve tanto entre todo género de gente, que até entre a plebea chegou a ser na lingoa do Povo adagio o seu conhecimento, como entre os políticos apoio, para encare- cerem hum sujeito. Era precisa a grande noticia, que todos tinhão d'elle, vendo-o, e escutando-o todos ós dias ou na Cadeira, ou no Púl- pito; tão quotidiano (especialmente nellcs) que, sem lhe íicar talvez tem- po para se deter na cella, parece, que estudava em hum o que havia de dizer nos outros, e não faltavão incrédulos, que seguindo-o em todos com a esperança de o apanharem repetido, sahião com a confusão de o escutarem adiantado.

Assim se espalhava a sua capacidade por todos os Púlpitos da Corte, (e pelos de mais reputação mais frequente) com tão geral, e continuo applauso, que encai ecida qualquer grande celebridade, se acrescentava: «E prega Frei Domingos de Saneio thomaz.» Era na occasião, em que as

PARTICULAR DO REINO DE PORTUGAL 47

invencíveis armas Portnguezas, (favorecidas da razão, e do Ceo) da vão a este Reino, e especialmente á sua Corte, continuo assumpto de dar a Deos repetidas graças por repetidas vitorias das armas Castelhanas. Che- gava a noticia a Palácio, d'elle com recado a S. Domingos, e sahia o Mes- tre Frei Domingos, talvez sem mais tempo, que o de pôr a capa nos hombros; da narração do successo, que hia muitas vezes sabendo pelo caminho, hia tecendo o Sermão. Cliegava a Capella, sobia ao Púlpito, não era nada o fallar com acerto, mas com advinhar os casos, e discur- sar sobre elles com tanto, que (a faltar a experiência de repentina a no- ticia) passara por parto de bem meditado estudo, assim estava o seu no grão de consumado.

Sendo Regente dos estudos na Universidade de S. Domingos de Lisboa, entrado em annos, assistia nas Aulas, e fundações Escolásti- cas, arguindo, e instando, como se tivera entre mãos o ponto, que se disputava, não menos que o Lente que o defendia. Era o seu argumento vivo, nervoso, claro e convincente. Saber responder-lhe, o melhor exa- me, não de Estudantes, inda de Lentes. Finalmente hum consumado, e grande Theologo, e facilmente Fénix do seu tempo. Foi incíinçavel o seu estudo; culpavão-lhe a applicação n'aquelles annos, (erão os úl- timos) respondia: «Que então começara a saber se lhe não acabara a vida.» Tanto he o que se ignora n'ellal E avaliava-o assim quem tinha feito tanto por ignorar menos. Grande confusão para quem, fazendo menos que pou- co, já quer descançar no principio; ou para quem, satisfeito consigo mes- mo, entende, que ao pouco se deve seguir o descanço, Dos livros o le- varão para o leito, soltando da mão a penna para os actos de contrito.

Acabou finalmente o Mestre Frei Domingos, carregado de achaques e de annos, mas mais de merecimentos aos 30 de Junho de 675 fazendo- nos a morte a injuria de callar aquella boca, e secar aquella penna, em que nos roubou a melhor doutrina, e a maior doçura, mas respeitando a sua memoria, continuada nos melhores votos d'este século saudoso, como o em que dle viveo ennobrecido. Assim foi sentida sua morte, como desejada sua vida, não dos domt^sticos, que o praticarão, mas ainda dos estranhos, e dos que por tradição o conhecerão; conse- guindo o Mestre Frei Domingos aquella rara fortuna (e ninguém mais benemérito d'ella) que o Séneca admirava : que não havia cousa mais fermosa, que viver no desejo de todos: Quid pulchrius est quàm vivere optantibus cunctis !

18 U\l\Ú I DA IlISTOUIA DE S. DOMINGOS

Escreveo o Mestre Frei Domingos toda a Tlieologia Especulativa em sete Tomos, obra, que examinada por grandes Tlieologos da Ordem, saliio com o credito de consumada, e legitimo parto de tanto talento. Está, ao tempo que isto escrevemos, em Roma; na mão do Reverendíssimo o Mestre Frei António Choche, esperando da Imprensa, que será maior credito para toda a Ordem, e para esta Província singular. Sermões sem numero, que a pouca vigilância, ou a muita industria dos que os guar- davão, ou os pertendiao, espalhou por diversas mãos, mal empregados em algumas, e sepultados era todas, em detrimento do Author, a quem roubou a gloria, dos Pregadores, a que escondeo a doutrina, e dos pie- dosos, e doutos, a que tirou a lição.

O que se imprimio. Hum Compendio Theologico (repartido em três Tomos) que intitulou Tyrocínios, ou rudimentos da Theologia, disslmu- kmdo na modéstia d'este nome a felicidade, com que n'elles a tratou toda, sendo fácil a grande comprehensão que teve d'ella o não faltar (na velocidade com que lhe corria a penna) a difficuldade alguma, pro- posta, difficultada e resolvida, sem que a profundidade lhe embaraçasse a clareza, ou a difficuldade lhe prolongasse o estylo lição, que bebera nas luzes do Sol de Thomaz, que teve por Mestre, e que fortunadamente lhe deu o sobrenome, repartindo também com elle o milagre de ajun- tar na sua doutrina o breve e o elegante, o profundo, o o claro o se- guro e o subido: Stylus hrevis, grata facúndia, celsa, clara, firma sen* tenlia; pqnegyrico, que a Igreja canta á sua sciencia.

Dous Tomos predicativos, a que intitulou : Predica Sacramental so- bre o Ilymno Lauda Sion Salvatorem, agudo, elegante, suave. O Tríduo de São Pio Y, com aquella facilidade, e felicidade, com que costumava escrever o seu engenho, em huma cousa pouco afortunado, que sen- do tantos e tão grandes os partos de sua fecundidade grande, como cada dia o testemunhava a admiração, ou lendo-o nos pareceres, ou es- cutando-o nos Sermões, pareceo inveja de sua fortuna, que se lhe eter- nizassem os mais rasteiros na Imprensa. Mas não bastara a omissão culpável na perda de seus doutos papeis, para que se neguem a seu grande nome os em que a fama escreve, os que o merecerão á immor- talidade.

Não se me em culpa, que alarguei a penna fora das leis da His- .toria; que vida de tanto Varão não pode ser narração, sem ser panegy- rico. A quem quer que escrevesse o (juc este foi, estou certo, que lhe

PÂUTICULAll DO REINO DK POUTUOAL 40

succcderia o mesmo. Grande ventura do Historiador, encontrar verda- des, que podem ser elogios!

Não foi menos estimável filho d'esle Convento o Mestre Frei Álvaro Leitão, talento bem conliecido, e venerado na Cadeira, e Púlpito. N"a- (juella mereceo na Religião o nome de Mestre, com tão grande reputa cão de letras: que ellas igualarão a que teve de l^ulpito. Este hradí» o levou a Pregador del-Rei Dom João o ÍV, lugar, que n'aquelie tempo pareceo herança da Familia Dominicana, contando-se n*e!le juntos cinco talentos, com que ditosamente negociava esta Provincia com as grangea- rias do espirito, e do credito. Erão elles o Mestre Frei Domingos do Santo Tliomaz, o Meslro Frei Álvaro Leitão, o Mestre Frei Fernando Soeiro, o ^Mestre Fr. Martinho da Fonseca, o Padre Frei António de Li- ma, todos do partido.

Não faltarão depois talentos, mas não be igual a fortuna em todos os séculos; os íllhos de S. Domingos para esse ministério se espalha- rão pelo Mundo, para esse forão trazidos a este Reino, e nunca desme- recerão n'aquelle lugar o nome de seu. Cançarão as mãos, que se da- vão á sua humildade para que sobisse; a capacidade he a mesma, com a diversidade de que então mimosa, hoje esquecida. Não assim en- tre os doutos a noticia do Meslre Frei Álvaro, sendo hoje o que menos a favorece alguns escritos seus (de que lançou mão a Imprensa) n>.quero tempo norma, e esmero da prédica; mais celebre o das Tardes, que pre- gou em São Domingos de Lisboa, impresso no anno 1070 e alguns Ser- mões avulsos, ou sepultados com o achaque dos tempos, ou esque- cidos com o methodo dos modernos, menos sólidos, quanto (na opinião de seus Authores) mais sobidos, depois que o desatino de indignos Mi- nistros do Evangelho, sentenceou a verdade aos trages do tempo.

Concorreo com o Mestre Frei Álvaro o Mestre Frei Gabriel da Silva, talento verdadeiramente áureo Theologo, e Pregador consummado era huma, e outra Faculdade, assaz conhecido por agudezas, e elegâncias, e tão poderoso a attrahir com ellas, que faltando- lhe o tempo para o incansável génio do estudo, por muito buscado, e assistido, se valia da iíidustria de negocear-se, fechando-se de portas adentro com os livros, commercio, em que cada dia se acbava mais bem lucrado. Assim era a >sua pratica negaça dos mais bem ajuizados da Corte, dando-lhe Dem sobre o grande talento para as Theologias, hum suave génio para as Musas, tão agudas, como modestas, de que colhemos alguns frutos, ou

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riO LIVRO I DA HISTORIA DE S. DOMINGOS

aflmiramos alguns partos, a furto de sua modéstia, n^estes aates perse- guida, que lisongeada.

Mas passemos a fillio igual, muito benemérito d'esta Casa, assim por sua pessoa, como por hemfeitor d^eila. Foi este o Mestre Frei Pe- dro de Magalhães. Inquisidor da Mesa Grande, que duas vezes o escu- tou Presidente. Eminente Theolgo o reconhecerão as Aulas, como lhe perpetuarão o nome os escritos, em que espantou seus estudos Refor- mado e observante via-se-lhe até no habito a estreiteza, a que reduzia sou espirito; pobre por instituto, no meio das grangearias do seu cargo, o conservou também pobpe a sua caridade; a necessidade própria o achou com a mão fecliada, estendida sempre para o dispêndio do culto Divino, de que he boa lembrança o que fez no Sepulchro, que lavrou para deposito do Senhor em Sesta Feira Santa (obra com igual artificio, que decência) a que vinculou hum juro perpetuo, assim para poder re- novar-se pelo tempo adiante, como para copiosa cera, que n'estes dias arde n elle. Nem as letras, nem os cargos souberão nunca alterar sua modéstia; viveo, e acabou estampa da humildade religiosa.

Filho foi também d"esle Convento o Mestre Frei Bento de Santo Thomaz, Theologo grande, para o que o capacitou hum entendimento claro, e comprehensivo, mas tão escaco nas praticas, ainda familiares, como se aqueile silencio fora meditação dos acertos, com que se fazia escutar nos públicos. No do Púlpito tinha delgadeza, e persuasiva; no da Cadeira formalidade, e clareza; assim foi n*esta verdadeiramente Mes- tre, n^aquelle Orador, occupou algumas prelasias: o génio brando o fez parecer n'ellas frouxo. Voltou-se ás Aulas, presidindo nas da Universi- dade de S. Domingos de Lisboa por Regente. Acabou finalmente a vida continuando os estudos. Assim foi amante d'estes! Assim soube não es- perdiçar aquella!

Do Mestre Frei Manuel Telles não ficarão mais, que as noticias dos lugares, que occupou Grande argumento de suas grandes capacidades em tempo, em que fazia os lugares poucos a concurrencia de perten- dentes beneméritos. Cora o gráo de Mestre chegou a Prior d'esta Casa; (de que era filho) logo a Prior Provincial d'esta Província; depois Arce- bispo Primaz na Cadeira de Goa. Não chegou a assentar-se n'ella, fale- cendo na jornada. Sem duvida lhe embaraçou o exercício a mesma jus- tiça, que o destinou ao cargo, porque se não gabasse o acerto humano, que linha enthronizado o merecimento. Occupou este cargo pelos de C31.

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Foi também filho d'este Convento por filiação, que lhe derão n'ella os Prelados doesta Provinda, Dom Frei Fernando de Oliove, Flamengo de nação. Foi nomeado Bispo do Funchal por el-Rei Dom João o IV, que conhecendo n'elle talento para emprezas grandes, o mandou a Mi- lão sobre o livramento do Infante Dom Duarte, que no seu castello es- tava prezo por ordem de FilippelV. Frustrou a morte do Infante a gran- de industria, com que Frei Fernando tinha disposto a sua liberdade á custa do grande risco de sua vida, de que escapou, trazendo a esta Corte toda a familia do Infante, lealdade, e zelo, que el-Rei lhe pre- miou com aquelle Bispado, a que não passou, por lh'o atalhar também a morte, que sempre oposta aos seus merecimentos, lhe embaraçou pri- meiro o glorioso eífeito do com que se conseguio a Mitra, como depois o premio do com que devia logral-a. Faleceo em Maio de 1664 deixando hum precioso penhor á nossa lembrança em huma especial, e perfeita Capella de Santa Maria Magdalena, que mandou abrir no Claustro, na parede fronteira ao Capitulo. He toda de finos, e bem lavrados, e poli- dos jaspes de varias cores, que servem de molduras a cinco laminas, em que se a vida da Santa, como a sua Imagem, de boa escultura (em hum artificioso nicho, que se abre no meio) rodeada de Anjos, em forma que representão os quotidianos raptos, em. que por elles era ele- vada a ouvir a Celeste melodia. Do pavimento da Capella sabe hum grande mármore branco, que acompanhado de humas cintas do mesmo vermelho, serve de campa a hum capaz jazigo. Entende-se, que o man- daria lavrar para algum parente aquelle Prelado ; agora, assim jazigo, como Capella (por contrato celebrado com a communidade) he de João Couceiro de Avreu e Castro, Guarda mor da Torre do Tombo.

CAPITULO VI

De Frei Manoel do Rosário^ Irmão Converso, filho do Convento de N. Senhora dos Martyres de Eivas.

Crescido assl na idade, como na devoção, e boa índole, entrou pe- los Sagrados Claustros d'esta Casa de Nossa Senhora dos Martyres o Irmão Frei Manoel, trazendo-o sua caridade destinado a servir aos Reli- giosos em officina de tanto trabalho, como o he a cozinha de qualquer Convento. Forão seus pais Francisco Dias, e Catarina Gonçalves, natu-

52 LIVRO 1 DA IIÍSTOUÍA DE S. DOMINGOS

rais de Cabanas, termo de Montemor o Velho. Recebeo o habito, e sa- tisfez ás obrigações de Noviço, como quem viera abraçai-as por gosto, depois de as pertender com trabalho; começoií-se logo a conhecer, qiic= não era menos prompto no desvelo, com que acudia ás funcções de Ue- hgioso, que ás de servente. Achava-o a madrugada na Igreja, passava, d"alli para a sua officina, e o que no fim do dia lhe sobejava das occu- pações d"esta, gastava de joelhos no Altar da Senhora do Rosário, de- voção, que lhe deu o sobrenome, e exercitou até sua morte. Obediente e observante exercitava o soffrimento, vencendo, e domando continua- mente hum génio áspero, e desabrido, dando-llie talvez maiores moti- vos de merecimento as imprudências de algum Prelado,

Adiantava á obrigação a caridade, servindo os llehgiosos. liarão n'esta parte seus morgados os Noviços, que sempre o achavão- alegre, e libe- ral do que podia haver á mâo, compadecido do pouco, que aquella idado anda sempre satisfeita, ainda não lhe faltando huma íX)rção arrezoada. l)"estes Irmãos passava ao extremoso cuidado de outros, que erão os pobres; devião-lhe estes maiores desvelos, camo mais desamparados; assim fazia particular comer para elles, dando exi>edii'ão ao dos Religio- sos; levava-o para aquella occupação hum continuo gosto, m-as pagava- ll.i'o o Ceo, que em todas lhe diminuía o trabalho, porqui; succedea muitas vezes, faitando-lhe o tempo, satisfazer (tanto- a elle) á obrígaeãi> da Gommunidade, que bem se alcançou, que não era a^ sua industria a que applicava as mãos, mas que mais superior providencia lhas mo- via, ou lh'as acompanhava. Assim se vião a hum tempo soccorrida a po- l)reza, bem servida a Casa, e Frei Manuel com duas gi^angearias emr huma diligencia.

Não contente com as muitas que fazia, porcjue a necessidade (que a instantes chegava a elle faminta) se fosse satisíeita, era a sua ração o primeiro prato que lhe punlia, porque o sustento quotidiano não pas- sava de hum pouco de pão grosso, e seco, li.'vado com algum jxxfco do caldo, hervas, ou legumes o seu prato mais mimoso. Assim não obser- vava, mas excedia o jejum da Constituição, sobejando-lhe com que augmen- tar a mesa aos seus convidados; multiplicavão-se elles a buscar o sini rtnnedio, o pagava-so Frei xManuel de perseguido. Mas ponjue fosso a' sua occupação mais meritória, o era não s') dos pobres, mas dos qrio condemnavão aquelle desvelo com elles, sendo talvez qwem prinií^iro ♦> estranhava a condição fogosa de algum Prelado, que zelava a Casa mal

PARTICULAR DO REINO DE PORTUGAL 53

servida, e pouco para dispêndios, sem advertir nas grangearias, e avan- ços, com que sahiria o bom Leigo para ella do pouco que lhe tirava. O caso, que lhe succedeo, servirá de boa, e engraçada prova.

Culpavâo diante do Prior a Frei Manuel, de que Senhor d'aquella oíTicina, não podia dar conta d'ella, alargando a mâo no dispêndio com os pobres, fazendo-lhes sua panella á parte, e talvez mais aventajada, que a da Communidade, se quer no cuidado, porque lhe levava o pri- meiro. Pareceo a queixa zelo, vio-se o Prelado comprehendido no des- cuido, quiz emendal-o na promptidâo do remédio, entra pela cosinha com apparatos de apaixonado, ve no fogão o comer dos pobres, (que até n'isso pareceo que o era, sendo o primeiro que encontrou a ira)vô o da Communidade, (parecendo-lhe que em peor lugar) rompe em pala- vras seccas, e desabridas contra o bom Gosinheiro, culpa-lhe as dema- sias, advertindo-lhe , que podia poupal-as, quando (como he costume na Religião) tudo, o que ficava aos Religiosos da mesa, passava ásmãos dos pobres na Portaria, concluindo finalmente, que estivesse certo, que se o não emendasse a advertência, o faria o castigo. Eis-que de impro- viso se ve estallar entre o fogo as panellas da Communidade, e de al- gum doente, ficando inteira a dos pobres. Fica o Prelado confuso, não menos alguns Religiosos, que o seguião, e condemnando-se a aspe- reza com que tratara o Esmoler, (com que os olhos no chão, e as mãos cruzadas debaixo do Escapulário, era huma estatua do soíTrimento) lho disse: que pois o Ceo o fazia seu dispenseiro, não lhe permittia, mas lhe mandava, que assistisse aos seus pobres; e o ajudasse, ou desse por elle a Deos as graças, de querer fazer aquella pobre casa de Domingos, liospedaria dos seus mimosos.

Seguia-se em Frei Manoel á caridade com o próximo a aspereza com- sigo; usou sempre lãa junío á carne, e como se fizesse com ella mimo ao corpo, se vingava no lugar, em que lhe costumava permittir alguma hora de descanço, que erão humas nuas taboasquelheservião de leito, do cuberta huma manta. Aqui chegou a hospedar 80 annos de idade, cortados de trabalho, e penitencias. Era tão áspera a das disciplinas, que tomava amiu- dadas, que o podia testemunhar o sangue, que em pastas lhe ficava nas Uiiiicas, SC não as fiara de hum moço de Casa, que Uvas levava com se- gredo; divulgou-se depois delle falecido. entrado cm annos, c con- tinuando os dias de obrigação em Matinas, o mandavão recolher os pre- lados ; mas ale que locavão a cilas, passava as noites na Igreja ; e acau-

54 LIVRO I DA HISTORIA DE S. DOAIINGOS

telando-se porque o nâo vissem n^ella, se recolhia antes que os Religio- sos viessem para o Coro. Assim o vião retirar muitas vezes, trôpego, e cançado o alento, que antes parecia que se arrastava, do que se movia.

Cultivador observante da Clausura, como se antes se sepultasse, que vivesse n'ella ; as Procissões do Rosário o obrigavâo a por o da porta para fora, e com tanta consolação do Povo, que o via, e o dese- java, que muitas vezes parecia tumulto o alvoroço. Tal a opinião, que se tinha grangeado. A nobreza da Cidade o vinha buscar, e ver ao seu po- bre retiro. Com mais frequência, e estimação os Bispos Dom Joào de Mello, e Dom Alexandre de Sousa, depositando em suas mãos o que querião, que com segurança passasse ás dos pobres, e descançando no acerto do que se dispendesse, como os que os escolhiáo por Esmoler, á mesma caridade.

Entre os exercícios d'ella o apanhou a morie, recebeo os Sacramen- tos devoto, e penitente, e passou placidamente a recolher a eterna gran- gearia do que negoceara pelas mãos da pobreza. Nào faltarão indicies d'esta felicidade, a nosso entender, permittindo o Ceo bum caso, qut? pareceo prodígio. Na noite, que o Irmão Frei Manoel faleceo n^esta Casa, sonhava na de Santa Clara da mesma Cidade o Confessor d'ella o Padre Frei António de Santa Catharina, que n'este Convento de S. Domingos tinha falecido daquella hora hum Religioso, que estava vendo no esquife amortalhado, com hum Rosário de contas brancas em fio azul ao pesco- ço, que elle por devoção lhe tirava. Acordou pela manhã este Padre, e ouvindo dobrar n'este Convento, lembrado do sonho, e circunstancias d'elle, resolveo-se a vir examinal-o ; chega ao Coro, vê, que era aquelle o defunto, aquelle o Rosário, como mostrava o fio, e tudo como Ih o representara o sonho ; suspende-se com o successo, muito mais com maiores noticias do que fora o defunto ; depõem aos Religiosos o sonho, e lembrado, que no Mosteiro das suas Religiosas estava huma apertada de cruéis dores de garganta, pede, e tira com devoção o Rosário, com que sonhara, e mandando-o á Religiosa, lançando-se-lhe ao pescoço, no mesmo instante se lhe tirou a dor do peito, que sentia naquella parte. Vive hoje a Religiosa, participando-nos ella mesma esta noticia, publica n"aquella Casa, como continuada a veneração, que o Servo de Deos tem n'ella, e como se mostra em alguma pobre alfaia de seu uso, guardada das Keligiosas com o mesmo respeito.

Faleceo em 3 de Outubro de 1080. Derão-lhe sepultura na Casa,

PAIITICULAR DO IIEIXO DE 1»{){\TIT.ÂL 00

que então era Capitulo, boje Sacristia, pai'a a f)arte esiiuerda, adonde poios annos de 1700, sendo Provincial desta Provincia o Mestre Vvei João Bautista de Marinis; e visitando este Convento, llie mandou lavrar liuma Campa, em que se o seguinte :

Annn 1G80 olnit Frater Emmanuel á Rosário Conçersus, qui tofo snw rÀlm discursu in hoc Cmnobio vixit religlose^ et humilUer serviens. Ilic si- lus est IV Ocíobris ejusdem anui.

Fillio he também d"esta Casa (ainda que os descuidos d'el!a nos não dão segurança, mais que buma boa conjectura) o Mestre Krei ignacio da Gosta; mas não merecem o mesmu descuido n^esta escritura, as- sim o conbecido de suas letras, como a boa opinião de sua vida, ain- da nos exteriores mui reformada. Fui o iMeslre Frei" Ignacio de natural seco, e retirado, de que lhe nasceo viver quasi em bum continuo sileij- cio. Acabou de occupar as Cadeiras Escolásticas, e ficando no Convento de S. Domingos de Lisboa, alcançou o grão de Mestre, digno premio de sua grande capacidade. A sua modéstia, ajudada de bum aspecto severo, e carregado, Ibe conciliavão i'espeilo. O apontado, e religioso de sua vida, o raro, e ponderoso de sua pratica, grande reputação com quem o conhecia, e tratava.

Feito Vigário Geral, e Visitador d'esta Provincia pelo Mestre Geral Frei António Clociíe, começando a visita, faieceo em Santarém, com poucos mezes de cargo, muito conhecimento de sua morte, não faltando nella circunstancias, que a fizerão notável. Esperava o ultimo termo, recebidos com devoção os Sacramentos, quando repararão os Ueligiosos, que Ibe assistião, que lançando os o bos para parte determinada da cel- la, formava muitas vezes com a mão buma íiga, sinal da constância com que desprezava, e despersuadia o inimigo, que o inquietava n^aquella hora, que be a mais própria da sua bataria. Nas exéquias, e OiTicio da sepultura be tradição de pessoas fidedignas, (o Mestre Frei Manoel da Encarnação, por outro nome Pontevel, foi buma delias) que se achou sem diminuição a cera, que ai'deo em todo aquelle tempo, que fui a maior parte de buma manbãa. Testemunhou-o assim o ollicial d'ella ; e fez tudo crivei buma morte tão desassombrada.

S6 LIVRO I DA HISTORIA DE S. DOMINGOS

CAPITULO VII

Vos Padres Frei Uaymundo da Purificação, e Frei Manoel do lioiario, filhos do Convénio de S. Domingos de Gninuirães.

Grande trabalho o que depois de repetido fica infructuoso ; e magoa conhecida de quem a experimenta, e de quem sabe avahar a precio- sidade do tempo, que não vingado ainda de quem traballiou por isso, entra também no numero de ocioso, se não no exercicio, ao menos no (ífTeito. Não lie menor martyrio de quem escreve antes desenterrando, (|ue descobrindo noticias, ver, que não valem nem desveladas diligencias, sem mais remadio a que recorrer, que a conjecturas, que sempre deixâo a porta aberta ao arbítrio da djvida. Mas não bastará este receio a sus- ])ender-iios a penna, seguindo o estylo dos nossos Chronislas, que fal- tando a noticia da filiação do Religioso, de qua se escreve, lhe costumão (lar lugar na Casa em que morre, reflexão bem considerada para se en- tender, que vai tanlo o berço, como a sepultura; tanto a Casa, em que começamos a vida, como a em que vimos a acabal-a.

Faleceo a Padre Frei Haymundo n"este Convento de Guimarães; e lião se achando noticia da Casa, de que fosse filho, vem a ficar esta com .duas glorias, seg;iidn huma da outra, porque por deposito do seu corpo faz justiça para o merecer por filho. Foi esta Casa daquelles pii- meiros Seminários de virtade, que o espirito do nosso Santo Patrlarcha, communicado ao Venerável Frei Soeiro Gomes, plantou n'esía Provincia, e mereceo hospedar alguns dos primeiros pais, c propagadores d"ella, (Omo hum S. Frei Pedro Gonçalves, na voz commua San-Telmo, hum S. Gonçalo de Amai^aute, Thaumaturgo de Portugal, hum S. Frei Lou- i'enço Mendes, de quem, e de outros muitos, parece, que estão ainda lioje dando documentos aquellas veneradas, c antigas paredes, fallando talvez com as vozes do sangue, de que se virão salpicadas, e enriípie- cidas. Escutava as sem duvida obediente o I*adre Frei Uaimundo, que não satisfeito com as asperezas da vida, que professara, enlendeo. que com o conhecimento, e com os annos, devia também adiantar os exer- cícios.

l'ontual nos de acompanhar a Communidade nos jejuns, oração, lãa junto á carne, não lhe esíjuecia, que o seu Instituto lhe não píninitlia occupar-se comsígo; que i)ara os outros, para ensinal-os, e adv(írtibos.

PAnTÍCULAn DO REINO DE PORTUGAL 57

O levantara o Ceo á alalaya do Púlpito, como farol acezo, qne lhe mos- trasse o caminho. Entregou-se ao exercido da pregação, com o conhe- cido lucro do quem o ouvia. Talvez aceitava esmola, porque para que o fosse» a queria ; e quando voltava de pregar para o Convento, deixava nas mãos dos pobres o que grangeara para elles. Assim era o seu Sermão duas vezes eíleito de sua caridade, experimentando-a pri- meiro as consciências, depois as misérias. Quem assim dava, não reco- nhecia mais Ihesouro, que a pobreza. Via-se esta com edificação de to- dos em sua pessoa; via-se em sua celIa; não havia nVJIa mais que hum Ghristo de grande devoção sua; duas túnicas, huma capa, hum enxergão com mantas, c coberta. Entre estas alfayas avultava a livraria. As Parles de Santo Thomaz, a Bibha, e o Hreviario: n^ste aprendia como havia de viver, n'aquelle o que havia de pregar; por isso os seus Sermões erão frutuosos, porque a sua vida era a mais elFicaz, e persuasiva i'he- torica, que apparecia no Púlpito, e os assumptos as verdades, que dictou o Espirito Santo.

Grande confusão para os Pregadores do nosso calamitoso século, que por mais que gemem com o pezo das Livrarias, sobem tão leves ao Púl- pito, que não chegão do livro mais que as folhas, que fazem papel de verduras. Lastima he, que lhe esqueça, que se a estas seca o tempo, e aqueilas leva o vento, fica tronco o Sermão, e matéria do fogo, não sendo outro o seu trabalho, mais que sobirem áquelle monte, a que Deos attende, carregados com o lenha, em que hão de arder desgraçada victima. Era o Santo Frei Raimundo grande Letrado : esle nome lhe deu a lembrança de quem delle teve experiência. Não o contarão as Aulas no seu nimiero, mas avaliarão-no sogeitos grandes no seu merecimento; não sendo novo na Familia Dominicana faltarem grãos, e sobejarem so- geitos; sendo igual a capacidade, adianlase em huns a ventura, em ou- tros a diligencia, com que nem a gloria dos que se adianlão fica arguin- do dezar nos que ficão. l']ra Letrado grande Fr. Raymundo, não atten- deo ao lucro das letras, mas á obrigação d'ellas: era todo o seu emprego reformar-se a si, e ensinar ao próximo.

Achava-se com 80 annos de idade, nem dizia Missa, reduzido áquella fraíjueza, em que o poz mais de pressa o eslylo austei'o de sua vida. Temia o Prelado da Casa o arrebatado íim delia, e entendia, que Frei Raymundo se não aconselhava com seu entendimento, e o seu espirito, pois. ao que parece, se descuidava do que o eslava ameaçando.

-5S UVRO 1 DA HISTORIA DE S. DOMINGOS

Advertio-lhe por vezes, que se confessasse ; a que em huma respondeo o bom velho com igual humildade, que segurança, e desembaraço : Pa- dre Prior, não^ não recee ; que eu não hei de morrer sem Sacramentos. Mas para dar volta a huma vida tão larga, he necessário mais tempo ^ que o que até aqui tenho tomado: descance; que não me esqueço. Passados alguns dias, chamou á sua cella ao Padre Frei Sebastião da Madre de Deos, Religioso de bom nome ; (que ao presente he Prior de Aveiro, e a quem devemos a verdade desta noticia) tinha com elle famiHaridade, pedio-lhe, que o ouvisse, e posto a seus pés, se confessou com a miu- deza, e particularidade de quem se tinha examinado desde o uso da ra- zão até á hora presente, acompanhando as cançadas, e penitentes vozes com tão copiosas lagrimas, tão Íntimos suspiros, e soluços, que não po- dendo suspender as suas o Confessor, era preciso a ambos o descança- rem, para se ouvirem, e entenderem. Fermoso espectáculo para a mise- ricórdia Divina, e para a confusão, e compunção humana I

Pedio pouco depois o Viatico, que recebeo de joelhos, e com tantas lagrimas, que a toda a Communidade convidou a ellas; e chegado o dia de sua morte, (foi o da Senhora em sua Assumpção) pedio, e recebeo a Unção com iguaes demonstrações; deu- lhe hum accidente, de que tor- nou, tendo á cabeceira o Padre Frei Sebastião seu Confessor, que exhor- tando-o para o ultimo termo, lhe perguntou, que hia no outro Mundo? «Não sei nada» (respondeo elle com socego, e desassombro) «mas não tardarei em sabel-o»; e continuou como queixoso de que alii perto es- tava hum preto, que o perseguia, mas que debalde, porque estava fir- míssimo na Fé, em que Deos por sua misericórdia o creara; que lan- çassem para alli agua benta; para d'0nde levantando o braço, fez a for- ma de huma figa, e disse em voz, que todos perceberão: «Porque não te atreves? Porque não chegas? E voltando os olhos ao Confessor, e correndo com elles a Communidade, continuou com semblante alegre: «Padres, tenho aqui mui perto huma Dama tão fermosa, que não ha quem a iguale. A que acudindo o Confessor, e dizendo-lhe que não cresse em nada, mas em Jesu Christo, Deos verdadeiro; que aquillo era falta de juizo: tornou elle com socego: «Que estava com o seu juizo, e potencias tão inteiras, como quando estivera no maior vigor de sua vida». E indo-lhe faltando o alento, pedio lhe começassem o Oíficio d\aquella hora, e respondendo a elle, e repetindo com o Confessor aquella de- vota supplica do liymno da Senhora: Maria Mater gratiw, Mater mise-

PARTICULAR DO REINO DE PORTUGAL Síl

ricordice, tu nos ah hoste "protege^ et hora mortis suscipe, espirou ião pia- cidamente, como quem antes esperara, que temera a morte. Levou-o á sepultura o mais escolhido da nobreza da Villa, depois de grandes de- monstrações de sentimento, e veneração do Povo, que chegava a bei- jar-lhe os pés, e cortar-lhe o habito, contentando-se muitos com se lhe deixarem tocar Rosários, outros com vel-o, e todos com ficar entre el- les aquelle deposito. Tem sepultura no Convento.

Não foi menos consolação para a mesma Villa, como gloria d'esta Casa, hum filho de ambas, que bastou a ennobrecel-as, o Padre Frei Manoel do Rosário, tão observante, e de tão experimentada, e conhe- cida virtude, que gastou grande parte de sua vida na escola, e compa- nhia do Venerável Padre Mestre Frei João de Vasconcellos, como dis- cípulo, e companheiro d*aquelle grande espirito, que os sabia conhe- cer, e medir. Falecido o Venerável Padre, se recolheo o Padre Frei Ma- noel a esta Casa, (como a Mãi sua), em que viveo muitos annos com hum tal recolhimento, esquivança e desvio a todo o commercio, que senão achava senão na cella, ou no Coro.

Oração continua e mortificação tão continuada, que contando no- venta e três annos, até o prato da Communidade (onde nunca ha regalo) trocava por outro mais grosseiro, comendo tão pouco ainda d'este, que se pela calidade repugnava ao gosto, pela quantidade não promettia sus- tento. Foi pontual, e austero nos jejuns das Constituições, nos da Igreja, e em muitos de sua devoção; e nem os annos, que lhe enfraquecerão as forças, o afrouxarão nos rigores; sem mais achaque qne estes, cahio na cama sem alento. Derão-lhe os Sacramentos, que recebeo com grande consolação de espirito; e cerrando os olhos, e entendendo a Communi- dade que tinha adormecido, se desenganou logo, que se passara ao eter- no descanço.

Outras noticias nos poderá dar esta Casa, em que gostosamente alargáramos a penna em veneração sua, como antigo domicilio dos grandes cultivadores da observância Dominicana; mas pratica-se n'ella o que em todas d'esta Província, desconhecer, ou não prezar memorias, que lhe podião servir de honra, com o inconsiderado escrúpulo, ou leve desculpa, do que seria jactância, sem advertir no roubo de bons exemplos» que se faz aos séculos vindouros, e de louvores e graças, que se repetem a Deos, como prodigioso nos seus Justos. Mas passe- mos adiante, que o poder ser esta escritura maior, não lhe tirará o ser

60 LIVRO I DA HISTORIA DE S. DOxVlINGOS

grande, como o foi, c lie a fecunda seara de virtudes, que o Ceo sem- pre conservou, e conserva na cultura Dominicana d'esta Província.

CAPITULO VIII

Do Irmão Converso Frei Jorge dos Santos, filho do Convento de Évora, chamado o Porteiro Sancto na voz do Povo. Entra na Religião, suu vida, e exeixicios n'ella.

Fortunada Casa a de Évora com os seus filhos Conversos ! conti- iiTiando-se agora o que d'elia escrevia o Padre Frei Luiz na primeira Parte da sua Chronica : Que era pratica d'esta Província, que se davâo bem Frades Leigos n'esta Casa. E eu accrescento, que se pôde indivi- duar: E especialmente na sua Portaria; porque do Irmão Porteiro Frei Pedro, de que elle alli escreve, temos entre mãos huma copia para au- Ihorizar aquella máxima, que agora parece profecia, com a ventura de que de algum modo ficará com recompensa a omissão de memorias, que continuamente lamentamos n'estes escritos, resgatada esta, com que entramos, de tanta importância, para o credito d'esta Província, que faz venturosa a providencia, com que os Prelados puzerão na mão a penna, que sem mais que este assumpto, ficaria igualmente ditosa, como com elle nunca melhor empregada. Nasceo o Irmão Frei Jorze (no século Jorze AíTonso Rodeo) na Aldeã de VaFde Santiago, no Campo de Ourique, Arcebispado de Évora. Forão seus pais João AíTonso Ro- íleo, e Alargarida Pires, Lavradores honrados e virtuosos. Assim cria- rão o filho com sãa, e boa doutrina, fácil de aprender, e exercitar, a (|uem occupado na cultura do campo, antes desconhece, que foge os desmanchos da primeira idade.

Contava Jorze AíTonso a de vinte annos, quando achando-se na Ci- dade de Évora, e entrando hum dia á Wissa da Alva na Igreja desta Casa de S. Domingos, vio, que chegando-se a elle huma mulher de res- peito, e rara fermosura, lhe dizia: «Porque não buscava o Prior d"aquel!a Casa, e lhe pedia o habito de Leigo, para servir nella. Era Jorze moço singelo, e bem inclinado ; (nem merecera de outra sorte tal conselho) nada lhe pareceo, que lhe convinha mais, que cxecutal-o. Chega ao Prior. 6 com pouco, e despido arrezoado pede o habito, oíTerecendo-se a ser- vir o Convento. Ouvi-o o Prelado, festejando mais a singeleza, que a

PARTICULAR DO REINO DE PORTUGAL 6 f

proposta, e despedi-o desenganado, de que estava a Casa cheia de gente do seu préstimo. Desconsolou-se com a repulsa, mas sérvio esta (por superior disposição) de lhe aíTervorar a anciã, trazendo-o repetidas ve- zes a esta Tgreja, especialmente ao Altar do Rosário, adonde propunhii á Senhora a sua desconsolação. Não paravão os desejos de segundo en- contro com a sua boa conselheira, ílgurando-se-llie, (não discursava mais sua singeleza) que lhe serviria de valia. Não tem esta Senhora (que não podia ser outra, mais que a Virgem piíssima) occupação mais gostosa, que a de Advogada. Eis-que se lhe offerece outra vez na mesma forma; e consolando-o, lhe adverte, que porfie e torne ao Prelado da Casa, atò ter effeito a sua diligencia. Cobra o pertendentc novo espiriio, (já pa- rece, que o illustrava soberana assistência) não larga o Aliar da Senhora, passa d'elle á cella do Prior, acha valedores nos Religiosos, e no Pre- lado edificação de sua constância, que (proposta por ellc ao Provincial) em breves dias veste o habito ao pertendente, com votos, e alvoroço de toda a Communidade.

Noviço Frei Jorze dos Santos, (que este foi o nome que tomou) foi correndo, e descobrindo no anno do Noviciado os grandes quilates da virtude, que promettera sua resolução. professo, o observante á risca das leis, a que se sugeitara, adiantava se penitente nas do comer e vestir; á lãa junto á carne accrescentava cihcios; ao jejum diminuía o prato, que todo era para o pobre, ficando-lhe algum pouco de pão, que com huma tigella de caldo era seu sustento quotidiano; mas ainda comprado tão caro, que antes que o tomasse, se lhe ouvião profundos ^^emidos, acompanhados de grossas lagrimas, que cahião de seus olhos compostos e mortificados. Grande imitação d'aquelle penitente, a que o pranto servia de prato (1) ! Melhor d^aquelle, a que os suspiros pre- paravão a mesa, as lagrimas a iguaria (2).

Occupava-lhe o dia o serviço da Casa, e guardava o exercício da oração para a noite. Inteiras as passava na Igreja; que nunca se lhe sooIjo de cama. Nas lages nuas, ou de algum Altar a acharia vencido do sono, mais que convidado do descanço; doutrina, que lhe dera N. Pa- triarcha. Ordenárão-lhc os Prelados, que tomasse a occupação da Por- taria; festejou-o a sua caridade, que em breves dias lhe deu o nome do Pai dos pobres; com elles gastava o dia; e como a noite lhe levava a

(1) Fucnint líiihi lacryma* panes. Ps. 41 í. (2) Antcqua comedam suspiro, et tan-

quani inuiitlaiites \íí\hjí ik rugifus meus. Jcb. 3. 2i.

LIVRO 1 DA HISTORIA DE S. DOMINGOS

íissistencía cia Igreja, não teve nunca cella, nem lugar em que se reco- lhesse, ou descaneasse em quai-enta e seis annos que teve de vida, e assistência n'esta Casa. A toda a hora o achava a necessidade com a porta aberta, as mãos diligentes, a boca cheia de rizo. Buscavão-n"o pessoas illustres e poderosas, especialmente Dom Theotonio de Bragança, Arcebispo de Évora, commercío que estimava para remédio dos seus pobres, alcançando continuas, e grossas esmollas, que nâo repartia -com os mendigos, mas, lince das ní^cessidades occultas, entrava sua pie- 4Íade pelas portas á viuva desamparada, e á donzella recolhida, sabendo- ihe antes os desamparos que a casa.

Com os pobres da sua Portaria desvelado e industrioso em ajuntar os sobejos da mesa, divisando-se-lhe no rosto a abundância, ou penii- ria do que ficava. Assim era adagio nos Religiosos, conforme tinha sido á mesa, chamarem ao dia triste, ou alegre para Frei Jorze. Mas pagava-se tanto o Ceo da desconsolação, com que se achava ao faltar-lhe que repartir, que abrindo muitas noites a porta, via, que chegavão al- guns mancebos repartindo pão, e vinho aos pobres, que chegavão a ella. Vinhão estes todas as noites buscar o abrigo, que Frei Jorze lhes pre- parava debaixo do alpendre com esteiras, e a roupa que podia. Assim se repartia o trabalho entre elle, e o Ceo, que elle lhes fazia a cama, e o Ceo lhes mandava a cea. D'este caso foi muitas vezes testemunha de vista hum homem criado da Casa. e de boa vida, a quem Fr. Jorze fa- zia crer, que os mancebos, que fazião o dispêndio, erão vinhateiros, que vinhão do trabalho, sendo fácil de entender, (porque nenhum foi conhecido) que serião Anjos, que vinhão a aliviar a aíllicção do bom Porteiro. Mas sendo este o único cuidado, que o não deixava descançar huma hora, assim lhe parecia que fazia pouco, que, perguntando-lhe em huma occasião Manoel Severim de Faria, Chantre de Évora, como se achava com os seus pobres, lhe respondeo: ^<Ah Senhor, não sei se me levarão os pobres ao Inferno ! Grande confusão para as entranhas duras, e bolças cerradas dos ricos, e poderosos, quando a mesma po- breza dispendendo, e servindo, vive atemorisadal

De lidar com os pobres o passava muitas vezes a sua caridade a occupar-se com os doentes, em os havendo na Casa, sendo tal sua dili- gencia, que estando todo na Enfermaria, não achavão menos na porta. Assistia ao enfermo sem perdoar a passos, ou a desvelos; em tudo se achava tão adiantado, que commummente era na promptidão dos reme-

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ilius, e ainda cios regalos, ou desfastios, na limpeza, e aceio da cama e da cella, e até o não restituir á inteira melhora, não descançava. Erão suas mãos, e suas orações a mais efflcaz medicina, não para o corpo; parece, que mostrou o Ceo, que também para a alma.

Estava de muitos annos entrevado o Padre Frei Duarte de Oliveira, reduzido ao estado de liuma criança, porque até, como desamparado do uso da razão, não obrava cousa, em que não mostrasse essa falta. Assis- lia-lhc Frei Jorze com as entranhas de huma mãi desvelada, porque como a tolhido até lhe era preciso meter-lhe o sustento na boca. Desengana- dos já os remédios, afíligião-se os Religiosos de que acabasse Frei Duar- te sem Sacramentos. Foi cousa notável, que nas ultimas horas de sua vida correo Frei Jorze ao Prelado, dizendo-lhe, que o enfermo estava restituído a inteiro juizo, e voz desembaraçada, com que pedia os Sa- cramentos. Confessou-se logo, e recebeo-os, e com grande consolação do sua alma acabou a vida com sinaes da única felicidade, que se pôde se- guir a cila, resolvendo os Religiosos, que sem duvida premiara o Ceo ao bom Enfermeiro o seu trabalho naquella única, e verdadeira melho!*a do seu enfermo.

Incansável no cuidado com o próximo, tudo comsigo erão descuidos no que tocava a commodos da vida. Era o seu habito na matéria vil, o grosseiro, no feitio antes mortalha, que habito, ajudado de remendos, íjue devia á sua industria, porque o que lhe davão para se melhorar (Kelle, era do primeiro mendigo, que lhe apparecia menos enroupado. Não he digno (não digo de reparos, mas de assombros) que não ves- tio outro em 40 annos ; e muito mais, que naquelle burel gastado, mas nunca consummido com o uso de tanto tempo, pizado de noite pelas la- ges da Igreja, e de dia servindo á meza aos pobres na Portaria, nem se vio nunca o desaceio de nódoas, ou se percebeo mão cheiro de quem o examinava de perto, antes agradável, e attractivo, com o exterior con- certo, e limpeza, como se até aos vestidos se communicasse a de sua alma.

Não faltavão cobiçosos daquelles velhos, mas aceados remendos, que os Religiosos da Casa, e os que tinhão mais commercio com elle, ti- nhão em grande estima, como os que fazião reparo no que se conser- vavão, e no corpo, que cobrião. Houve hum Religioso de ausentar-se ])ara outro Convento, e levando deste a magoa de perder a companhia de Frei Jorze, não se resolveo á partida sem levar huma prenda daqueíla

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sua galn. Observou hum fio, que lhe pendia delia, dissimulou, entrou com elle em pratica, o parecendo-lhe, que o linha devertido, e segura, lançou acautelado mão do fio, e recolhendo-o com segredo, indo a des- pedir-se, poz n"clle os olhos Frei Jorze, e disse-lhe com rosto grave: Padre, que he isto, que faz? Não sou contente, que use isto comitjo nos vestidos. Sem superior conhecimento (assentava o Religioso) que o não podia ter do furto (I). Mas grande preço de túnica, donde obriga a re- paro o tocar-se-lhe em hum fio I Fel-o o mesmo Christo, fazendo-se-!he o mesmo á sua. Singular gloria sem duvida de huma remendada morli- Iha Dominicana (2) !

Debaixo daquelle pano grosseiro, e roto cobria Frei Jorze hum co- ração inteiro, inílexivel, zelador da honra de Deos na observância do que lhe era mais aceito, advertindo com liberdade modesta, e reportada aos mesmos Prelados da Casa, o que devião obrar para refoqma, o bom go- verno delia. Se era mais árdua a matéria, e que o escutal-a mal o Pre- lado, o podia pôr em alguma desattenção de súbdito, deixava-lh'a escrita na cella, quando de madrugada hia buscar as chaves da porta. Conheciâo os Prelados, que faltava em Frei Jorze o zelo, e que a matéria vn"ia conferida em mais soberano conselho, e determinada por mais acertado voto. Escutavão, e obedecião. Mas nem ainda assim faltavão ouvidos re- l)eldes de algum, que sentindo humanamente do que se lhe aconcelíiava, escutava o acerto com desagrado, expondo-se antes a errar absoluto, que a acertar aconselhado ; capricho mui casado com o génio de quem leni mando. Por duas vezes acharão semelhante repulsa, e inobediencia as proveitosas advertências de Frei Jorze em dous Prelados inflexíveis, o cabeçudos; mas a hum segurou, que se não fizesse o que lhe adverti;!, o castigaria Deos brevemente com huma doença, A outro, (seria de mais importância, e consequência o aviso) que a vontade Deos ei"a a execução delle: que não esperasse, que lh'a viesse pedir a morte, porque o des- enganava, que não o executando, acabaria primeii'0 a vida, que o Prio- i-ado. Succedeo assim. Nem os Prelados obedecerão, nem os castigos laidarão, perdendo hum a vida, o outro tendo-a arriscada em huma gra- ve doença.

.\7io era menos importante o que Frei Jorze propunha, e adveitia aos Provinciaes, experimentando- se no infallivcl do eíTeilo as anticipadas

(n Tpligit siinbrir.n), YCítimciiti cjus. >latlb-i3i 0. ÍO. [i] Ait. quis teligit veitiuiciita inca. Marci i>. v. tIO.

rARTICUIAU DO RKINO DK PORTUGAL t)5

noticias, com que o Ceo o linlia illiKStrado. Dous casos bastarão para ar- gumento. Dera o Provincial o habito de Frade Leigo a bum íiioço, ir- mão inteiro de Frei Jorze, (que o pedira com instancias) e o alcançara por se saber, que o era: estava ao presente o Provincial n'oste Convento de Évora, e por mais que a supplica, c despacho foi em segredo, porque assim o pedira o pertendente, na mesma noite o alcançou Frei Jorze, sabendo-se lambem, que em toda cila não tivera elle, como costumava, mais que o Santo commercio da sua oração na Igreja. Amanbeceo, entra pela cella ao Prelado, e pondo os olhos no chão, as mãos levantadas, e as lagrimas nos olhos, lhe disse: Padre Provincial, pesso a Vossa Pater- nidade pelo amor de Deos, não de licença a meu irmão para tomar o ha- bito de Nosso Padre S. Domingos. Estava ja passada a Patente, tomou o irmão o habito em Elvas : mas professando, e tendo logo huma levo causa, deixou o habito, e o Convento, e desappareceo, sem haver outra noticia d elle.

Gonseguio outro mancebo o mesmo despacho para Frade do Coro: sua capacidade dava esperanças de melhor acerto, não no voto de Frei Jorze, que buscando ao Provincial, lhe advertio, que não convinha; e não lhe diíTerindo, se sahio desconsolado, dizendo á porta da cella : O Padre Provincial está firme em aceitar o Noviço, os Religiosos dar-lhe-hão o voto, mas elle assistirá mui pouco no Convento, e Cidade, em que to- mar o habito. Vio-se assim, porque alguns desmanchos trouxerão o Ue- "ligioso sempre mal visto dos Prelados, e alguma falta depois descuber- ta, retirado dos Conventos mais populosos. Assim era proveitoso, e bem en" caminhado o zelo de Frei Jorze, escolhendo Deos aquelle instrumento rude, e fraco no voto do Mundo, para confundir o sábio, e domar o poderoso (1).

Com igual inteireza, e espirito aíTouto admoestava aos Religiosos, em que via alguma falta para a emenda delia ; o mesmo com os seculares, com que tinha algum trato, mas com hum tal estylo, que primeiro os deixava agradecidos, e depois emendados. Veio visitar esta Provincia o Mestre Frei Pedro Manrique de Stenestroza ; (que depois foi Provincial de Andaluzia) achava-se nesta Casa, descia á Portaria para passar a vi- sitar as Freiras, e reparando em Frei Jorze, elle lhe disse, beijando-lhe o Escapulário : Reges eos in virga férrea, et tanquam vas figuli confriges eos{2): são palavras do Psahno 2, querem dizer: governai aos súbditos com

(1) Stulta mundi degit Deus, ut eonfundal sapicntes. i. ad Corinlh. i. v. 27. (2) Pgalm. 2- T. 9.

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LIVRO l D.V tllSTOlUA Dt S. DOMINGOS

vigor, c inteireza, e aos mãos reduzi-os a pó, e nada. Ficou admirada, (e depois de sajjer qmm era o conselheiro, confundido) o Visitador, não da pronuncia, mas da ensergia da advertência.

Uni,a, e ajuntava Frei Jorze a esta liberdade, e inteireza no adver- tir, e reprehfinder huma obediência fabricada nu officina de sua profunda humildade admirando o como se escondião aquelles impérios de minis- tro nas sogeições de Religioso. Não respeitava com ellas abatido, e sem acção, própria, aos seus Prelados, iinas aos seUíSí iMestres, e I'ais do espirito, sacriílcarido até as maiores evidencias do conhecimento próprio (ainda illustrado) ao que se llie ordenava por preceito. Foi caso novo; iiçlle temos prova, e clareza.

AdoeceO; Frei Jorze, c mostrou logo carranca- a doença. Assistia-lhe Manoel Peres, xAledico da Gasa, e naquelles tempos Oráculo da Medicina, Resolveo, que todos os sinaes erão de moi'te ; que o enferioo se sacra- mentasse. Acodio Frei Jorze, assegurando com socego, e brandura, quç não era necessário Viatico, porque elle não morria. Instou o Medica no- vamente iiiíormado, replicou Frei Jorze muito mais segura. Era seu Con- fessor o Mestre Frei André de Santo Thomaz : alcançou licença do Prior para ministrar o, Viatico aa enfermo, entendendo, que venceria nelle to- da a repu^maiicia. por suppor, que o. demónio a fomentava. Confessou- se Frei Jprze,e advertindo-lhe outra vez o Confessor, que havia de to- mar o Sacranientp por Viatico, a a Unçãp. coma moribundo, pois assim o dispunha o, Medico, respondco : Padre Mestre, eu bem sei, que o como devo tomar o, Senhor he por davoção, C; não por Viatico, porque eu não morrx); mas pois. Vosso. Paternidade como mi3u. Confessor mo or- dsnçi, eu; estou, prompto para tudo. Assim tomou o Viatico, e a Un-^ çao cora n^uita devoção, e lagrimas; mas vio-se aooutro dia a seguran- ça com, que faltava, levantando-sc, o indo para a sua Portaria, con^ fusos todos assim da repentina melhora, como do sacrifício do sua obediência,

Não a illtistrava o Ceo, ao que parece, no que lhe pertenciaj mas de muitas cousas tov,o antecipadas noticias, e- tão verdadeiras as que dava que não havia caso do importância, em que se não visse importunada para o pal^rpcinio, como para o conhecimento do snccosso ; occasiões a que fugia, e se esquivava, facilitando-se mais com os Religiosos, porque os não podia ver afflictos. Forão os successos muitos, sem mais, que a circuraslancia de ser infallivel o que resolvia. Não nos detemos, porque

PARTICULAR DO REINO DE PORTUGAL 67

pareça desejo de alargar a escritura, e enfadar com ella. Apontaremos só, qae por meio de sua orarão conseguio Frei Jorze (ao que parece) o communicar-lhe o Geo os seus segredos, franqueados . sempre aos pequenos e aiiatidos('l).

Faleceo a mãi de hum Religioso da Ordem, conhecida sua, e que o ajudava para o dispêndio da sua Portaria; der3o-lhe na igreja do Con- vento sepultura, e virão-no a elle alta noite com os braços abertos, lançado sobre a campa d'ella (era este o estylo com que as mais vezes orava). Amanheceo e pedio esmola para duas Missas, que mandou logo dizer pela defunta, entendendo-se, que na oração alcançaria, que erâo os suffragios, que pedia sua alma. Faleceo Dom João de Castro, que foi Governador do Algarve, e occupou outros postos n'este reino; ti- nha sua casa junto ao Convento, grande commercio com elle, e sua mu- lher igual opinião de Frei Jorze. Pedio-lhe, instou com elle, e impor- tunou-o a viuva, que pedisse a Deos pela alma de seu marido, e que lhe alcançasse, se estava em boa parte. Escusou-se o pobre Frade da noticia, mas prometteo os suíTragios. Passados alguns dias, e tornando a instar a viuva, lhe disse: «Quedescançasse; que a alma de seu marido estava vendo a Deos».

Assim era familiar o commercio, que tinha com o Senhor na ora- ção, e assini sobia d'aquelle abatimento com que orava, ás visinhanças do Ceo, que mais que a terra parece tinha por vivenda. Conhecia-se nas vezes, que o vião extático. Em humas Matinas solemnes, a que as- sistia, repararão alguns Religiosos, que acompanhava o Coro no Cântico Te Detm laudamus, com huma voz sobida, e harmoniosa, não sendo d*aquelle metal a que tinha. Passarão os Religiosos palavra huns aos ^ outros, e chegando alguns a carear-se com elle, o virão im movei, sem dar altenção a nada, tendo abertos os olhos, de que lhe cahião grossas lagrimas, vozes mudas com que sua alma acompanhava sua harmonia.

Mas não sofria o inimigo commum ver tão valido do Ceo hum Lei- guinho rude; pobre, roto e abatido; (como se não fossem sempre estes os seus únicos mimosos) e desenganado, ou receoso de entrar com elle em contenda, de que sahisse com victoria, se resolveo em assustal-o, e desafiar-lhe o soffrimento. Soube-se, (seria depois de sua morte) que o demónio ameaçara a Frei Jorze, que não passasse a noite na Igreja, porque a cada instante o inquietaria; e sem duvida foi desafogo do ameaço

(t) Abícondlsti hàcc á Éàpientibus, et revelasti ea parvulig. Bíatth. II.

68 LIVRO I DA HtSTOULV DE S. D0MIN<50S

O successo, que diremos agora. Tocarão huma noite á Portaria cora re- petição, e com pressa. Acordou o Prior, e esperou tempo, dando lu- ^i\v a que o Porteiro descesse abaixo, Yio que tardava: amiudando-se os golpes na campainha, sahe com ira da cella, busca a Frei. lorze na Igreja, que era a sua; e reprehendendo-o com aspereza, e mandando-o acudir á porta, lhe respondeo: «Padre Prior, pôde V. Paternidade recolher-se, que ninguém está na porta». Instou o Prior que sim; e indignando-se com os mocos do Convento, que o seguião, e lhe seguravão que lai nâo ouvirão, mandou a Frei Jorze, que sem replica fosse á Portaria. Obe- deceo elle, e abrindo a primeira porta, que hia para ella, disse: «Muito bem vos conheço;» e cliegando á porta, e vcndo-a desamparada, vol- tou para o Prior, dizendo-lhe: «Isto está acabado: eu terei o cuidado que devo». Uecolheo-se o Prior, e passando pela cella de hum Reli- gioso entrevado, que achou com o Enfermeiro, ouvio o ultimo desengano, porque lhe segurarão, que a tal porta se não tocara, pois elles alli esta- vão, e ella visinha.

Soube-se pela manhã o caso, e resolverão os que tinhão mais co- nhecimento do Porteiro, que erão traças, com que o inquietava o de- mónio, fazendo, que o Prior e elle ouvissem aquelle estrondo, para que se seguisse o que tinha succedido, porque o Prelado havia de in- diguar-se de tardar o Porteiro, o Porteiro não havia de acodir, sabendo que era o demónio. Na Igreja, e na Portaria se lhe andava oflerecendo em varias figuras, com visagens estranhas, que humas vezes o movião a assombro, outras a rizo, corno lhe succedeo em occasião, que aju- dando á Missa, vio, que sobre os hombros de huma vellia, que estava na Igreja, se volteava, e saltava ligeiro, com meneios, e figura de hiun graíide e carrancudo mono.

Cresceo hum anno a fome na Cidade; a pobreza, como a primeira executada, corria á Portaria de S. Domingos, aonde a chamava a fama caritativa do seu Porteiro, que, sem perdoar a diligencias, recorria quo- tidianamente á mais importante, que era propor aquelle desamparo aos clementes olhos^ da Virgem Maria em huma Imagem sua, (que se via sobre o segundo tnboleiro da escada, que sobe do Claustro para o Dor- milorio) que saudava de joelhos todas as vezes, que por alli fazia ca- minho. Agora a buscava com mais anciã, obrigado do aperto em que via a pobreza. Succedeo, que ajoelhando huma vez para fazer a mes- ma supplica, eis-que com os olhos em huma grande alcofa de pão

PARTICX^LAR DO RKINO PORItTCÍAL 69

alvo, e mimoso; alvoroçou-se, e estendendo com presteza, e alegria os braços a pegar na alcofa, vô, que lhe foge das mãos; vaia-a SQgnindo por largo espaço, sem dar mais tino (como depois confessara) que o de conseguir aquella grande preza ; finalmente a alcofa parada, e lan- çando-lhe as mãos, quando lhe desapparece de entre elias.

Levava em outra occasiao Frei Jorze humas poucas de rosas no Escapulário para a Imagem de huma Senhora, de que era devoto; e pondo-llie os olhos, as convertidas em pão, que (dando a Deos gra- ças) reparlio logo em esmolas, por se achar então aíílicto de o nâo ler para o despender n'ellas. Raivou o invejoso inimigo com o successo do bom Porteiro, vendo, que o Ceo o favoreciav e o remedeava: esperou -o outra vez, que lhe vio rosas no Escapulário; e temendo, que lhe sucee- dessse o mesmo prodígio, arrebata-as, e desapparece com cilas. Nâo foi huma vez o tirar as rosas d*o Altar da Senhora para as levar, e trocar em pâo na Portaria, porque muitas vezes se devia Frei Jorze d'e valer d^aquellas soberanas flores para sustento da pobreza; porque- em chegando Abril, se lhe ouvia como provérbio, que repelia com alegria e segurança: «Em tempo de rosas nem ellas faltão no Altar da* Senhora, nem aos pobres- pâo na Portaria.»

Esfimulavao continuamente estes successos ao pai da- inveja tanto, que muitas vezes se resolveo a vingal-a, apanhando ás mãos o innocenle ca- ritativo', que com maiores coroa^ de paciência sahia d^Jlas molestado. Mas Mo erão as coroas, que Frei Jorze grangeavano conflicto, aquel- las, em promessa da gloria futura, mas parece, que podia dizer com S. Faulo, que ainda na terra o tinha o Ceo tão mimoso, que permit- tia, que o anjo de Satanás fosse seu flagellb, porque se não esvaecesse de favorecido (1). vimos, e tocamos algumas occasiões, em que pareceo i Ilustrado; passemos a semelhante- argumento, e sejão de segundo Ca- pitula.

CAPÍTULO IX

Conlinuão-se as noticias do Irmão Frei Jorze,

Leigo era o Irmão Frei Jorze por profissão; e porque não tivera al- guma de leiras, era também leigo, mas doutrinado na Aula do temor

(1) Datus est niihi stimulus carnis meac angelusSalanaí^aut me colarhizct. 2. C-ojírL

70 UYRO l DA HISTOniA DE S. DOMINGOS

de Deos, nenhum CQirip elle sábio. O Latim entendia, e pronunciava, como os que com mais applicaçíio o aprenderão. Na escritura Sagrada estava tão visto, e mais que os que continuamente a revolviao. Muitos casos pozerâo esta verdade em publico, de que foi boa testemunha o Mestre Frei Martinho da Fonseca, Pregador d'el-Rei Dom João o IV, e os Lentes, que por todos aqueiles annos occuparao as Cadeiras de Évora. A hção de Escritura, que se costuma ler á mesa, lhe penetrava de sorte o GOir4'\ç^o, que apçlando recolhendo os sobejos para os pobres parava, e se esquecia muitas vezes no meio do Refeitório, como alheio, e extático.

Mas passemos da intelligencia do Latim á que o Ceo lhe dispensava nos casos, que previa, e de que avisava. \ hum Religioso amigo seu, que se despedia d'elle, por ir assinado para Abrantes, nos fins de Outubro, segurando-lhe, que d^alli a oito dias (nem pedia mais o Ca- mmho) estaria no Convento, disse Frei Jorze: «Irá Vossa Paternidade, e mandar-mo-ha dizer a primeira Dominga do Advento, porque n^esse dia chegará a essa Casa». Celebrou-lhe o Religioso a nova como galanta- ria, e tornou Frei Jorze a repetir o mesmo, com a mesma segurança. Partio n"aquelle dia o Religioso, festejando com algumas pessoas o va- licinio: mas foi tal o temporal, que por terra até Setúbal o prendeo nas estalagens, e no mar o deteve na embarcação, arribando muitas vezes que sem advertir no dito Frei Jorze, entrou n^ primeira Dominga dO: Advento em Abrantes ; mas recebido á ceila, que lhe derâo, se llie re- presentou tudo o que tinha passado, e o fez logo publico.

Visitava a Frei Jorze com alguni minio para os seus doentes, oq es- mola para os seus pobres, a Madre Dona Maria de Mello, (Religiosa da Santa Clara da mesma Cidade) pessoa de bom nome, e que tinha grande devoção cora elle. Mandou-lhe em huma occasião cousa de pouca sub- stancia, a que elle agradecido escreveo huma regra, cousa, que não fi- zera nunca. Era o que continha: «Que elle estimava o presente, e a von- tade: e que o dia de antes mandara dizer huma Missa por sua tenção, para que Deos Nosso Senhor a livrasse de perigos de alma, e Gorpo^ como esperava em sua misericórdia.» No dia seguinte descia esta Ma- dre para o Coro, e embaraçando-se-lhe hum no primeiro degrao de huma escada de pedra longa e impinada, rodou sem se poder valer poc toda ella, com tanta violência que as que correrão a acudir-lhe, a tive- rão por morta; mas ella desembaraçando -se do manto, em que se em-

PAl\TICULAP. DO IIEIKO DE PORTUGAL 71

brulhara, e sentada com descanço, segurou a todas, que nâo linha mo- léstia; attribuindo com tanta segurança o successo ás orações de^Frei Jorze, que assim o jurou a quem lhe pedio alguma noticia d"elié. De outros casos de íiâo ráènos risco sahio sem elle esta Uehgiosa, appli- cando sempre o eíTeito áo sou advogado; e entendeo-se d'elles, e do ;que tinha escrito, que de todos lhe adiantara o Geo o conhecimento.

Assim parece que o teve da milagrosa saúde de Francisco de Abreo, que muitos annos tinha servido no Convento. Achava-se este ás portas da morte. Nâo tivera na sua doença, que foi larga, mais soccorro, que o com que lhe acodia o pobre Porteiro; mandou-lhe render as graças pelo cuidado, e despedir-se d*clle com a supplica de que se leinbrasse de sua alma, e de o ajudar com suas orações n'aquella ultima hora. Enterneceo-se o pai dos pobres, sabendo o desamparo, em que ficava a casa d*aqu-elle; e náo tardou muito em lhe mandar segurar, que se não desconsolasse, que nâo morreria d^aquella doença Foi assim, que, como se resuscitára, lhe veio em breves dias dar- as graças á Portaria.

Mas o maior favor, com que o Seiíhor quiz ilhistrar o seu servo, foi a ániicipada noticia de sua morte, como a í[ue o era do principio de sua felicidade. Contava Frei Jorze 6G annos de idade, aos quarenta e seis de exercícios santos n^aquelles Sagrados Claustros; achava-se cortado de penitencias, desamparado de força.?, sem que o estado, em que se via, o fizessa afrouxar nas primeiras, se quer por não acabar de consumir as segundas, quando o chamou Deos para llie trocar estas em eternida- des, e aquellas em coroa>. Poucos dias antes desta felicidade gastara n borti velho em oração toda a noite ; chegou a madrirgada,. entra na cella do Prelado (como he estylo da Ordem) a buscar as chaves (h Portaria, e diz-lhe com voz, e semblante alegre : «Padre Prior, tenha vossa Pater- nidade muito bons dias com as novas, que lhe dou do serem os meus acabados.» Assustou-seo Prelado, e advertindo-lhe, que se declarasse, porque não entendia o que lhe vinha a dizer, respondeo : «l\adre Prior, eu morro.» Cresceo no Prior o sobresalto, e levantando-se apressado, lhe disse : «?-íão são por certo Frei Jorze para mim bons dias os em que me essa nova, porqpe a sinto no coração, onde o tenho, e estimo ; e lançando-lhe os> braços, se lhe prenderão as vozes com as lagrimas. Era o Prior o Presentado Frei Francisco Travaços, Pregador de nome na- quelles tempos, pessoa gravo, e de maduro entendimento-, que| sabia pé- zar a perda de hum tal súbdito.

>2 LIVRO I DA IIISTOniA DE S. DOMINGOS

Chamou logo a conselho, e propondo o referido aos Rehgiosos mnis graves, e Letrados do Convento, resolverão, que o Prelado tornasse a chamli^ Frei Jorze, e que d*elle soubesse com mais individuação a certe- za, que tinha de sua morte, pondo-lhe huma obediência, caso que se es- cusasse. Fel-o assim o Prior: c chamado Frei Jorze, e dizendo-lhe : «Frei Jorze, o que me disse hoje, foi illusão do demónio, ou elTeito de me- lancolia?* Respondeo ello: «Nem huma cousa, nem outra, mas verdade pura, p;>rquc eu morro dentro de breves dias, como Vossa Paternidade bem verá. Pois eu, (lhe tornou o Prior), lhe mando por obediência, que me diga logo a circunstancia, com que alcançou essa noticia. Obedeço, (respondeo o bom velho) e continuou :A noite passada, rezando na Igreja, soube, que Véspera de S. Joseph, que he d'aqui a poucos dias, havia de morrer.» E pondo-se logo de joelhos, levantadas as mãos, disse: «Rogo eu muito a Vossa Paternidade, sendo servido, que do que aqui passa- mos não seja alguém sabedor. Pois se isso he assim, (concluio o Prior) eu lhe ponho a mesma obediência para que aceite cella, e cama para morrer.»

Aceitou Frei Jorze, sacrificândo-se ao lugar do descanço, como se fora o do martyrio ; mas consalado de que o lograria breve tempo. Foi- se á Port;M'ia, deu a ultima esmola aos seus pobres, despedindo-se del- les com as lagrimas nos olhos, antes arrancan.do-se de seus braços, como faltando-lhe o sofrimento, para escutar os lamentos de seus desamiwro- Re8olheo-se logo para a cella, que lhe determinou o Prelado, confessou- S3, e como lhe pareceo tempo, recebeo o Viatico, baniiado em lagrimas de alegria, como se não soubera fallar aa Senhor senão com as lín- í^uas da alma, dispondo- se para o commercio, e vida delia.

Assim se experimentava ; porque cerradios os olhos, e sem dar atten- ção a nada, se recolhia em huma contemplação j^-ofunda, ouvindo-se-lhes ás vezes algumas palavras, e orações imperfeitas, de que se colhia a con- solação, que estava recebendo sua alma. Entrado na ultima hora, e despedido dos Religiosos com semblante alegre, e alvoroçado, entende- rão os que lhe assistião, na alegria, e contentamento, que nos olhos se lhe reparava, e no que dizia, ainda que com fraca, e interpolada ex- pressiva, que lhe assistia, e visitavão-no a Soberana Trindade da terra, Jesus, Maria, e Joseph. Assim passou seu espirito, com tão dritosa com- ])anhia, e logral-a na felicidarlc eterna, em Véspera de S. Joseph, como tinha dito (Advogado, que toda sua vida tinha grangeado). Contavão-se

L

PARTICULAR DO REINO DE PORTUGAL 73^

18 de Março de 1G32. Tem sua sepultura no Capitulo, n*ella se este epitáfio.

Frater Georgius de Sanctis, Convcrstis, hnjus Cconobit filius, et osiia- rins, in Deum pius, zelo Religiouis accensus, in egrnos, et infirmos ma- gnopere a/fecius^ Ecclesiam semper habens pro cella, Iiumum pro ledo, ahstinenliis, bonisque aliis operibus plenus 15 Kalendís Aprilís senex mo- ritur, et magno [ruirum desiderio, in arca lignea sepelitiir. 1632.

Bem poderão dilatar mais esta escritura muitos casos individuacs de sua vida, a não se entenderem, e supporem do inculpável, e penitente d'ella. Testemunharao-na como a temos escrito, os grandes talentos, que n'aquelle tempo se fazião kigar não n'esta Província, mas em todo o Reino, e fora d'elle, com igual reputação em letras, e virtude, e que lambem neste livro dão venturoso assumpto ao nosso trabalho, antes pre- mio ao seu emprego. Tanta be a gloria de os termos por assumpto ! Aqui se acharão espalhados, conforme a antiguidade dos seus Conventos. Agora me pareceo unil-os, porque depois de Frei Jorze, authorizem a verdade do que dizemos d'elle. Forão elles o Padre Mestre Frei João de Portugal, Bispo de Viseu ; o Venerável Padre Mestre Frei João de Vas- concellos, Inquisidor da Mesa Grande, Pregador del-Rei Dom João o IV que foi Provincial d'esta Província ; o Padre Mestre Frei Andró de Santo- Thomaz, Lente de Prima na Universidade de Coimbra ; o Padre Mestre Frei Pedro de Magalhães, Inquisidsr da Mesa Grande ; o Padre Mestre Frei Fernando Soeiro. De tão authorizadas testemunhas colheo, e reco- Iheo as noticias de que fabricamos esta memoria, o Padre Presenlado, e Pregador Geral Frei Francisco de Sousa, da mesma Família Domini- cana, em hum Tratado Panegyrico, que escreveo sobre a vida d'e3te servo de Deos ; mas "porque este Senhor depois das conjecturas, que de- sua penitente vida podiâo formar argumento para a gloria, que se se- guio á sua alma, ainda permittio, que o seu nome ficasse vivendo nas memorias de muitos devotos, que com elle triunfarão de grandes aper- tos, apontaremos alguns casos, que por confissão dos mesmos favoreci- dos parecerão prodigiosos.

Cahio enfermo de huma maligna Ruy da Silva, filho de Jorzc da Silva, Cavalleiro Fidalgo, e de Dona Brazia de Abreu, moradores i\',i Cidade de Évora, e em breves dias chegou ás portas da morto com tão

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gramle desengano de seus pais, e família, que, fechadas janellas, c sepultados todos em hum lastimoso pranto, antes tratavao dos ^uffra- gios, que dos remédios. Mas os parentes, e pessoas graves, que lhe as- sistião, aconselhados do que continuamente escuta vâo de Frei Jorze, Por- teiro de S. Domingos, dando-lhe esperança de remédio, passarão ao Convento, e representando ao bom Porteiro o "estado do enfermo, senti- mento de pais, e familia, o obrigarão a que chegasse áquella casa, em que se suspirava tanto sua assistência. Escusou-se Frei Jorze modesto, e humilde, nâo sentindo de si tanto, ou temendo os assaltos de vanglo- ria, que hia dispondo o inimigo. Nâo houve mais remédio ; recorrem ao Prelado, que lastimado, como persuadido, lhe manda, que logo visi- tar o enfermo. Toma Frei Jorze a capa, entra pelo meio da famiha cho- rosa, e dizendo com voz desembaraçada: «De que se agastao, de que se agastão? Morre Roy da Silva? Morra.»' Cresceo em todos o pranto, e a magoa entendendo pouco a frase com que se costuma explicar a vir- tude. Chegou então á cama, em que o enfermo por instantes espirava, e applicando-lhe a mão (dcpuzerào as testetemunhas, que assim lhe pareceo) á cabeça, voltou aos pais, e mais faiíiilia, e disse-Ihes: «Não se agastem, não se agastem ; que Deos dará saúde a Ruy da Silva. Dem-me esmola para que se diga huma Missa a S. Gonçalo, que eu hei de ajudar a ella, e rogar pelo enfermo.» Deu-se-lhe a esmola, voltou para o Convento, e ao mesmo instante abre os olhos o moribundo, e segura a todos, que se acha. sem febre, e restituído, como logo se vio, á inteira saúde.

A mesma, e igualmente repentina conseguio Gaspar de Faria Seve- rim', (affirmava-o Manoel de Faria seu tio. Chantre de Évora) por inter- cessão de Frei Jorzo, porque faltando com elle para lhe pedir o soccor- ro de suas orações, e dando-lhe noticia, que o enfermo (que assistia em Lisboa) estava perigoso, Frei Joi'Ze lhe segurou, que estivesse sem cui- dado, porque não havia perigo, e outras circunstancias, que íizerão o caso mais prodigioso, depois que se soube o tempo, e melhora do enfermo.

desenganada^ de remédios para huma cruel maligna, esperava a ultima bora. Antónia Jorze, mulher de Pedro João, moradores na mesma Cidade de Évora ; e tanto sem esperança alguma de vida, que em Casa tinha o habito de S; Domingos, que escolhera' por mortalha. Er» devota da Religião, bemfeitora do Convento no que alcançava, como cui- dadosa de acudir a Frei Jorze com o que necessitava para a sua Porta-

PABTICULAR DO REINO DE PORTUGAL 75

ria. Seotio elle ai;K>líicia (h euferma, vb>iliau-a, consolando-a com o que Deos dispunha ; e dctendo-S3 hum pouco a rezar pelas soas contas, so levantou, dizendo-lhe, que queria Deos livral-a d'aquella doença, c que contasse tantos annos, que visse a morte de seus filhos; e lancando-Ihe huma benção, se djespedio, e no mesmo tempo a febre á doente. Pedio de comer, que nao fallava, nem lhe passava nada da garganta, e em breve teve saúde perfeita, e depois vida tâo dilatada, que se verificou a circunstancia, que seu bemfeilor lhe promettera.

Domingas Coelha, moradora na mesma Cidade, padíícia, liavia annos grande acliaque, e dores nos olhos, a que não valeo em tanto tempo toda ^ industria dos Mediqos. Levou -a a fama. do Porteiro de S. Domin- gos a buscal-o, e pedir-lhe, e importunal-o por algum remédio, com tal fé, e eíficacia, que admirando-o o bom Frade, não pode mais defender- se, e lhe disse, que fosse para casa, e lavasse os olhos com agua limpa, que não teria nada. Não reparou a no fácil da cura ; lavou a mulher os olhos, e ficou logo, não sem achaque n'elles, mas nem majs o sen- tio em sua vida, que foi larga.

Mas caso novo, que succedeo- a Frei Jorze. que vendo-se o prodígio, se desconhece o motivo d'elle. Estava na sua Portaria, quando chega a ella huma moça, com huma quartó á cabeça, pedindo-lhe, que Ufa man- de encher na fonte, que corre no Claustro: suspendeo-se elle á primeira supplica; e á segunda, rompendo em hum impeto, nelle estranho, pe- ga na quarta, e faz tiro com ella a grande distancia, em qne se fez em pedaços. Seguirão-se os lamentos, e agonias da moça, e voltando a ella Çrei Joi'ze, lhe di$se: alde, ide buscara vossa quarta; e não torneis mais aqui.» Volta ella, e inteira a quarta, e vem mostrando-a pela Cidade, contando o que com o Porteiro de S. Domingos lhe succcede- i'a, seguida de muitas testemunhas de vista. Mysteriosa foi em Frei Jorze a ira, que de outra sorte não merecera o que se seguio na quar- ta. Mas a que effeito huma cousa, e outra, se a primeira pareceo im^ própria, e a segundo desnecessária? Porém ao que escrevemos compete o reparo, e não a decisão. A^sim passão pelos juízos dos homens as acções dos Justos!

A hum Religioso,, grande seu amigo que de outro Convento vinhaí para o de Évora, disse Frei Jorze (abraçando-o na Portaria, c tendo es- tado n'ella con^so se o esperara), hum particular, que o Religioso trazia no pensanriento, e a ninguém tinha communicado. Testificava-o depois o

76 LIVRO I DA HISTORIA DE S. DCAnXGÓS

mesmo Religioso, que de enlão começou a ler em maior estima ao bom Porteiro. Tinha graça particular para pacificar animosos discordes, e fa- zer amizades. Assim reduzia a commercio,, e trato Christão a muitos en- tre si inimigos, e de envelliecidos ódios ; e á concórdia conjugal a mui- tos casados. Estas, e as mais acções authenticadas em hum processo, que se hia fazendo sobre a vida d'este Servo de Deos, lhe poderão ter adquirido o culto de Canonização geral, ou particular, que, supposlo rigoroso exame, costuma dar a Igreja; mas cortou a morte os passos, que o Presentado, e Pregador Geral Frei Francisco de Sousa começava a dar n'esta diligenciíi, ficando todas sepultadas no descuido doesta Pro- víncia; culpa nestes particulares tolerada, pelas poucas possesM^ella, desengano, que a acobarda para não expor mais filhos seus á venera- ção Catholica, como a magoa de não dar a Deos essa gloria, esse cre- dito a si, e á Igreja.

CAPITULO X

Do Padre Mestre Frei João de Portugal, Bispo de Viseu, filho do Convento de Évora.

Grandes qualidades concorrerão no .Mestre Frei João, para que a sua noticia (n'este, e mais séculos) não dependesse da nossa diligencia, bastando-lhe seu nome para Chronica; porque o seu sangue o eterni- zou na duração de sua illustre Família, a sua virtude na successão dos que com seu exemplo forão tomando o pezo á sua Mitra; e a sua scien- cia nos partos de sua penna, que conserva a estampa. Mas não basta a tão singular Varão noticia tão commua; devão os Leitores mais miúdas, +i estimáveis circunstancia á nossa noticia, e aulhorize-se a Casa de Évora €ora hum filho, que bastava a fazel-a venturosa.

N'ella, sendo seu Prior Fr. António Bernardes, Provincial d'esta Pro- víncia o Mestre Frei Francisco Foreiro, e Mestre Geral de toda a Ordem Frei Vicente Justiniano, tomou o habito o Mestre Frei João de Portu- gal, filho dos Condes de Vimioso Dom Adonso de Portugal, e Dona Luiza íle Gusmão, e irmão de Dom Luiz de Portugal, que depois de succeder, na Casa, como legitimo herdeiro d^ella, reduzio a escolha o que primeiro foi natureza, passando a acompanhar nos Claustros Dominicanos ao Mes- tre Fr. João, como se quizera no habito fazer segundo parentesco. (Em seu lugar rios servirá esta resolução de assumpto). Nos primeiros annos

I

PAimCULAU DO REINO DE PORTUGAL 77

veio Frei João de Portugal a abraçar os rigores da Ueligião n'esla Casa, correndo com tanta felicidade, e constância o de approvação no Novi- ciado, e os de exame no estudo, que (medida sua capacidade, em tudo grande) se fez hum tal lugar n'elle, que nâo o escutarão na Cadeira como Mestre, mas alargando a penna a maiores empregos, fez, que o lessem como hum dos Escolásticos luminares da Tlieologia, nos dous grandes Tomos, que escreveo de Gratia, obra digna de desempenhar hum profundo Theologo no voto dos melhores do seu tempo.

Sobre os nobres alicesses da sciencia, e do sangue, avulta com mais estimações o edifício da virtude. Era conhecida, e venerada a do Mestre Frei João, e tão adiantada em experiências, que os Religiosos Bemfica- nos, onde então resplandecia mais notória a reforma da Província, en- tenderão, que com hum tal Prelado seguravão não a conservação, mas o augmento d^ella. Era aquella Casa de Bemflca para o génio, e es- pirito do Mestre Frei João o mais appetecido centro, a não lh'o desna- turahzar o haver de entrar n^elle com o nome de Prelado; quizera o trato d'aquelles Religiosos, como de companheiros, e não de súbditos; mas o que não explicava o cargo, soube praticar a industria. Eleito em, Prior, assim foi suave o seu governo, assim achou supérfluas as leis, d'onde a observância era natureza, que não veio a ler n'aquella Casa o bom Prelado mais que o exercício de companheiro. Assim o experi- mentavão pontual n'aquelles Santos Claustros as obrigações de hum par- ticular Religioso; o sinalava Prelado a precisa lei de assistir a tudo. Esta grande capacidade, o reformado de sua vida em ioda a estrei- teza das Constituições, assim o adiantavão a maiores emprezas, que lhe raeteo o Ceo nas mãos hnma das que se contão entre as raras; não faltando quem diga, (e he verosimil) que seu exemplo foi o primeiro brado, que o mesmo Ceo deu nos corações dos Condes de Vimioso, (seu irmão, e cunhado) para que deixando seus estados, se recolhessem aos pobres Claustros Dominicanos, e levantassem (sogeita á mesma Or- dem) huma Casa recoleta, que até o presente he os olhos d'esta Pro- víncia, como (ajudando-nos Deos) o mostraremos em larga, e merecida escritura. Assim veio do Mestre Geral da Ordem, (era então Frei Jero- nymo Xavier) commettida ao Mestre Frei João toda a direcção na nova' fundação do Mosteiro do Sacramento, sendo elle seu primeiro Vigário, a quem deveo aquella Casa, não o augmento material, que em breve tempo se conseguio a desvelos de sua industria, mas também a alm^

78 UVRO I DA HISTORIA DE S. DOMLMGOS

tl<3 sua observância nos documentos e leis, (que arrimados ás Coi>sti^ luiçôes da Ordem, apertão as obrigações da Casa) tão ajustadas, e tâo previstas, que sem duvida ficarão sendo a mais viva demonstração^ não menos da capacidade grande de seu entendimento, que da piedade re- ligiosa de seu espirito.

Assim voava huma, e outra qualidade nas azas de sua nobreza, que não contentes na estreita esfera da Corte Portugueza, ainda estreitadas na espaçosa de todo o Reino, passavão aos estranhos, entrando pelas portas do Palácio Castelhano a occupar os ouvidos de Fihppe II, a tem- po que, vagando o Bispado de Lamego, teve este Rei a fortuna de pre- miar merecimentos, sem o trabalho de consultar escolhas. Passou o Mes- tre Frei João a occupar aquella Mitra, deixando em sua perfeição o Mosteiro do Sacramento, e a observância delle, sendo veneração, e mi- lagre das estimações da Corte, estado, em que ainda hoje florece, com tantos esmeros de virtude, e constancias de austeridade, que a seu tem- po nos darão glorioso assumpto, como em todo nos tem servido de cre- dito. O muito, que o Mestre Frei João tinha grangeado neste Reino, po- dia ser a mais certa noticia do que obraria no cargo, sendo tão ingrata a memoria d'aquelles tempos, que consentio, que com elle se enterras- sem as mais individuaes informações de sua vida, e não nos foubou me- nos o esquecimento nos successos, que a sepultura nos seus ossos, fi- cando sem estes queixosa a Pátria, sem aquelles a Província. Queixosa a Pátria, porque na posse da sua sepultura prevaleceo Viseu como seu Bispado, contra Lisboa, ou Évora, que lhe sérvio de berço ; a Província, porque podendo enriquecer-se, e aulhorizar-se com mais individuaes, è multiplicadas noticias de sua vida, alcançou algumas, que vierão á nossa mão com mais fortuna, que diligencia, polo pouco fruto, que se tira cVestas contra os poderes do tempo. Mas na calidade do pouco, qué este nos perdoou, se poderá colligir o muito, em que poderamos alar- gar a escritura, reduzindo agora á de hum Capitulo a que sem duvida seria capaz de avultar em hum Tomo.

CAPITULO XI

Continuão^se as ríõlkias do Mestre Frei João de Portugal, Sem recorrer ao illustre de seu sangue, erão os cargos, que occupou

PAUTICULAR BO ÍIEINO DE l>Ol.Tl^GA^ 7í>

O Mestre Frei João, divida ás suas letras, e virtude ; assim se cré, que a informação doestas o pozerão no Púlpito de Filippe li, como seu Pre- gador, nO lugar de Inquisidor da Mesa Grande, e no de Vigário do Mos- teiro do Sacramento, occupação, que ao presente he bastante a caliíicar beneméritos, muito mais sendo o primeiro, que se escollieo para ella, a voto de hum Geral da Ordem, (e talento como foi Justiniano) que que- "ria plantar naquella Casa o maior rigor da observância. Estes lugares oecupou o Mestre Frei João : mas como nenhum era maior que elle, nenhum alterava n'elle a vida de verdadeiro Frade. A sua única gran- gearia era ter n'aquelles postos mais que dispender entre necessitados; essa era toda sua anciã, que eleito Bispo, cresceo com as obrigações da Mi- tra. Tttdo que lhe vinha á mão, passava ás do Padre Frei Manoel do Rosário, (Religioso digno da sua estimação por exemplar, e reformado, que assistira com elle no Sacramento) este era seu particular Esmoler, este o de que alcançamos (de sua mesma letra) esta memoria.

Era o Mosteiro do Sacramento o primeiro soccorrido ; o ((ue resí<ava, se repartia entre viuvas nobres, donzellas recolhidas, e Estudantes po- bres, especialmente írlandezes, a quem ajudava com zeloso intuito, e piedosa esperança de Missionários de sua Pátria. Não tinha outros em- pregos qualquer grangearia sua ; o Padre Frei Manoel arrecadava, e dis- pendia tudo. Affirmou-o elle mesmo, acrescentando, que nunca o Mestre Frei João pedira contas, nem em sua mão tomara dinheiro em toda sua vida, quanto aos muitos annos em que^ o conhecera, e acompanhara. Bem alcançava aquelle grande, e bem doutrinado entendimento que não tinha o dinheiro mais préstimo, que para bem dispendido, nem mais conta que ser também empregado.

Este foi na caridade ; (todo do próximo) não foi menos na obediên- cia (nada de si). Mostre-o entre muitas huma occasião. Ti"atado de hum Prelada com excesso, (culpável desacordo esquecer-se de que he pai hum Prelado) assim no largo tempo, que o teve prostrado eín vénia, como no áspero, e solto das palavras, a que o precipitou inconsideradamente a cólera, se levantou o Mestre Frei João, sem se lhe ver, nem ouvir ou- tra acção mais, que as que se praticão nas Constituições, que he beijar ao Prelado o Escapulário, e re\)eí]v Benedictus Bens, como se dissera: Por tudo seja Deos bemdito. Era a innocencia a que escutava aquella sem razão, e nem esta, nem aquella bastarão a abalar aquella estatua do si- lencio mais, que para prostrar-se sobre a terra victiraa da obediência.

ÍSO UVnO I DA HISTORIA DE S. DOMINGOS

N*es!a se eosaiou siia humildade, e nem os privilégios da prezalia o escusa vâo dos empregos de maior servidão. Era Prior de Bemfica, e «em faltar a nenhuma obrigação da Casa, lia actualmente Tlieologia. Pe- los lugares visinhos o esculavâo doutrinando Apostolicamente assim no estylo do Púlpito, como no do caminho. Era a primeira anciã, que o le- vava, estender por aquelles ouvintes rústicos, e atear n'aquelles corações secos a devoção do Hosario, (a que a tinha ardenlissima) occupação, que hum culpável descuido, e huma omissão indisculpavel nos tirou das mãos, sendo os filhos de S. Domingos os primeiros, e únicos, que por líistitulo se escutarão n^estes Remos, não pelos Templos, e Púlpitos, mas pelas praças, e ruas publicas : empregos, de que se jactão obreiros mais modernos, uiurpando para si o 'nome, que n'esta cultura grangea- rão, e souberão merecer os nossos, e hoje conservão com credito, e re- putação, se bem com menos applicação, (a auditórios rudes, innocentes,' ou incapazes) não digamos também de cançados.

Eleito Bispo o iMestre Frei João, antes foi dispenseiro, que Prelado de sua Igreja, com tão seguro conhecimento de que não podia ter ou- tro nome hum Bispo, como se em huma reposta, que deu ao seu Sacretario. Falecendo seu irmão Dom Nuno Alvares de Portugal, que actualmente era hum dos Governadores doeste Reino, e deixando cinco fillios órfãos, e desamparados, (cousa incrível de quem tinha na mão hum governo, mas esperada do austero proceder de Dom Nuno, como de hum pai, que deixava a seus herdeiros a melhor nobreza d'estes Reinos, com a reputação de ter occupado n^elles os maiores postos, sem que se sentisse que tinha filhos) escreveo ao bom Prelado seu sobrinho Dom Miguel de Portugal, (que faleceo depois sendo Bispo de Lamego) dando- Ihe noticia do desamparo dos órfãos, e de que o cunhado d'elies o Con- de de Monsanto, e Marquez de Cascaes, levara para casa dous, bastante fineza para o parentesco, e não menos carga para quem se achava assaz attenuado. Cí)ncluia finalmente Dom Miguel, que aquelles órfãos não ti- uhão os olhos mais que n^aquelle tio, a que como pobres executavão como pai. A esta suplica, ao parecer tão justificada, respondeo elle: «Que fora de sua Igreja não podia em consciência alargar a mão, nem ainda á mais arrezoada esmola ; que elle como tio sentia o desamparo, mas como Bispo não se lhe podia ofTerecer para o soccorro ; que se seus sobrinhos quizessem vir para sua casa, acharião n'ella, como órfãos do Bispado, sustento, e ensino.» E advertindo-lhe o Secretario, que huma

PARTICULAn DO REINO DE PORTUGAL 81

m\ esmola nâo admittia escrúpulo, respondeo (palavras dignas de tanto Prelado, e de se gravarem entre as Armas de todos os da Igreja). «Ain- da não sabeis, que as rendas dos Bispados são o dote dos Bispos ; as Igrejas as esposas ; os filhos os pobres ? Pois para que se me deu este dote, senão para os criar a elles?»

Assim tinha repartido as rendas do Bispado, que ficando-lhe para sua casa, e famiha três mil cruzados, o que restava para dezaseis, (que era a renda toda), passava ás mãos da pobreza, mas repartido com tanta prudência, que não chegava aos mendigos, a que de pão, e dinheiro soccorria á porta, mas entrava pelas da viuva authorizada, da don- zella recolhida, e do honrado, a que o pejo prendia os passos, e tapa- va a boca, sentenceado entre duas paredes ao martyrio de sua miséria. Para o acerto d'este dispêndio tinha pessoas de confiança em todo o Bis- pado, que o avisavão assim do desamparo, como do procedimento dos beneméritos d'aquelle cuidado, e d^aquelle soccorro. Entrando no Bis- pado, erão muitos os doentes. Retardavão-se os medicamentos, porque não era prompta a expedição ás petições dos necessitados. Não sofreo esta frouxidão o bom Prelado, que, como outro Paulo, enfermava com todos (1). Passou huma provisão ao seu Medico Manoel Monteiro, e ao seu Boticário, para que, conhecida a pobreza do enfermo, se lhe acodisse com tudo, sem que se attendesse nas receitas ao custo, mas ao remé- dio ; antes porque não houvesse falta em nenhum, em a havendo em casa do enfermo, se lhe fizesse aviso.

Aos Religiosos Arrabidos, que tinhão Convento em Orgens, (lugar três legoas da Cidade) dispoz com suavidade a custosa jornada, que fa- zião ao meio dia, vindo á, esmola. Assentou com o Guardião, (que dava por causa de virem ao peditório áquella hora, o ser a em que todos es- tavâo era casa) que viessem os Religiosos de manhã fora da calma, que recebessem o que achassem, e que o que lhes faltasse, se lhes daria da sua. Assim com huma piedosa industria lhes remediou as faltas, e os livrou de doenças.

Chegou-se certo homem honrado, (de que tinha informação da muita miséria, e multiplicada familia) a pedir-lhe huma esmola , e mandando, que se lhe dessem quatro mil réis, e recebendo dous de quem os> dispendia, ficou o homem passeando no pateo, a tempo qne o bom Pre- lado chegava a huma janella. Chamou-o, e sabida a causa da suspen&ilo,

(1) Quis infirmalur, el ego non inflrmoi? 2. ad Corint n.

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e da detença, perguntou ao Esmoler porque lhe nao dera os quatro mil réis, que lhe mandara. «Senhor (respondeo o criado) porque entendi que dous. Pois agora (tornou o Bispo) dai-lhe oito. E agradeço-vos a pouca advertência, que despertou a minha ; porque na verdade para quem tem tanta familia, e tanta falta, harto pouco sâo oito, quanto mais quatro.

Pedia-lhe certo Cónego huma esmola em nome de huma viuva hon- rada, que dava estado a huma filha, e propunha-lhe a suplica com ro- deios, e frieza. Respondeo-lhe, (atalhando-lhe a pratica) Senhor Cónego •(juando vossa mercê me fallar em semelhantes matérias, falle com mais confiança ; que para os fdhos nâo se pede aos pais com rodeios. E man- dou-lhe dar doze mil réis, que para aquelles tempos era huma aventa- jnda esmola. Mas outro caso nos está chamando, trilhado dos mais agigantados passos da caridade.

Esperavio-no os criados em huma Dominga, que hia pregar á Sé. Dilatava -se consideravelmente, e era a causa da detença chegar-se hum pohre á janella da casa em que assistia, (cahia para o pátio a janella, e era terreira a casa), e como se lhe mostrasse despido, e não se achasse o hom Prelado com queremedial-o, foi dentro, e despindo hum jibao, que trazia de poucos dias, o entregou ao pohre, pondo em seu lugar hum Imo velho, que elle mesmo o tinha deixado. Soube-se o roubo, que so tinha feito a si mesmo : reparando hum domestico, e perguntando-lhe, porque não usava do jibão novo? «Eu (respondeo) não tenho mais que este. O outro levou-o quem o havia mister mais que eu.» Assim enten- dia este Prelado, que erão os Bispos servos, e Ministros dos pobres, e que não devia o Senhor andar despido, e o Ministro enroupado(l). Ou en- tendia melhor a sua caridade, que não era despir-se a si, o vestir ao pobre, sondo advertência do mesmo Christo, o náo desprezar n^ella a sua mesma carne.

Casos de igual, e maior circunstancia lhe succederão n'esta matéria: sepultou-os o descuido. Em nada o teve depois de Bispo, d'aquella re- gra, e estilo de vida, que exercitara nos Claustros Sagrados da Religião. De manhã, (antes que o sentisse sua familia) passava huma hora de oração diante do Santíssimo. Á noite (depois de recolhida ella) outra. Para esta occupação, mais vezes continuada no dia, escollVeo hum quarto baixo pa^-a sua assistência: assim lhe vinha a ficar a casa, em que a fa-

(1) Cum viiieris niidum, opcri eum; et carnera tuam ne dcspcxeris. Isaim 1)8. 7.

PARTICULAU DO REINO DE PORTUGAL 83

zia, com porta para a Capella. Alta noite o sentiâo talvez abril-a, por mais que fiava o segredo d'aquella hora. AlU hia buscar o descanço, desconhecendo-o no leito. Não sabia ter socego nas visinhanças d^aquelle Divino fogo; sabia a refrigerar- se, e tornava a accender-se.

Tinha a sua abstinência duas circunstancias de martyrio. O jejum, e o não poder dissimulal-o. Fazia-o ás vezes cojTa a industria de indisposto. Muitos jejuns de pão, e agoa, inventando dissimules para o não perce- ber a família. Acompanhava-os com rigorosas disciplinas; se estas des- cançavão,não o fazião hum cilicio de agudos bicos, ou huma áspera corda de esparto, que o cingia com tanta estreiteza, que testemunhava o seu Ci- rurgião, que algumas vezes (lançando-lhe algumas ventosas por causa de queixa repentina) lhe vira as chagas, e sinaes d'e]la. Antes de sua morte chamou a hum Pagem, de quem fiava os rigores de sua pe- nitencia; (estava havia dias de cama, e restavao-lhe poucos de vida) e sahindo este com lagrimas nos olhos, de detraz de huma cortina, que lhe cobria a cama, se soube d'elle, (depois de importunado, e perse- guido) que o segredo fora entregar-lhe com muito aquelles instrumen- tos, com que se cingia. Agora parece, que o marlyrizavâo, mais quando os tirava, na contingência de se saber que os trouxera.

Estes erão os thesouros que o justo Prelado escondera, em quanto pizou o caminho da vida. Quem assim o trazia cuberto, não queria, que lhe roubassem o thesouro; não escondel-o he indicio de o permittir rou- bado, dizia o grande Gregório (1). Temia o penitente Prelado, que o sal- teasse a vangloria, e prevenia-se com as armas da cautela. Conheceo-se bem (depois de sua morte) a muita que tivera, achando-se-lhe nas ga- vetas de hum contador alguns cilicios, e disciplinas, onde o sangue era a melhor rubrica, para se entender, que nâo estiverão ociosas. Estas as pessas de valor, com que occupava gavetas, como quem n'ellas suppunha as preciosidades de thesouro, com que se podia comprar hum Reino; ou como quem sabia, que aquelle era o thesouro único, que vi- nha a ter préstimo guardado. Mas hião as penitencias, e a idade con- summindo aquella vida, sustentada a desejos de mais mortificada, so- bre serem os achaques contínuos acrédores doesse pouco que vivia. Rom- perão finalmente em humas dores insoportaveis, acompanhadas de con- tínuos e violentos vómitos; durando assim três dias, em que o bom Pre-

(1) Dcpraedari ergo desideiat qui Ihesaurum publicè porlat in via. D. Gregor. bomil. 12.

84 LIVRO I DA HISTORIA DE S. DOMIMGOS

lado (que ao primeiro conheceo, que erão os últimos) se dispoz para aquella hora (que o he da vida) com tanto socego, como senão fora para perdel-a.

Pararão impensadamente os vómitos, recebeo com suavidade os Sa- cramentos, respondendo e ajudando ao da Unção, como se antes o dera, que o recebera, ficando com hunia nova alegria, que bem se lhe divi- sava no semblante, e, como se o reconhecera immortal o achaque, sem demonstrações d'elle. Tal era sua paciência, ou tal a representação do premio, que esperava! Rodeava-o magoada, e saudosa sua família, e ou- tras pessoas graves, que lhe fazião assistência: voltou a todos os olhos com socego ; e com voz desembaraçada pedio a todos perdão do mâo exemplo, que lhes dera, continuando em huma exhortação sobre o que os Catholicos (e especialmente Prelados) devião dar na vida, e na morto authorizando o que dizia com lugares Sagrados, e acções de Santos, com tanta propriedade, e tão genuina acommodação trazidos, como se aquella hora o permittira, ou elle desconhecesse que estava n'ella. Tal era seu socego! Tal sua advertência! Mas aquelle era o estylo, com que os grandes Prelados da primitiva Igreja passavão d'esta á melhor vida.

Acabou : e pondo os olhos em hum Christa crucificado, suspendia a voz, para que fatiasse o espirito, quando dos Religiosos, que lhe as- sistião, lhe disse hum: «Senhor, grande consolação terá Vossa Se- nhoria, de que se lhe acabem os trabalhos com huma vida, que, servindo sempre a Deos, mereceo o ultimo premio, como o prometteo S. Paulo: Ipseautemsalvuserit(i).» Ao que com promptidão, e voz clara, e perce- bida de todos, respondeo: (continuando o lugar do Aposíolo) Sic tamen qunsi per ignem. Como se dissera: Sim se salvará, mas como passando por fogo. Quiz parecer, (porque em hum tal Varão, em tal hora, e com tal advertência não deixava de ser mysteriosa a continuação do Texto, que se lhe tinha trazido) que fallava de illustrado, ou como tão grande Theologo, deixando pêndulo e dúbio o conceito, que se podia formar d^aquellas palavras: Sic tamen quasi per ignem, não se entendendo de próprio, on determinado fogo. Porque na intelligencia do Anjo das Es- colas, nosso Mestre Santo Thomaz, valem tanto como dizer: «Esse, que foi Mestre, e ensinou, conseguirá a vida eterna, mas passando por mar- tyrío, por fogo, por penalidade, ou n'esta vida, ou no Gm d'ella, ou no-

(i; ). ad Corinth. cap. 3. n. lOS.

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PARTICULAR DO REINO DE PORTUGAL 85

fim do Mundo (1).» E quem como este penitente Prelado viveo em hum continuado martyrio, parece, que faltava de si, como visinho áquelle ultimo premio.

Tornou a levantar os olhos nevoados com as sombras da morte, e pondo-os no Crucihxo, lhe entregou por elles a alma, trocando-se-lhe a cor pálida em huma tão viva, e gesto tão composto, e bem assombrado, que lli'o não conhecerão semelhante, nem o virão com tão boa presença no maior vigor de sua vida. Mas essas erão as ventagens da que agora lograva. Testemunhou-o assim o Padre Frei Manoel do Rosário, Religioso da Ordem, reformado e digno de credito, de que atraz temos faltado. Não mereça menos credito o Padre Fr. Ignacio de S. Paio, Religioso lambem da Ordem, que assistia ao bom Prelado, (e este o seu maior abono, ser seu escolhido.) Advertio este Religioso, que sobre o aposento do moribundo se deixara ver hum cometa, mais vivo n'aquella hora, porque consta, que muitos dias antes se divisara. O em que faleceo o Santo Prelado foi o de 2G de Fevereiro de 629 ás cinco para as seis lioras da tarde.

Divulgou-se a morte pela Cidade, com huns effeitos tão fúnebres, como se fora enlutando os corações de seus habitadores. Todos perdião; os pobres pai; as ovelhas pastor; a Igreja Prelado. Dizião-no os clamo- res dos necessitados, confirmava-o a tristeza, e lagrimas de todos. As mais aperta vão nos braços os pequenos filhinhos, e dizião: «Filhos, don- de hemos de hir? A quem hão de recorrer nossas necessidades, que mor- reo o Pai dos pobres?» Estes lamentavão: «Quem nos defenderá dos poderosos, da soberba, da arrogância, e da violência, se se quebrou o escudo da nossa honra, e da nossa vida:» Dizião outros: «Quem se doera de nós? Da nossa aíflicção, da nossa miséria, da nossa desgraça. Se se acabou a piedade, a comiseração, a lastima, e a clemência E lodos em hum lamento confuso dizião, e bradavão: «Donde está o nos- so Bispo santo?» Com esta demonstração (repartida, e repelida pelas ja- nellas, e pelas ruas) acompanharão o corpo até á sepultura. Ahrio-se- Jhe esta no pavimento da Capella mór da Sé, para a parte do Evange- lho; cobre-a hum grande mármore, em que se lem esculpidas estas tetras :

f1) Salvjs Tit salute aeterna, sic tamen quasi per ignem, quem se rrius suslinuit, vel in hac \ila, vel in fine hujus vilae, vcl in íiiie mundi. D. Tíiomas Uic.

8G LIVRO 1 DA HISTORIA DE S. DOMINGOS

Sepultura do Padre Mestre Frei João de Portugal, Bispo que foi de Viseu. Faleceo a 26 de Fevereiro de 1629.

Pequena urna para tanto Fénix, a não tomar a fama á sua conta ou- tra mais elevada ; ou a nâo ser empreza dos que o sâo na virtude, que- rerem, que lh'a lavre a humildade. Era o Mestre Frei João de pro- porcionada estatura, rosto bem afigurado, mas desmaiado, e seco, de exercidos penitentes. Estes, como todos os de sua vida, lhe grangearão a antonomásia de Bispo Santo, com que ainda em vida o appellidava todo aquelle Bispado.

CAPITULO XII

Do Padre Frei Francisco da Purificação, e o Padre Mestre Frei António da Encarnação, que foi Provincial de Arménia, ambos filhos do mesmo Convento de Évora.

Tomou o habito, e professou n'este Convento também por filho d'elle o Padre Frei Francisco da Purificação, mostrando na latinidade, recolhi- mento, e amor do estudo hum talento de tantas esperanças, que logo começarão a ter experiência no exercício das Aulas, passando ao Colle- gio de Coimbra, d'alli ao Porto, a ler a Cadeira de Moral, que temos publica n'aquella Cidade, com grande, e experimentado fruto dos Eccle- siasticos, que alli bebião, e bebem as primeiras doutrinas adestrando-se a apacentar o rebanho das ovelhas de Christo n"aquella Província, e mais Igrejas d'este Reino. Não era menor o interesse, com que o escutavão no Púlpito, sendo tanta sua capacidade para elle, que ouvindo-o cada dia, nem lhe afrouxava o auditório, nem lhe enfraquecia o talento. Do l^orto passou a Lisboa a continuar a leitoria de Moral no Collegio da Rainha Dona Catharina. N'este tempo foi eleito Prior de Elvas, Pátria sua ; e restituído depois a sua Casa de Évora, ordenou novo modo de vida.

Era a sua até alli ordinária, mas descobrindo-se n'ella algumas luzes de que se encaminhava á perfeita, em hum génio humilde, e mo- desto, huma sinceridade de animo, que talvez parecia incomparável com a agudeza de seu entendimento, huma pontualidade na assistência do Coro, especialmente nocturno, por mais que a occupação do estudo o tinha dispensado ; e finalmente hum coração brando, inclinado ao bem do próximo. Com este estylo de vida foi passando, ate que alguns an-

PAUTICULAU DO RÊÍNO DF. POBTUGAL 87

nos antes de sua morte o illusrroii o Ceo para aperfeiçoal-a, merecendo na passada o conselho de adiantar o que lhe restava d'ella. Retirou-se de todo o commercio, (sem ser visto mais que nas Communidades) em- pregando o tempo, que llie grangeara o retiro, no exercício da oração, em que se inílammava para os empregos da penitencia, cercando-se do cilícios, tomando todos os dias huma disciplina, e apertando os jejuns da Regra, a que acrescentava outros de maior estreiteza. Fora sempre devoto da Senhora do Rosário : agora, como se para ella vivera, nao llie deixava o Altar. N'elle oííiciava o Terço todos os dias ; n'elle cantava a Missa todos os S;^bbados; n'elle fazia as praticas todos Domingos, tratando-se em tudo como hum humilde Gapellão seu.

De noite se detinha orando diante de sua Imagem ; em huma o as- saltou, ao que parece, hum pensamento desesperado, (representação de inimigo, que seu concerto de vida traria cuidadoso) porque rompendo o silencio em voz alta, e chorosa, desafogando-se de huma grande ago- nia, disse fallando com a Senhora: «Eu hei me de perder Senhora? Não fio eu tão pouco de vossa grande piedade, e misericórdia: antes serão os meus peccados occasião de mostrar que sois Mai de Deos.» E calloii continuando os soluços. Testemunharão-no alguns Religiosos, (que so achavão fazendo oração em diversas, e distantes Capellas) de que Frei Francisco se julgava seguro, por ser fora de horas.

Enfermou pouco tempo depois, e aggravando-se-lhe a doença, escu- tou sem susto o ultimo desengano da vida- Receheo os Sacramentos de- voto, e alvoroçado. Assim lhe cahião dos olhos as lagrimas com desas- s :)mbro, sahindo-lhe com o mesmo as jaculatórias do peito. Julgava-se aquella inteireza por favor de sua soberana Advogada, e n tendeu d o-se-lhe antecipara a noticia de sua morte, e de que se lhe seguiria a eterna fe- licidade ; porque acabada a Unção, chamou hum Religioso de sua con- fiança, e com hum estranho socego lhe pedio, que mandasse cUzer a hu- mas sobrinhas suas, que elle estava para se partir para o Ceo; que se não desconsolassem, e encomendassem tudo a Deos E voltando-se para os Religiosos, que o Prelado, como he costume, tinha posto, para lhe assistirem, llies disse : «Bem podem ir descançar, que isto não he para agora, porque não acabarei senão d'aqui a oito dias, na primeira Oitava do Natal.» Admirarão-se todos não do que dizia, mas da grande se- gurança, e assento com que o propunha ; mas mostrou-o assim a expe- riência.

88 LlVaO I DA IIISTOUIA DE S. DOMINGOS

Passou os oito dias com li uma paz, e vida Angélica, sem mais que fallar em Deos, pedir, que lhe rezassem, ou ajudassem a rezar o Officio, Rosário da Senhora, e outras devoções, que escutava com muita do- çura ; e chegada a primeira Oitava, depois de advertir, que lhe puzes- sem á cabeceira a Imagem da Senhora do Rosário, e de Christo Cruci- ficado, disse a himi dos Religiosos, que lhe assistião, que fosse tocar as laboas, para que se ajuntasse a Communidade. Tocou-as, ainda que com )'epugnancia, porque nião havia no enfermo sinal de ser aquella a ultima Jiora. Com o mesmo conceito resistião os Religiosos a lhe rezar o OiTi- <io da agonia, mas pedia-o, e huma vela acceza mm tal instancia, que ])areceo nâo lhe se dilatar o que pedia. Tomou a vela, e acabado o Oíficio, aspirou placidamente, deixando a todos igualmente sentidos, e consolados, em a primeira Oitava do Natal, como dissera, anno de 1G43. Jílstâ sepultado no Capitulo.

Nunca o estará o nome de outro filho, em que esta Casa podia li- vrar todo o seu credito, o Mestre Frei António da Encarnação. N'ella lomou o habito, e este foi o berço, em que começou a criar os espiritos, com que depois triunfou, se não de serpentes, de traballios. Abraçou lodos os da Religião com tanta anciã de fazer com elles ditosa grangea- ria, que nem o mais árduo estudo lhe enfraquecia a constância. Parco, i'ecolhido, penitente, e adiantado em huma exemplar reforma, como em annos, quiz sacriíicar a Deos os mais robustos em mais preciosos empre- í>os. Embarcou-se para a índia, d"onde exercitada, e conhecida sua gran- de capacidade, (com que authorizou as Escolas d"aque!la Congregação) alcançou o gráo de Mestre, sem que nos annos, em que o andou mere- cendo, afrouxasse em Púlpito, e Confessionário na applícação da cultura Evangélica, para que o Pai de Famílias o chamara.

Ou fosse outra a causa, ou desejos de dar os últimos abraços á Pá- tria, voltou para ella ; fez o caminho por terra, com a industria de ca- minhar, e aprender, e com tanta ventura, que passando por Arménia, ííscutou muito acaso n'aquelle remoto clima os enfraquecidos eccos da voz Evangélica do espirito Dominicano, que obediente ao Instituto Apostólico, não se estreitou a hum hemisfério: In omnem terramexi' tU sonus eoram (1). Não lhe valerão á Arménia as distancias com que olha para a Europa ; penetrarão os descobridores de milhores índias, ava- liando por thesouros as alm:]s, que enriquecião Catholicas. Achou aqui

{., roulm. 18.

PARTICULAR DO REINO DE PORTUGAL 8D

O Mestre Frei xVntonio hum pequeno, e pobre Convento de Arménios Dominicanos, e observantes a seu estylo, mas guardando n'e]!e tão pou- ca politica Christãa, que os mesmos Sacerdotes cultivavão a terra, pas- sando do Altar a pegar na enxada.

De outra fòrrha temos também esta noticia, que o que achou o Mes- tre Frei António, não era Convento, mas alguns Religiosos dispersos por diíTerentes partes, vivendo com liberdade secular, mas pobremente, sem terem de Dominicos, e Religiosos mais, que o nome. Começou a con- gregal-os, ou advertil-os o novo liospede, a dar-lhe larga, e miúda rela- ção de Tiossas ceremonias, de nosso exercido, e observancias ; pendião da boca do prudente Legislador, como de Oráculo, que o Ceo lhe desti- nara para sua reforma, e era a vida, que n'elle observavão luima anima- da estampa, a que cada hum começou a compor a sua. Desejavão Pre- lado o que escutavão Mestre, recorrerão a Roma, veio o Mestre Frei António feito, e confirmado em Provincial de Arménia. Então entrou em mais maduros cuidados de Legislador ; fez-lhe a nosso estylo Actas, e Ordenações, que vio obedecidas no tempo de sua prelazia, com tanta gloria de as ver observadas, como os súbditos com gosto de se verem observantes. Assim os deixou tão industriados, como saudosos ; e passou a Roma.

Era pelos annos de 168 i, celebrava-se o Capitulo geral, em que sahio eleito em Mestre da Ordem o Mestre Frei João Bautista de Marinis. Achava-se na Cúria o Presentado Frei Manoel deVasconcellos, assistindo a algumas importâncias do Mestre Frei Diniz de Lancastro, Provincial d 'esta Província, que tendo noticia da assistência do Mestre Frei Antó- nio, mandou ordem, para que no Capitulo entrasse como Diffinidor, e o presentado Fr. Manuel como Sócio. Assim conheceo Roma o seu ta- lento, que ainda entre as primeiras personagens fazia vulto, e tão gran- de lugar a sua pessoa, que a teve aquelle grave Congressso por hum es- ])elho da observância, a que toda a Ordem se podia compor, e de que se devia aulhorizar.

Chegado a este Reino, não tardou Bemfica em o querer ver seu Pre- lado, como Casa reformada e costumada a semelhante escolha. Elege- rão-n"o aquelles Religiosos em Prior, honra, que recebeo com agrado, por ter experiência da verdade, com q\ie n"aquella Casa costumava ser escravidão a prelazia. Alli viveo contente, alli esmerou as pontualidades de observante, vendo-se obedecido de huns súbditos, d'onde a reforma,

BO LiVnO I DA ílIStORiA DE S. DOMINGOS

antes que lei, parecia escolha, antes que mortificação, competência. Des- cançava do cargo, quando o Tribunal do Santo Officio de Évora o cha- mou para seu Deputado. Ainda que honroso, era trabalho, havia de achal-o prompto; deixou Bemfica, partio para Évora. Faleceo por este tempo, em que se conta vâo os annos 1654, o Bispo Inquisidor Geral Dom Francisco de Castro. Promoveo a Sede Vacante ao Mestre Frei Pe- dro de Magalliâes de Deputado ao lugar do Conselho Geral da Inquisição de Lisboa; suspiravão n'ella, e n'elle pelo Mestre Frei António, veio a occu- par o lugar de Deputado, que deixava o Mestre Frei Pedro.

Erão pubhcas as noticias de religião e letras, com que o Mestre Frei António se fazia buscado, para plantar ou cultivar reformas; nâo quizerão as muito Religiosas Madres do Sacramento, que se queixassem do seu voto humas qualidades destinadas a ser exemplo. Pedirão-n'o e tiverão- n o Vigário; mas hia-se abbreviando a carreira de sua vida, tantos annos antes sepultada, porque nâo era seu habito mais que huma estreita mor- talha, que o cingia. O jejum continuo, as penitencias repetidas, e des- carregadas em hum corpo seco, e descarnado, o tinhâo reduzido a hum vivo esqueleto. Cahio enfermo, e conhecendo logo, que não seria a cama mais, que hum breve descanço para tornar a caminhar para a sepultura, chamou o Enfermeiro, e fiando d"elle parte do thesouro, com que ti- nha comprado o Ceo, lhe entregou huns cilícios, e disciplinas, para que os sepultasse d'onde ninguém os visse, porque não fiava do estado em que estavão, o segredo do estylo com que servirão. Pedio e recebeo os Sacramentos com animo inteiro : e entre demonstrações penitentes e compungidas, acabou tão suavemente a vida, como se se lhe anticipara a certeza de melhoral-a, em 15 de Outubro de 1605.

Foi o Mestre Frei António da Encarnação hum dos sinalados Theo- logos do seu tempo, de claríssimo entendimento; de sua discrição e na- tural elegância nos ficou segura memoria no additamento, em que des- creveo o Convento de Bemfica no estado em que o poz o desvelo, e- industria do Venerável Padre Mestre Frei João de Vasconcellos. Lè-se na segunda Parte da Chronica do Padre Frei Luiz de Sousa, cuja vida cscreveo também no Prologo d'ella, tão observante nas regras da legi- tima historia, que parece, que com assumpto lhe deo também a penna o Chronista. Sem duvida da mão Hfa tirou a morte, embaraçando-lhe semelhante emprego, a que tinha feito Prologo nas relações das Chris- íandades do Solor, que imprimio, não deixando de ser culpável em sua

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tAnTICULAR m REINO Í)È PORTUGAL

mesma modéstia, o não querer deixar-nos em mais largo papel maior doutrina. iMas praticada máxima entre os grandes talentos, que sempre teve, e tem esta Provinda, sepultar prendas, como se as legitimas te- merão, e se acautelarão contra as jactâncias, ou não as destinara o Geo para publicas, castigando as ommissões dos que, sepultando o talento, esperdição o lucro. Tem sepultura no Capitulo de S. Domingos de Lis- boa. Nem se descuidou o Ceo de singularizal-a na opinião, que ainda corre de que se vio seu corpo inteiro alguns annos depois de sepultado. Forão os que viveo 67 para 68.

CAPITULO XIII

Do Mestre Frei Valeria de São Raymundo, Bispo que foi de Elvas, filho d'esta Casa de Évora.

O mais moderno filho d'esta Casa, e digno de que ella se jacte de o merecer filho, como esta Província de o obedecer Prelado, e a Cadeira de Elvas Bispo, foi o Mestre Frei Valério, filho da nobre Villa de Es- tremoz, de pais honestos, de que sahio com huma Christã educação. Passou nos primeiros annos á da Religião Dominicana, vivendo n'ella com observância, e inteireza de vida ; nos estudos correo as Cadeiras com tal reputação de Letrado, que foi Oráculo da Theologia no seu tem- po. Nas prelazias foi tão conhecido, e buscado o seu zelo, que, depois de occupar muitas, chegou á de toda a Província, em que sua severi- dade desempenhou a reforma, como a sua capacidade encheo o lugar. Assim o pertendião os da maior observância, que o Mosteiro do Sacra- mento (centro d'ella) o pedio, e conservou muito tempo seu Vigário. Chamou-o o Tribunal supremo da Inquisição para seu Deputado, pri- meiro de Évora, depois de Lisboa, adonde passou para o lugar do Con- selho Geral, que exercitou, e encheo com suas letras, prudência e mo- déstia, acompanhadas de huma agigantada estatura, de hum aspecto isento e carregado ; não porque o fosse o seu génio, mas porque nas- ceo (como sua capacidade) seu grande talento com aquella recommen- dação de respeitado.

Finalmente acclamação commua que seguia, e espalhava seu mere- cimento, com as notórias e excellentes calidades de grande Religioso, o grande Letrado o offerecia nas consultas aos melhores votos d'este Rgi-

92 LIVRO I DA HISTORIA DE S. DOMINGOS

no, para os cargos, que nunca o acharão pertendente, e sempre bene- mérito; desengano com que el-Rei Dom Pedro II o poz na Cadeira Epis- copal de Elvas, que venturosamente o recebeo Prelado, e o experimen- tou Pai. Foi sagrado em 10 de Maio de 1683 no Religiosissimo Mosteiro do Sacramento, em que actualmente era Vigário, pelo Illustrissimo A.r- cebispo Inquisidor Geral Dom Yerissimo de Lancastro, Assistentes o Bispo do Uio de Janeiro, e Secretario de Estado Dom Frei Manoel Pe- reira, e o Bispo de Angra Dom Lourenço de Castro, ambos da Ordem dos Pregadores, como se verá n'estes escritos. Tomou posse do Bispado em 22 de Março de 1683. Não mudou Frei Valério mais que de Cidade, porque n'aquella começou o seu Palácio a ser mais hum Convento Do- minicano. O e despido de suas paredes, o pobre de suas alfaias, o modesto e moderado de sua Familia, não era outra cousa. Com o po- bre ornato da sua cella, que levou do Convento de S. Domingos de Lis- boa, poucas cadeiras, barra de páo tosco, mantas é cubertas de seu liso, passou a occupar, e vestir as casas, em que fallava, e se recolhia. Na sua mesa (que era tinelo, a que entrava com os Religiosos, que lhe assistião, e alguns Ecclesiasticos de seu serviço, que nâo passavão de quatro) desconhecido sempre o regalo, não entrava mais que hum prato, (e esse moderado) para sustento. O serviço da mesa, com ordem, e composição de hum religioso, e concertado refeitório, aceio sem osten- tação, ou ornato, porque a sua prata era a que servia nos Ponliíi- caes.

Da assistência da sua se dispensava enfermo. A estes por suas mãos administrava o Viatico, em quanto os achaques lhe não impedirão este exercício ; mas nem poderão elles mais que sua caridade ; que aos Prelados legítimos da Igreja cahem-lhes os grilhões dos pés, e mãos, quando he para o serviço d'ella(l). o bom Prelado se movia com diffi- cu Idade, cheio de chagas, e misérias, effeitos, e resuUancias de huma vida passada entre o desvelo dos livros, o exercidos religiosos, quando (íis-que hum dia (a tempo, que lodo o Povo tinha concorrido á praça da Cidade a hum divertimento de Touros) vem recado á Sé, pedindo a Un- ção para hum moribundo. Fez-se sinal ao Pároco, para que acodisse ; repetio-se sem eífeito ; fez reparo o Bispo, manda saber a causa, e pa- i-ecendo-lhe, como vigilante Pastor, arriscada a detença, sahe de casa ligeiro, antes desconhece, que atropella o embaraço dos pés; entra

(1} Et cccídcruQt calenae de maníLuã ejus. Act. Apost. cap. II.

PARTICULAR DO REINO DE PORTUGAL 9^

na Sé, acompanhado dos seus Religiosos, e Mestre-Escola, sabe com o Óleo sagrado, e nâo podendo ser senão pela praça, em que se divertia o Povo, o caminho para casa do enfermo, se suspendeo todo aquelle concurso á vista d'aquelle Prelado, d'aquelles annos, e d'aquelle zelo.

Este era o que tinha o Bispo Frei Valério para acodir ás suas ove- lhas, igual, e inflexível o da honra de Deos, sendo sua vigilância digna de mais dilatada vida, que ainda que se prolongou a sua, sempre pare- ce ser breve a que he tão necessária. Roubou a morte na sua capacida- de hum dos maiores espíritos, que sustentarão aquella Mitra. Chorarão- no os necessitados, è ainda hoje o suspirão os zelosos, porque no espa- ço de seis annos deixou exemplo para muitos Prelados, e saudades para muitos séculos. Morreo pobre, como viveo esmoler ; e acabou com so- cego de espirito, como quem sempre consultara com elle as obrigações do cargo. Enterrou-se entre os seus Frades no Convento de Elvas, na Casa do Capitulo, que fez para jazigo d'elles, e seu. Faleceo em 29 de Jullio de 1G89. Lô-se na pedra de sua sepultura este Epitáfio :

V. Frater Valerius á Sancto Raijmundo, in Sacra Theologia Magister, ex Ordine Prmdicatorum^ olim m hoc regno Prior Provincialis, Regis^sv- premique Sancti Officii Tribunalis ConsUiariuSy ac nonus Episcopus El- bensis, hoc jussit cediftcare sacellum, pro sua, suorumque fratruin sepul- tura, in qiio nuUns alíus poterit sepeliri,

Obiit die vigésima nona Julii,

anno 1689. Mors omnibus utilis: quiescunt

boni mortui. Cessant peccare improbi.

CAPITULO XIV

Be alguns Religiosos filhos doesta Casa, notáveis em virliide, e letras.

Com advertência deixei para este ultimo Capitulo, (quanto á noticia d'esta Casa) estes filhos d'ella, não lhe desconhecendo, ou negando a antiguidade, que tinhão quasi todos a respeito dos que ficão escritos : mas conhecendo, com a continua queixa do nosso descuido, que de ne- nhum podia haver noticia capaz de encher Capitulo, a que todos jun-

94 LIVRO I DA HISTORIA DE S. DOMINGOS

tos podiâo dar corpo. Mas nem quero, que percão o foro de mais anti- gos, por entrarem últimos n'esta escritura, como nem serão dignos de menos gloria, por não tel-a mais dilatada, entendendo-se, que foi antes roubo do tempo, que falta de assumpto. Assim ficará bastando o seu nctme para fiador de sua vida, como este Capitulo para Catalogo de sua gloria.

Merece-o a de grande, e verdadeiro filho de S. Domingos o Padre Frei Jeronymo Ramos, (que o foi também d'esta Casa) que com voto, e applauso commum se deixou ouvir nos Púlpitos d'este Reino com tan- ta agudeza de engenho, como fervor de espirito. Durão ainda em alguns papeis os eccos d'aquelle brado, que emprestou á sua fama, e em que se deixou perceber o exemplar de sua vida. Perpetuou o Prelo a que escreveo do Infante Santo Dom Fernando.

Floreeeo no mesmo tempo o Padre Mestre Frei Thomaz do Espirito Santo, a que tradições, e memorias mais antigas dão o nome de Vene- rável, escutado n^aquelle século, tão costumado a achar sogeitos dignos d'elle, como a não o empregar em quem o não fosse. Viveo este Padre muitos annos na índia, em que conservou com incançavel zelo a refor- ma, exercitando os Priorados de mais importância com tão conhecido interesse de todos, que houve de occupar lugar, em que se estendesse a todos elles. Assim foi primeiro Vigário Geral, depois Visitador Geral, d'aquella Congregação, a voto, e diligencia do Venerável Padre Mestre Frei Francisco de Bobadilha, que então governava esta Província.

Não foi digno de menos memoria o Mestre Frei Thomaz Galvão, pois entre os grandes descuidos, (braços, em que n'esta Província espirão as memorias de semelhantes talentos) que continuamente vamos sentindo, e culpando, conseguio o conservar-se seu nome com alguma individua- ção em hum assento, que se achou n^esta Casa, e diz o seguinte :

E>'at vir acerrimi íngenii, egregius Prwdicnlor, et Orator, qui etiam stn- áiosissimus fuit non solum lingucB LnlinCB, sed Grwcos etiam, et Ile- braicj}; naufrágio periit in Inãiam navigans cum aiiis gravissimis, do- ctimmisque Patribus. Anno salulis 1590 die 18 Decemhris ex poríu Ulysipponcnsi profecttis est.

Vem a dizer no nosso idioma-; Foi Varão de perspicaz, e vivo en- genho, Pregador e Orador celebrado, estudiosíssimo, e versado nas lin-

PAUTICULAR DO REINO DE PORTUGAL 9o

giias Latina, Grega e Hebraica. Pereceo em naufrágio, passando do porto de Lisboa aos remotos da índia. Partio d'elle em 18 de Dezem- bro de f590.

Não se rcconheceo menos talento em seu irmão o Mestre Frei Igna- cio Galvão, que d^esla Casa foi lambem filho, e ella o reconheceo Pre- lado. Foi grande sua capacidade para tudo, dotado de bum fecundissi- mo engenho, ajudado de grande estudo, como se coUige de dous Tomos, que escreveo sobre a reza de Santo Thomaz, doutos igualmente e dis- cretos, sendo mimo da Providencia a destreza artificiosa de sua penna (de que era dotado) para que o bem discursado tivesse também a ven- tura de bem escrito. Tirou- Mi a da mão a morte, quando a hia alargando em hum discurso sobre o Psalmo Miserere.

Foi também filho d'esta Casa o iMestre Frei Pedro Calvo, com quem gastamos a noticia de ser íilho d'ella, porque de sua capacidade grande no Púlpito he voz ainda viva a sua prédica, quQ em três Tomos anda pelas mãos dos melhores professores d*ella, que sabem estimar o solido, o sincero e o Christão de sua doutrina, bem escutada n"aqueHe século, em que ainda não tinhão sobido ao Púlpito os escândalos de ta- blado. Não he menor argumento de sua erudição outro Tomo, que in- titulou LnqriHias dos Justos. Foi benemérito Pregador de Filippe ÍI em Portugal, III emCastella.

Mas dem-nos licença os filhos d 'esta Casa, a reconhecer singular a hum, que não o foi para sua gloria, mas de toda esta Proviwcia, por suas grandes calidades, eas que costumão ftizer vulto nos votos deSla, como são virtude, e sciencia. Com estas se fez conhecido o Mestre Frei André de Santo Thomaz, tão reformado, e observante Religioso, que muitos annos o conservou Vigário o Mosteiro do Sacramento. (Dissemos já, e ainda o repetiremos em seu lugar, que he aquella Vigairaria o me- lhor argumento de virtude, e authoridade nos escolhidos para ell:)). Alli assistio o Mestre Frei André como em centro de seu espirito, doscan- çando dos largos exercidos do estudo, a que o tornarão a restituir, mandando-o ler a Cadeira de Prima na Universidade de Coimbra, como se roubassem hum centro á sua virtude, para restituírem outro ás suas letras. Erão estas assim grandes, e conhecidas, que se não poderão ne- gar áquella esfera, a que chegão as mais abalizadas. Faleceo e sepultou-so no Collegio de Santo Thomaz de Coimbra, na Capella mór, d'onde hum grande mármore o cobre, e ao Mestre Frei António da Piessurreição,

96 LIVRO I DA HISTORIA DE S. DOMINGOS

seu antecessor na Cadeira, de que passou á do Bispado de Angra. Em tão breve espaço escondeo a morte dous talentos, que parece estreita- vâo o Mundo nomeados. A inscripção que se ie na pedra, continua a noticia de ambos, mas parti l-a-bemos, para que tenha cada hum em seu lugar a noticia, que toca. Diz assim :

Proedicatores Theologi Academiie Primarii ....

E continua na parte inferior :